Terra Santa em risco: fé, tensão e menos peregrinos
A tentação de simplificar é muito perigosa, sobretudo quando falamos de realidades tão densas como o judaísmo e o sionismo. Num tempo marcado por conflitos, imagens fortes e narrativas polarizadas, a pergunta surge com insistência: o sionismo é expressão legítima da identidade judaica ou uma sua traição? Talvez a resposta não esteja na dicotomia, mas na forma como essa identidade se vive, assim como nas suas consequências.
O judaísmo é uma das mais antigas tradições religiosas da humanidade. Não é apenas religião: é memória, povo, cultura e Aliança. Durante séculos, viveu-se na diáspora, sustentando uma esperança espiritual que ultrapassava fronteiras políticas.
O sionismo, nascido, no século XIX, com Theodor Herzl, trouxe uma resposta histórica concreta: um Estado para o povo judeu. Em 1948, essa visão materializou-se com a criação de Israel o que, para muitos, sobretudo após o Holocausto, se tornou um sinal de sobrevivência e dignidade.
Mas a história não se esgota na fundação de um Estado. A forma como esse projeto é vivido no presente levanta interrogações éticas sérias. Episódios de agressividade e desrespeito religioso, como a destruição de símbolos cristãos, agressões a religiosos ou comportamentos hostis de setores ultraortodoxos, não podem ser lidos como representativos de todo um povo, mas também não podem ser ignorados. São sinais que fragilizam a convivência e ferem o tecido espiritual de um lugar único no mundo: a Terra Santa.
E, aqui, emerge uma consequência pouco falada, mas cada vez mais real: o impacto destas atitudes no fluxo de peregrinações cristãs.
A Terra Santa — Jerusalém, Belém, Nazaré — não é apenas um destino turístico. É um lugar de encontro com as raízes da fé, espaço de oração, silêncio e comunhão. Milhares de peregrinos, todos os anos, percorriam estes caminhos não por curiosidade, mas por devoção. Contudo, quando surgem relatos de insegurança, de hostilidade religiosa ou de desrespeito por símbolos cristãos, instala-se inevitavelmente o medo e, com ele, a hesitação.
O resultado pode ser um progressivo decréscimo das peregrinações. Não apenas por razões de segurança física, mas também por uma perceção de perda de acolhimento. O peregrino não procura apenas visitar um lugar; procura sentir-se em casa num espaço que reconhece como sagrado. Quando essa experiência é ameaçada, a ligação espiritual enfraquece.
Este fenómeno teria consequências profundas. Para as comunidades cristãs locais (muitas vezes minoritárias e dependentes das peregrinações) significaria isolamento e fragilidade económica. Para a própria Terra Santa, seria uma perda simbólica: menos presença cristã, menos diálogo, menos testemunho de universalidade.
É precisamente neste ponto que a visão da Igreja Católica, expressa no documento Nostra Aetate do Concílio Vaticano II, se torna decisiva. Ao reconhecer as raízes comuns entre cristãos e judeus e ao condenar qualquer forma de ódio ou perseguição, a Igreja aponta um caminho claro: o da convivência respeitosa e do diálogo.
Ali se afirma: “A Igreja […] deplora os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo.” […] “Reconhece que os primórdios da sua fé […] se encontram nos Patriarcas, em Moisés e nos Profetas.”
Estas palavras não são apenas doutrina; são um apelo à responsabilidade mútua. A Terra Santa não se pode tornar num espaço de exclusão religiosa. Pelo contrário, deve ser sinal de encontro, onde judeus, cristãos e muçulmanos possam coexistir com dignidade.
A questão, afinal, já não é apenas “identidade ou traição?”. É outra: que identidade queremos construir? Uma identidade fechada, defensiva, marcada pela suspeita? Ou uma identidade fiel às suas raízes espirituais, aberta ao outro e capaz de gerar paz?
Se atitudes de agressividade se normalizarem, o risco é claro: não apenas afastar peregrinos, mas esvaziar espiritualmente lugares que deveriam ser faróis de fé. E isso seria uma perda para todos — crentes e não crentes, judeus e cristãos, humanidade inteira.
Porque a Terra Santa não pertence apenas a um povo. Pertence à memória espiritual do mundo. E essa memória exige respeito, cuidado e, acima de tudo, humanidade.