A ÚLTIMA MOTIVAÇÃO

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Confesso que o medo dos equívocos me fez hesitar longamente sobre que adjectivo devia antepor ao nome “motivação”, já de si extremamente polissémico e talvez demasiado abstracto para encimar uma reflexão que, mantendo-se nos limites da comunidade cristã, se ocupa de uma questão pastoral eminentemente prática.

Esclareço: eminentemente não significa de modo nenhum exclusivamente, como sabemos todos e se verá na sequência da mesma reflexão. Isto significa também que, ao fechar-me nos limites da vida interna da comunidade cristão, reduzo talvez drasticamente, a polissemia de muitos outros termos.

A estes pertence a palavra “vocação”, que, desde a infância ouvi usar em sentidos tão díspares, como “gosto”, “inclinação”, “capacidade”, “engenho”, “competência”, etc… No meio de tão grande variedade de empregos, quase se esqueceu a sua origem etimológica; latim “uocare”/ “uocatio”: “chamar”/ “chamamento”, que, por sua vez derivam de um termo de maior implicação pessoal, como é o caso de “clamare”.

Apesar da sua real importância, não vamos agora ocupar-nos de questões de linguagem e passamos ao tema central da minha reflexão.

Disseram-me um dia que a pastoral das vocações era transversal, porque toda a acção pastoral da Igreja devia ser vocacional.

Achei correcta a observação, até que, passados tempos, em contexto semelhante, ouvi alguém constituído em autoridade, descartar a sugestão de uma referência à acção da Igreja na evangelização da cultura, com uma afirmação semelhante: a pstoral da cultura seria também transversal. E aí, ficou claro para mim, como, com palavras correctas, se promove o desleixo e o abandono de actividades que, precisamente por serem transversais, não entram como deviam entrar, no âmbito das nossas inquietações e, muito menos ainda, no quadro dos nossos projectos.

Voltando à questão das vocações:

Foi também uma longa aprendizagem que me ajudaram a fazer os meus formadores e o permanente esforço de revisão de noções teóricas e práticas, para ir dos conceitos mais genéricos do falar comum da minha aldeia, até ao que hoje me fornece a teologia, a pastoral e o direito, para, sem perder o respeito pelas legítimas estruturas da comunidade, não deixar que elas afoguem o essencial, que é a natureza e a alma de todo o apostolado cristão.

Reduzo a vastidão do campo ao quadro específico daquilo que se costuma designar por promoção e pastoral das vocações no seio da Igreja. Neste reduzido mundo conceptual, encontro três áreas distintas cuja confusão, operada a vários níveis, principalmente nas últimas décadas, talvez esteja na origem de algumas imprecisões, para não dizer erros, nessa promoção e pastoral.

Há, antes de mais, a vocação geral à santidade, condição comum de todo o indivíduo validamente baptizado: doutrina perene da Igreja, vivida desde sempre por milhares de crentes, foi solenemente proclamada no último Concílio Ecuménico. São inúmeros os caminhos por onde o fiel cristão pode realizar este chamamento divino. Deles fazem parte os diversos carismas, ou graças especiais que Deus concede muitas vezes à Igreja a viverem, em comum ou individualmente, uma determinada espiritualidade, à qual podem ou não juntar, com o aval da autoridade competente, um serviço concreto à Igreja, ou ao mundo, em nome da mesma Igreja. Aqui incluo eu, embora não de forma exclusiva, o que convencionou chamar-se vocação à vida religiosa; ou – quanto a mim, muito impropriamente – “vida consagrada”.

Aprofundando bem os conceitos, falar de vocação divina, chamamento pessoal de Deus na sua estrutura interna completa, não precisaria de mais especificações.

Acontece, porém, que a necessidade de estabelecer normas regulamentadoras do exercício dos diferentes serviços dentro da comunidade crente, cada vez mais pressionada, tanto pela reflexão teológica e canónica, como pelos problemas inerentes à condição cultural e civil das comunidades, levou a que se criassem estruturas adequadas à selecção e formação das pessoas destinadas a resses serviços.

Foi, por exemplo, o caso da legislação sobre o casamento, em relação aos candidatos às ordens sacras: diaconado, presbiterado e episcopado.

Este foi um dos campos em que se criaram algumas diferenças entre o Oriente e o Ocidente, diferenças que, afinal, não tão profundas como às vezes se faz crer.

Apesar da clareza da encíclica de São Paulo VI, continuamos a precisar de uma reflexão teológica a pastoral sobre o tema, devido às confusões criadas ao confundir-se vocação divina à santidade, especificada ou não por um determinado carisma, com o chamamento a desempenhar na Igreja um determinado ministério.

Como a suprema motivação de resposta ao chamamento divino tem de ser sempre o amor de Deus, pedir muitas vocações, será, antes de mais e acima de tudo, compromisso e petição, para que, naquilo que depende de nós, chegue a todos o chamamento à graça do Reino.

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