Quando a tempestade Kristin fustigou Leiria na madrugada de 27 para 28 de janeiro, transformando a cidade num cenário de guerra, poucos imaginaram que o Seminário Diocesano se tornaria o coração da operação de resposta à catástrofe. À frente dessa estrutura está Telma Duarte, 47 anos, natural de Moinhos de Carvide, licenciada em arqueologia com pós-graduação em coordenação de segurança. Na Câmara Municipal de Leiria desde 2017, é atualmente adjunta do vereador José Cunha. Mãe de dois filhos de 15 e 12 anos, o seu nome pode não ser conhecido, mas com ela e a sua equipa de voluntários, os milhares de operacionais que trabalharam no terreno tiveram onde comer, descansar ou recuperar forças.

Durante mais de duas semanas, Telma tem vivido praticamente no seminário, coordenando uma operação logística de dimensões impensáveis: chegaram a servir mais de duas mil refeições por dia, entre almoços e jantares, para bombeiros, militares, fuzileiros da Marinha, PSP, GNR e Sapadores. Tudo isto gerido com equipas de voluntários que entravam às sete da manhã e, nos primeiros dias, só saíam à meia-noite ou uma da madrugada.
“Eu acho que nunca ninguém está preparado para um acontecimento desta dimensão”, confessa Telma, sentada numa das mesas do refeitório que se transformou no centro nevrálgico da operação. “Nós estamos aqui no nosso cantinho e achamos sempre que nada nos acontece. É sempre para os outros”, desabafa, para início de conversa.
A dimensão do impensável
A experiência profissional da Telma foi na fiscalização de obras, principalmente privadas. Passou pela pandemia, viveu o ciclone Leslie em 2018 e os incêndios de 2017. Mas nada a preparou para a Kristin: “acabou por ser período mais marcante em todas as vertentes, não só pela dimensão que teve, mas também pelos meios envolvidos.”
A sua chegada ao seminário foi quase casual. “Estava nos Sapadores e, de repente, alguém disse: era preciso organizar as refeições. Não tenho ninguém. E eu disse: posso ajudar.” Esse “posso ajudar” transformou-se numa maratona de dedicação absoluta que ainda não parou.
Inicialmente, a estrutura foi montada apenas para alimentar os operacionais no terreno. Mas depressa ganhou proporções inimagináveis. “Começámos a ter pedidos de voluntários para vir aqui almoçar. E é óbvio que tivemos de começar também a selecionar, porque senão tínhamos de abrir a porta a toda a gente e era difícil controlar.”
Nos primeiros dias, houve ainda dormidas no seminário — cerca de 70 pessoas por noite —, porque o próprio estádio municipal, que deveria servir de abrigo, estava destruído e sem condições. “Todas as nossas instalações que podiam servir de abrigo ou de apoio, à semelhança de todas as infraestruturas que existem na cidade, estavam completamente destruídas.”
A logística do impossível
Coordenar refeições para dois mil operacionais, em turnos que começam às sete da manhã com a preparação de pequenos-almoços, não é tarefa para amadores. Telma aprendeu na prática, numa escola feita de tentativa e erro, de adaptação constante. “Isto acaba por ser uma escola, uma aprendizagem que se vai fazendo e vai-se adaptando.”
A articulação com o posto de comando, que passava as orientações sobre quantas refeições seriam necessárias, nem sempre era fácil. “Era muito difícil controlar”, admite. Depois havia que comunicar com a empresa responsável pela confeção das refeições e garantir que tudo funcionava sem falhas.
Mas o maior desafio não foi a logística das refeições. Foi a gestão de pessoas. “Isto acaba por ser um bocadinho ingrato, no sentido em que a ajuda que temos aqui é toda de voluntários”, explica a Telma. “Numa primeira fase, quando estava tudo fechado, era fácil ter aqui pessoas que até queriam sentir-se úteis. Depois, a partir do momento em que tiveram de regressar aos postos de trabalho, acabou por se tornar mais difícil.”
Gerir voluntários em situação de stress extremo exige competências que ninguém ensina em curso algum. “Nestas situações, o querer ser voluntário por si só não basta”, afirma com franqueza. “Nós, aqui, acabamos por ter que também fazer uma gestão do stress, de gestão de pessoas.”
A Telma reconhece que o cansaço já pesa. Desde o dia 28 de janeiro não parou um único dia. “Eu peço muitas vezes desculpa aqui aos voluntários, tenho plena noção que não sou tão tolerante, ou já não tenho a mesma paciência”, confessa. É um dos sintomas da falta de descanso prolongado.
Essa é uma realidade que a Telma partilha com muitos outros. “Ao conversar com pessoas conhecidas, percebo claramente que houve muita coisa que ficou para trás.” São as escolhas que se fazem em contexto de catástrofe: criar prioridades, hierarquias. “Se calhar para muita gente a prioridade é, sem dúvida, os meus pais, os meus filhos. Mas eu sei que eles também estão bem, e isso acaba por me tranquilizar mais e permitir que a minha entrega seja de outra forma.”
Os gestos que sustentam
No meio do caos e da exaustão, há momentos que fazem a diferença. A Telma guarda um e-mail que recebeu dos bombeiros voluntários de Castelo de Paiva — uma corporação que conhece bem a tragédia, tendo vivido a queda da ponte de Entre-os-Rios há anos. “Foi um e-mail tão genuíno, escrito de uma forma tão natural, a agradecer a todos a forma como foram recebidos. O cuidado de quem está ali, sem ninguém dar por eles, para que não lhes faltasse nada.”
São estes pequenos gestos que atenuam o cansaço. “Ao fim de alguns dias, penso assim: nem tudo é mau. Se calhar até estamos a fazer alguma coisa que realmente seja importante… Nós não estamos aqui para ser reconhecidos, mas são estes pequenos gestos que fazem a diferença.”
A solidariedade chegou de todo o país, como as padarias de Penafiel e Turquel trouxeram pão fresquinho e as empresas perguntavam o que era preciso. “Eu cheguei a pedir: traga-nos café, traga-nos os copos para o café. Porque era menos uma despesa que nós iríamos suportar. E era um miminho que estávamos a dar também a quem vinha aqui oferecer-se.”
A Telma sabe que nunca conseguirá agradecer a todos. “Às vezes fico aqui a pensar sozinha: não vou ter forma de agradecer — e quando falo, estou a falar em nome do município — às pessoas todas que quiseram vir contribuir com a ajuda delas aqui.”
A dureza do depois
Mais de duas semanas depois, Telma já percebeu que o trabalho está longe de terminar. “O estado de calamidade termina no domingo, mas isto vai ter de continuar. As limpezas vão ter de continuar, a ajuda vai ter de continuar, porque estamos a falar ainda de zonas que nem sequer têm eletricidade.”
A cidade está diferente do cenário apocalíptico de 28 de janeiro, mas o trabalho de reposição vai demorar anos. “Não vejo uma casa que tenha o telhado intacto”, diz. E há histórias particularmente dolorosas: “Temos muitos casos de pessoas de idade. É muito difícil chegarem a um final de vida e, em vez de terem aquela velhice tranquila, perceberem que vão acabar os dias delas sem nada.”
Contudo, a Telma não esconde a frustração com algumas reações. “O povo português tem muita essa característica, cada vez mais: criticar tudo, tudo aquilo que é feito.” Dá como exemplo o cansaço no rosto do presidente da Câmara, o esforço sobre-humano, e, apesar disso, as críticas fazem-se ouvir. “É um sentimento de impotência, de querer dar uma resposta e não conseguir. De querer fazer mais e não conseguir.”
Mas também reconhece que Leiria deu uma resposta à altura. “Conseguimos reerguer-nos pelos próprios meios, antes da ajuda do governo central. Foi todo um trabalho desenvolvido e pensado e agilizado com as equipas, com a massa humana da terra. Com a prata da casa.”
O legado de Kristin
Quando esta conversa termina, a Telma prepara-se para mais um turno. Há pequenos-almoços para preparar às sete da manhã, refeições para coordenar, voluntários para gerir. Sabe que daqui a alguns meses este episódio será apenas memória. “Daqui a uns meses isto já… é uma experiência que levo para a vida, mas que não quero viver.”
Ainda assim, há uma lição que gostaria que ficasse. “Todos nós temos muito a aprender uns com os outros. Isto leva-nos a pensar que ninguém é melhor que ninguém. E se nós conseguirmos estar todos no mesmo patamar e trabalharmos todos em prol de uma causa, o barco anda.” E não perde a oportunidade de agradecer “a todas as pessoas que estiveram sempre comigo: a todos os voluntários, o meu obrigado”.
Telma tem consciência do dever cumprido. “Dei o melhor de mim. Prejudiquei, se calhar, os meus filhos. Deixei de estar com os meus pais. Não é fácil.” Mas foi preciso. Porque no centro do seminário, longe dos holofotes e das notícias, alguém tinha de garantir que os heróis do terreno tivessem forças para continuar. E essa pessoa também foi ela.
Enquanto Leiria se reconstrói, Telma Duarte continuará a ser o rosto invisível de uma operação que serviu milhares de refeições, acolheu centenas de operacionais e mostrou que, mesmo no pior cenário, a solidariedade e a organização fazem a diferença. “Estas duas semanas davam para escrever uma enciclopédia, para o bem e para o mal”, resume. Mas quando a história de Kristin for contada, o nome da Telma Duarte merece estar entre os que fizeram a diferença.



