TRÊS FIGURAS, TRÊS OLHARES, UMA SÓ FÉ

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Linda tarde de sol, este Dia de Páscoa! Evito distrair-me com a profusão de sudações que me chegam de todos os lados… que me perdoem os familiares e amigos, que todos certamente compreenderão a minha vontade de ficar em silêncio, para assim – livre de formalidades – poder aproximar-me mais de Deus com todos eles, porque a todos tenho no coração.

Linda tarde de sol!

Depois de reler o episódio dos discípulos desencantados a caminho de Emaús, volto ao início do capítulo vinte de João, procurando também não me distrair demasiado com saber se o discípulo que Jesus amava se pode ou não identificar com o apóstolo que tinha este nome e teria sido o autor humano do quarto evangelho.

Quanto a mim, se os autores aprovados que leio estão correctos, não será o mesmo, a não ser indirectamente, através de algum dos seus discípulos. Por isso leio os primeiros nove versículos do capítulo vinte como um todo, sem identificar os personagens, que me parecem sobretudo figuras reagindo, cada qual a seu modo, perante os sinais da Ressurreição do Senhor: a madrugada ainda escura da ida de Maria Madalena, a pedra removida da boca do sepulcro, a estranha arrumação dos panos que haviam envolvido o corpo de Jesus.

Figuras, mais do que personagens, a quem o evangelista atribui olhares cuja diferença não se traduz facilmente nas nossas línguas modernas, mas que é clara, no texto original grego, um dos mais cuidados do Novo Testamento.

Temos, em primeiro lugar, a Madalena, cuja paixão por Cristo, ainda envolvida no escuro da perda do Senhor, repara com desgosto que Ele não está lá: a pedra removida não seria mais do que um reforço da suspeita de que o haviam roubado. Com toda a naturalidade, corre a avisar os discípulos, quase a pedir que se apressem, porque as coisas estão a ir de mal a pior.

Certamente que os discípulos comungam da preocupação da Madalena; mas talvez com intensidades diferentes: um como ela inquieto com o que teria acontecido, corre imediatamente, vê que a mulher tem razão quanto ao sepulcro vazio, mas repara, ao contrário dela, nos outros sinais.

Sabe, porém, que não lhe competirá a ele explicar os factos; por isso não entra.

Esta competência será a de Simão Pedro, que não figura o “discípulo que Jesus ama”, mas o que terá de confirmar todos os outros na sua fé: por isso o verbo usado pelo autor sagrado já não fala tanto de ver apenas, mas em ver e explicar. Um verbo ao qual as línguas modernas foram buscar, entre outras, palavras “teoria”, “teórico” e “teorizar”.

Chama-me particularmente a atenção o facto de só se falar em ver e acreditar, quando se descreve a reacção do outro discípulo (o discípulo que Jesus amava).

É por isso que tenho grande dificuldade em identificar as três figuras deste episódio com personagens concretos, como se tivéssemos aqui o relato quase jornalístico do que aconteceu ao amanhecer do primeiro dia após o sábado, segundo a linguagem do próprio evangelista.

Recordando a afirmação de Marcos sobre as trevas que cobriram a terra (Cfr Mc 15, 33), no momento da morte de Jesus, tomo como ponto de partida as referências de João ao escuro da hora em que a Madalena vai ao sepulcro: é ainda a hora das trevas para o coração apaixonando que se conserva num plano puramente terreno; trevas que só desaparecerão quando o discípulo amado entra, vê e acredita.

É claro que as figuras da primeira descoberta de que Jesus está vivo indicam, não definem momentos cronologicamente diferentes dessa descoberta, mas passos que todos terão de dar para que tal descoberta se torne, de facto, uma experiência vital, como a da Madalena, à qual, quando ainda chorava pela perda de Cristo morto, lhe aparece o mesmo Cristo vivo, chamando-a pelo nome.

Todos sabemos – já era assim, nos tempos bíblicos do Antigo Testamento – que chamar alguém pelo nome indica uma intimidade e uma conivência especialíssima.

Penso que não estou errado se ao ler – mais rezar do que ler – este trecho de João, vejo nele retratado o mundo inteiro, sem dúvida; mas de modo muito especial a Igreja, como presença do mistério de Cristo na história dos homens.

A Igreja e cada um dos crentes, que, perante os sinais da Ressurreição de Cristo, têm de fazer a caminhada da tristeza da Madalena que vai da tristeza de sentir Cristo morto e roubado à alegria de realizar o mandato de Cristo vivo (Cfr Jo 20, 17-18).

Embora o “viu e acreditou”, se diga só de João, por alguma coisa ele é o “discípulo amado”; expressão misteriosa, mas que não pode traduzir-se, como muitos fazem, por o “discípulo predilecto”, sobretudo se temos em conta o que significa, no português actual a palavra “predilecto”.

Tenho para mim que estas três figuras indicam também funções diferentes dos discípulos no interior da comunidade crente: a busca diligente e amorosa do Mestre por parte de todos, a corrida do coração apaixonado para destrinçar a boa notícia dos boatos, a serenidade de quem deve confirmar a verdade dos fundamentos da fé… e a fé que, além de ser a mesma, tem de crescer permanentemente nos três, sob pena de se traírem a si próprios.

(Fátima, 26.04.05)

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