Tempo de abrir as portas

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Lembro-me de, na minha infância, passar por uma igreja e saber, quase instintivamente, que a porta estaria aberta. Podíamos entrar. Às vezes para rezar, outras vezes apenas para permanecer alguns minutos em silêncio, naquele ambiente fresco e sereno que parecia existir fora do ritmo acelerado da vida quotidiana. Aliás, entrar numa igreja para fazer uma breve visita ao Santíssimo Sacramento era um convite permanente que fazia parte da cultura religiosa de muitas comunidades. Hoje, infelizmente, a realidade é muito diferente, já que as igrejas permanecem fechadas durante grande parte do dia. É uma decisão compreensível devido aos furtos, vandalismos e assaltos que, ao longo das últimas décadas, têm atingido não apenas as caixas de esmolas, mas também peças e objetos do património artístico e religioso. Ainda assim, nestes dias de calor extremo que Portugal e boa parte da Europa têm vivido, dei por mim a pensar novamente nessas portas que outrora permaneciam abertas e a perguntar-me se, perante determinadas circunstâncias, não seria profundamente humano e, por isso, também profundamente cristão, em voltar a abri-las.

Durante grande parte da história do cristianismo ninguém estranharia esta pergunta. Pelo contrário. Durante séculos, as igrejas foram precisamente isso: lugares para onde se ia quando a vida se tornava demasiado difícil para ser enfrentada sozinho.

Quando havia guerras, procurava-se a igreja. Quando havia fome, procurava-se a igreja. Quando surgiam epidemias, incêndios ou calamidades, procurava-se a igreja. E não apenas porque ali se rezava, mas porque ali se encontrava comunidade, proteção e, sobretudo, acolhimento.

Teremos esquecido esta dimensão porque, felizmente, deixámos de precisar dela tantas vezes por estas razões. Ou talvez porque nos habituámos a pensar nas igrejas sobretudo como lugares destinados ao culto, esquecendo que, ao longo da história, elas foram também o coração social das comunidades.

Insisto: há qualquer coisa de profundamente humano e cristão na ideia de uma igreja que abre as suas portas num dia de calor extremo para oferecer sombra, silêncio e um copo de água fresca. Não se trata de transformar templos em centros comerciais climatizados, nem de lhes atribuir funções que não lhes pertencem. Trata-se apenas de recordar que a hospitalidade sempre foi uma das linguagens mais eloquentes da fé. É precisamente nestes pequenos gestos que uma comunidade revela quem verdadeiramente é, porque acolher alguém que procura abrigo do calor não é uma distração relativamente à missão da Igreja. É uma das formas mais antigas de a cumprir.

Penso, por vezes, no espanto que esta discussão poderia provocar aos nossos antepassados. Eles, que construíram igrejas no centro das aldeias e das cidades, dificilmente compreenderiam a necessidade contemporânea de decidir sobre a possibilidade de as utilizar para proteger pessoas vulneráveis durante alguns dias particularmente difíceis. Talvez nos perguntassem, com uma simplicidade desarmante: então, para que julgavam vocês que serviam as portas?

Naturalmente, nem todas as igrejas têm as mesmas condições. Nem todas podem responder da mesma maneira. Mas talvez a questão mais importante não seja logística. Talvez seja espiritual. Ou, se preferirmos, humana. Há momentos em que uma porta aberta vale mais do que muitos discursos.

E talvez, quando este verão passar, como todos os verões acabam por passar, possamos recordar que, no meio do calor abrasador, houve lugares que ofereceram algo mais do que alguns graus a menos. Ofereceram aquilo que as igrejas sempre procuraram oferecer ao longo dos séculos: a certeza de que ninguém deve enfrentar sozinho as intempéries da vida.

E, quando as temperaturas finalmente descerem, pode ser que descubramos que aquilo que realmente refrescou o ambiente não foi apenas a espessura das paredes ou a sombra das pedras antigas, mas a simples decisão de abrir uma porta e dizer: “Entre. Aqui há lugar para si.”

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