A OPÇÃO INEVITÁVEL

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Rigorosamente falando, se nos mantemos no plano puramente conceptual, uma opção inevitável poderá considerar-se uma contradição terminológica: porque o que é inevitável nunca pode se optativo.

Na minha reflexão de hoje, partindo de São Pulo – 1 Tes 5, 1-6.9-11; Fil 3, 18-21) – dou especial importância ao adjectivo “inevitável”, porque do ponto de vista teológico, a escolha que nos é proposta pela Revelação divina não contrapõe o “ser mais” ao “ser menos”, ou vice-versa; será sempre o “ser” ao “não ser”.

Passo por passo, o texto sagrado:

“Muitos – de quem várias vezes vos falei e agora até falo a chorar – são, no seu procedimento, inimigos da cruz de Cristo: o seu fim é a perdição”.

Emocionante este chorar do Apóstolo perante a realidade dos que, diz ele, procedem como “inimigos da cruz de Cristo”.

E chora porque “o seu fim é a perdição”.

Sabemos pelo contexto geral das cartas e da vida de São Paulo, que certamente a sua dor se refere de modo especial aos judeus da diáspora, talvez mesmo alguns cristãos que não perseveraram, depois da sua conversão.

Chora, não por eles se afastarem do grupo, reduzindo assim o número dos convertidos; chora porque “o seu fim é a perdição”.

“O seu Deus é o ventre, e gloriam-se da sua vergonha – esses que estão presos às coisas da terra”.

Chama-me a tenção o facto de, nem na Sagrada Escritura, nem na Patrística, em geral, encontrarmos referências particularmente significativas à diminuição dos crentes, devida quer à falta de perseverança quer à violência das grandes perseguições.

Há de tudo, mas a perspectiva dominante é, antes de mais, a desgraça dos que partiram, como diz São João, por não serem dos nossos, presos como estavam ás coisas da terra.

Aos que ficam, que perseveram na fé recebida pelo Baptismo, o Apóstolo e, seguindo o seu exemplo, os grandes pregadores da Tradição apostólica, procuram essencialmente aprofundar a fé, com largas referências à doutrina e às práticas com ela coerentes.

“É que, para nós, a cidade a que pertencemos está nos céus, de onde certamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso, com aquela energia que o torna capaz de a si mesmo sujeitar todas as coisas” (vv 20-21).

Confesso que me causa um grande desconforto a persistência com que na comunicação social, se fala da crise de vocações e da desertificação das igrejas. Isto, não apenas em programas intencionalmente montados em ordem à desmobilização geral dos crentes.

O que me choca mais é que sejam muitas vezes os próprios pastores, certamente carregados de boas intenções, a ocupar “tempos de antena” que acabam por estar ao serviço dessa desmobilização.

Jesus Cristo não é uma alternativa, uma opção entre outras possíveis; é a única verdade que salva, e quem não opta por Ele, escolhe a perdição.

Por estes chora São Paulo; mas aos que ficam, aos que se mantêm fiéis, felicita-os e exorta-os a firmarem e formarem a sua fé, de tal modo que se tornem luzeiros que iluminam, mais do que ruídos que ensurdecem.

Não nego que a sociologia religiosa tenha o seu valor e possa servir de inspiradora numa correcta programação pastoral.

Mas as ciências auxiliares da fé, pouco o nada valem sem essa fé; podem até tornar-se extremamente perigosas.

Não interessa que uma comunidade cresça em número, se não cresce na adesão a Jesus Cristo: o Cristo da fé, misteriosamente presente na Igreja.

Nesta fé, vivida com práticas concretas de estudo, meditação e reflexão, particular e comunitária, têm de ser formados de modo muito especial os que, pelo sacramento da ordem, são, ou se destinam a ser participantes do sacerdócio de Cristo cabeça.

A terminar, peço licença para utilizar meia dúzia de palavras que respigo, em tradução livre, da última das meditações sobre a figura do padre, dedicadas aos seminaristas de todo o mundo, por um ilustre membro do Colégio cardinalício:

A formação dos padres é um dever capital, antes de mais nada. dos bispos. Qualquer bispo deveria ter a liberdade de abrir, para a sua diocese, um verdadeiro seminário, ainda que hoje se ponha muitas vezes em questão o modelo clássico desta instituição

Alguns preferem as estruturas universitárias; mas será que isso convém a um futuro padre? Um seminarista não é apenas um estudante: é um candidato a ser padre, e um padre é, antes de mais e acima de tudo, um ministro de Cristo.

Para alcançar uma alma de padre, precisa de fazer a experiência de uma forma de vida sacerdotal, com alguns elementos essenciais: vida de oração individual e comunitária: um certo afastamento do mundo e da agitação mediática; uma vida de amor fraterno, na obediência ao bispo ou seu representante.

Com todo o respeito por quem pense de outro modo.

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