17 – Bombas/petardos na entrada do Bispo em Leiria

No artigo n.º 15, abordámos a entrada festiva de D. José Alves Correia da Silva em Leiria, a 5 de agosto de 1920, como primeiro Bispo da Diocese restaurada. Mas “nem tudo foram rosas”.

Seria natural que se tivesse organizado um cortejo a pé, desde a estação de comboio até à igreja do Espírito Santo, onde se paramentou, e depois para a Sé. “O Mensageiro”, na sua edição de 13 de agosto desse ano, refere que a Comissão Instaladora da Diocese “desejou sempre fazer todos os festejos de harmonia com as autoridades, tendo recebido destas a promessa de que seriam autorizadas as manifestações religiosas nas ruas do percurso”. Mas as autoridades de Leiria, segundo o jornal, “não quiseram consentir o cortejo, fingindo recear alteração da ordem, como se os habitantes de Leiria não fossem pessoas educadas, mas díscolos encomendados de Lisboa e outras partes para fomentar desordens”. O semanário lamenta que “a deliberação da loja maçónica Gomes Freire vale mais do que o desejo dum povo inteiro” e remata: “Sabemos mesmo, de fonte autorizada, que de Lisboa emanou ordem para se realizar o cortejo e os pretextos que se alegaram [em Leiria] para se não efetivar essa ordem”.

Refere ainda “O Mensageiro” que “os boatos espalhados nos últimos dias e a própria distribuição de um nojento pasquim, que tinha a assinatura da Associação do Registo Civil em que se faziam ameaças de bombas no cortejo, incitamentos à desordem, atemorizava os tímidos demonstrando raiva em que viviam os que procuravam tirar o brilho aos festejos. Eram onze e meia da noite de 4 quando rebentou na cidade a primeira bomba [hoje diríamos que seria um petardo] para lançar a confusão nos espíritos. Minutos antes da meia noite rebentou outra e esta produzindo enorme estampido, por momentos fez acreditar que fora lançada contra o Paço Episcopal [era no Terreiro, na casa dos Charters d’Azevedo, mais tarde Pousada da Juventude], o que não sucedera. Dirigindo-nos para ali verificamos serem injustificadas as suspeitas constatando que o fim era só atemorizar. Quando passamos defronte do Paço rebentou outra na rua de S. Braz e em seguida na Sé, Bairro dos Anjos, etc. Percebidos os fins, as detonações eram ouvidas no meio de gargalhadas de uns e receios de outros, e foi nesta disposição de espírito que alvoreceu o dia 5” [de agosto de 1920].

Várias pessoas se retiraram da cidade, com medo, outras não tomaram parte da delegação que de comboio foi a Alfarelos buscar o Prelado e acompanhá-lo a Leiria, mas durante a deslocação do novo bispo em Leiria, que teve de fazer-se de automóvel, não faltaram janelas engalanadas, flores atiradas e muita gente na rua.

Ficou claro que uma parte da cidade não aceitou facilmente que a Diocese fosse restaurada, pois tal levava a que o clero voltasse a ter, em Leiria, a importância que tinha tido. As visões dos pastorinhos, uns anos antes, em Fátima, incomodavam também muita gente. Muitos afirmavam que Fátima não era mais do que uma operação montada pelo clero, mesmo tendo em atenção o que relatavam os três inocentes videntes. Quer a loja Gomes Freire, da maçonaria leiriense, se bem que em extinção, quer principalmente a Associação do Registo Civil (que conseguiu que se criasse um registo civil tirando importância aos registos paroquiais), quer ainda aqueles que não acreditavam que os videntes tivessem tido as visões que apregoavam, foram os responsáveis pelo clima de intimidação, mas que na prática não resultou, pois eram minoritários.

Ricardo Charters d’Azevedo


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