SESSENTA E QUATRO ANOS DEPOIS

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Desde manhã que um sol esplendoroso realçava a brancura das recéns caiadas paredes da igreja: celebrava-se então a memória litúrgica de São Pio X, que se tornara bispo de Roma sessenta anos antes, e fora o primeiro papa a ser canonizado, depois de São Pio V (1566-1572[1712]).

Há muito devoto desse bispo de Roma, do qual ouvira falar desde muito cedo como “o papa da Eucaristia e das crianças”, eu escolhera expressamente esse dia para a minha então designada “Festa da Missa Nova”.

É uma festa da qual guardo um enorme pacote de lembranças, entre as quais aquele bando de crianças que, quando me dirigia para a igreja, acompanhavam o canto das pessoas, lançando sobre mim uma enorme chuva de pétalas coloridas.

Emocionante! Tanto, que me cortou a palavra quando, antes de iniciar a celebração propriamente dita – nesse tempo, as rubricas não permitiam o uso do vulgar nas “missas cantadas”, para além da homilia -, quis agradecer a presença e o carinho de toda aquela gente.

Emocionante, mas o que nunca mais pude esquecer foi aquele gesto de piedade recolhida de meu pai, logo após a comunhão que recebera de minhas mãos sacerdotais; gesto que, com um raro sentimento de oportunidade, gravara um dos meus formadores, entusiasta da fotografia amadora.

Muitas vezes contemplei essa imagem – que será feito daquela fotografia? -, que sempre me fazia recordar a história que ouvira contar, do diálogo daquele cardeal que morreu arcebispo de Lisboa e teria dito para a mãe, logo após sua ordenação episcopal:

– Mãezinha, olhe que lindo anel me ofereceram os meus amigos!

Resposta da mãe, mostrando a aliança matrimonial: não te esqueças de que sem este, nunca terias tido esse.

Mais tarde, muito mais tarde, escutei a pregação convincente de São Josemaria e compreendi melhor porque que é que, com tanta frequência dizia aos que seguiam a sua espiritualidade que aos pais deviam tudo: a vida, a fé e a vocação.

Falo de mim e da minha caminhada pessoal, sem a pretensão de negar que cada caso é um caso, objecto e sujeito da misteriosa bondade de Deus.

Mas eu tinha de trazer isto à baila hoje, por dois motivos, duas moções que não me permitem passar a adiante, sem realçar alguns dos luzeiros que fazem com que, de certo mudo, continue esplendoroso o sol que, nesse já longínquo três de Setembro, tornava mis vivo o branco das paredes da igreja onde fora baptizado, celebrara pela primeira vez o sacramento da Reconciliação, fizera a primeira Comunhão e ia cantar a minha primeira Missa.

Duas razões: esta a primeira.

A segunda, querida Rosa Camões, a celebração do aniversário do seu casamento, a propósito do qual pediu, com toda e legitimidade, aos sacerdotes utentes desta casa, que rezassem de modo especial neste dia.

O casamento, pelo vínculo sagrado que nele se cria, tem a mesma origem divina e constitui a mesma fonte inesgotável de graças, que a ordenação sacerdotal.

De tal maneira que, como sobejamente demonstra a história das instituições, a crise da família, no civil como no religioso, sempre foi acompanhada por muitas e graves crises no sacerdócio.

Creio que a Rosa não me levará a mal que, na sua pessoa, do seu marido e das suas meninas, preste homenagem a todas as senhoras que, nesta casa, com tanta competência dedicação e carinho – que inclui a extraordinária paciência com que suportam os caprichos da nossa dupla infância – nos ajudam a ter uma qualidade de vida que talvez não seja tão comum como se pensa.

Nesta homenagem, incluo, de coração nas mãos agradecidas, os respectivos maridos e restantes membros da família… sem a entrega dos quais, não se pode sair para a rua com todas as componentes necessárias a um trabalho que espalhe felicidade para todos.

– Temos todos muitos defeitos!

É uma expressão comum, conceptualmente correcta, mas que temos o hábito de usar, acrescentando a esses defeitos mais um: o de não fazermos nada para que o mundo se torne melhor.

A família é o santuário do serviço gratuito, do amor, da única escravidão que nos torna verdadeiramente livres, onde se aprende a virtude, não como quem toma o peso e analisa as jóias que guarda no armário, mas onde cada um faz generosamente o que lhe compete para felicidade de todos.

Quando o meu olhar se cruza com o dos componentes do corpo clínico – médico e enfermeiras – ou com as colaboradoras de serviço, não tenho muita dificuldade em perceber o que nesse olhar se espelha do que se passa no agregado familiar.

Por isso não posso homenagear a esposa e a mãe, sem exprimir a minha gratidão pelo marido e os filhos.

Homenagem que inclui uma prece ardente por todos à Família de Nazaré, onde Jesus, que é Deus feito homem, aprendeu que só a fidelidade do Pai salva o mundo.

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