TER PARTE COM O SENHOR

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

“Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?». Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo»” (Jo 13, 6-8).

“Dia do Grande Silêncio”, chamou a mais antiga tradição cristã a este sábado, que liga, com a “mãe de todas as vigílias”, a celebração da Páscoa ao mistério da “Passagem do Senhor”; passagem que, de um modo ou de outro, será sempre, ao longo do ano, o cerne de todas as celebrações.

Orígenes chamava ao texto atribuído a João a “flor dos evangelhos”; designação que, apesar da sua antiguidade (Sec III-IV), ainda não foi ultrapassada por nenhuma outra.

Há quem, na discussão sobre a autoria humana deste evangelho, fale de uma profunda meditação da comunidade crente. Meditação que, afinal, teve de ser guiada pelo Espírito Santo, não só através da fé de quem escrevia, mas também como graça inspiradora de uma mensagem divina.

Ainda que seja importante o tema– do qual depende também a interpretação de alguns pormenores -, não é minha intenção ocupar-me dele, neste momento: Ofereço aos meus amigos a meditação pessoal que, para preencher o silêncio desta manhã, fui conduzindo, com a alegria que, apresar de todos os pesares, me inspira a fé na ressurreição, a do Senhor, que é também a nossa.

Digo “é”, para que se entenda que, quanto a mim, no que penso seguir os melhores autores, o conceito teológico de ressurreição, como objecto da nossa fé, não será algo de exclusivamente futuro: não significa um regresso à vida e muito pouco terá a ver com a ressurreição dos corpos.

É um assunto muito sério, por vezes camuflado pelas práticas tradicionais e da própria liturgia: um daqueles assuntos que exigem urgente melhoria da nossa catequese litúrgica, que não pode descurar o rigor da linguagem.

No silêncio desta minha alegria pascal, procurei sentir, quase como se estivesse lá, a solenidade daquele começo do capítulo treze de São João:

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, f ilho de Simão, a ideia de O entregar, Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura.

Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?». Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa” (Jo 13, 1-11).

Quase todas as palavras merecem uma profunda meditação, porque, segundo a economia narrativa do quarto evangelho, tudo quanto se diz ou faz pertence ao conteúdo da mensagem divina.

Porque não há tempo para mais, fixo-me na cena, com o respectivo diálogo, de Jesus com Simão Pedro: abundam por aí os sermões sobre a humildade do Filho de Deus, de joelhos, como o escravo perante o seu senhor, ou o hospedeiro no acolhimento do seu hóspede; só acho que a humilhação do Verbo e do amor que a produz é a alma de todo o mistério da Encarnação.

O que me parece mais significativo nesta cena é a resposta de Jesus ao espanto de Simão Pedro; espanto que vem recheado de teimosia: afinal um certo orgulho com que reage perante a humilhação do Mestre; o Mestre, que também não explica o Seu gesto: em última análise, responde com um novo desafio, que é, de facto, a porta por onde Simão, despojando-se dos seus critérios puramente humanos – lava-me “não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça” – entra messianidade do Mestre.

Não se nos diz como reagiram os outros comensais. O que reforça a ideia de que Simão, aqui, para além do pescador da Galileia, é a cabeça do Colégio apostólico, a Igreja, que, como comunidade crente, tem de ser a primeira a espantar-se com o modo como Deus conduz a marcha da história; mas, partindo deste espanto, reforçar a sua união a Cristo, sem o Qual não passará nunca de uma ONG, como tanta gente a considera hoje, uns para a louvarem, outros para a condenarem.

“Se não tos lavar, não terás parte comigo”!

Aviso muito sério aos que se esquecem de que o Baptismo é, no fundo, uma colação ao serviço da messianidade de Cristo e o sacerdócio ministerial, que ninguém pode reclamar para si, a vocação de ir, para além de qualquer espanto, onde o mais ligeiro apego a um critério puramente humano pode identificar-nos, não com Pedro, mas com Judas: Judas, que, por alguma coisa se menciona neste estar ou não estar limpo.

(Fátima, 26.04.04: Sábado Santo)

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