Sé de Leiria reabriu na Quarta-feira de Cinzas em memória das vítimas da tempestade Kristin

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A Sé de Leiria voltou a abrir as suas portas ao culto na noite de 18 de fevereiro, numa celebração que conjugou o início da Quaresma com a memória das vítimas da tempestade Kristin, que três semanas antes havia fustigado violentamente a região centro do país e o território da diocese de Leiria-Fátima. A Quarta-feira de Cinzas tornou-se, assim, muito mais do que o ritual anual que marca o começo do caminho quaresmal: foi um momento de oração, de luto coletivo e de reafirmação da esperança de uma comunidade ferida, mas não vencida.

A celebração foi presidida pelo bispo diocesano, D. José Ornelas, e contou com a presença de autarcas dos concelhos abrangidos pela Diocese, representantes da sociedade civil e forças de segurança, além de uma numerosa assembleia de fiéis que compôs a catedral. A autarquia de Leiria associou-se oficialmente ao momento, em sinal de comunhão com as vítimas e de reconhecimento pelo trabalho de socorro e reconstrução que ainda está em curso.

Procissão de velas do Largo do Papa à catedral

Às 21h00, os fiéis concentraram-se no Largo do Papa para o início da procissão de velas com a imagem de Nossa Senhora da Encarnação, padroeira da cidade de Leiria. À luz trémula das velas, a imagem foi conduzida solenemente até à Sé, onde ficou entronizada para veneração dos fiéis, aguardando poder regressar ao seu santuário no monte que abençoa a cidade.

O mote foi dado pelo padre José Augusto Rodrigues, pároco da Sé, que enquadrou o momento e nomeou os que esta celebração pretendia honrar. «O rasto da destruição está diante de todos nós. Por isso, nesta celebração, desejamos, antes de mais, ter presentes e rezar por todas as vítimas desta calamidade», afirmou. «Em primeiro lugar, os que perderam a vida. Depois, os que perderam casa, bens, empresas, emprego e saúde física, emocional e espiritual. Os que ficaram sem água e sem luz durante dias e dias.»

O pároco não esqueceu, porém, aqueles que responderam à calamidade com prontidão e generosidade: «Queremos, igualmente, incluir na nossa oração aqueles que, desde as primeiras horas daquela triste manhã, deitaram mãos à obra para limpar e desobstruir estradas, consertar telhados e linhas eléctricas, distribuir toneladas de bens alimentares, reparar espaços para acolher os desalojados, consertar escolas e outros edifícios públicos: câmaras municipais e outras entidades públicas, bombeiros, protecção civil, forças de segurança, Cáritas Diocesana, escuteiros de todo o país e muitos, muitos voluntários.»

A Câmara Municipal de Leiria, representada pelo seu presidente, Gonçalo Lopes, e pelo presidente da Assembleia Municipal, Acácio de Sousa, foi saudada expressamente pelo pároco, que reconheceu a sua pronta disponibilidade para se associar oficialmente à celebração. Também os restantes presidentes de câmara com território diocesano foram cumprimentados.

Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de Leiria, e Paulo Vicente, presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande

O padre José Augusto Rodrigues recordou ainda o significado profundo do momento: o círio pascal, símbolo de Cristo ressuscitado, «convida-nos a levantar das cinzas, dos escombros e dos destroços em que as nossas vidas estão soterradas e a caminhar para uma vida nova, cheia de esperança». Foi a partir da chama desse círio que os fiéis acenderam as suas velas antes de se porem em marcha.

VÍDEO
https://youtu.be/WE67mv1jM8s

Tradicionalmente, a Quarta-feira de Cinzas na cidade realizava-se no Santuário de Nossa Senhora da Encarnação. Este ano, os danos que a tempestade provocou naquele edifício tornaram impossível a sua realização no local habitual, tendo a celebração sido transferida para a catedral diocesana — ela própria também afetada pela Kristin, mas já sujeita às intervenções de emergência que tornaram possível a sua reabertura ao culto.

«Uma Igreja de pessoas feridas, mas não vencidas»

Na homilia, D. José Ornelas deu expressão teológica e humana à singularidade do momento. Diante da assembleia reunida na nave da Sé, o bispo reconheceu que a celebração das cinzas assumia, este ano, uma dimensão diferente: «Fazemos uma celebração das cinzas de um modo diferente. É sempre a celebração com que iniciamos o caminho da Quaresma. Mas não podemos esquecer que este é um tempo que nos conduz à Páscoa, também ela sinal da morte e da ressurreição de Jesus.»

D. José Ornelas começou por evocar os que morreram durante a tempestade: «Temos, de modo muito particular, na memória do coração aqueles que perderam a vida nestes dias. Hoje pedimos ao Senhor da Vida que os acolha misericordiosamente nos seus braços e na morada definitiva que lhes oferece, na luz e na paz.» Depois alargou o olhar àqueles que, sobrevivendo, enfrentam perdas devastadoras: os que viram destruídos os bens «fruto do trabalho de uma vida inteira»; os que vivem «sem condições mínimas para a vida quotidiana»; os empresários que «encaram o futuro com grande preocupação, necessitando, antes de mais, de uma atenção especial, pois dessa atenção depende também o futuro de muitas famílias da nossa região».

Mas o bispo quis também reconhecer publicamente, com gratidão, todos os que responderam ao desastre. «Se tudo isto foi causado por um vento que atingiu a todos, também o sopro do espírito de solidariedade e de auxílio se generalizou entre nós, em todo o país e também no estrangeiro», disse. E, dirigindo-se diretamente aos presentes — autarcas, forças de segurança, proteção civil, militares —, acrescentou: «A todos quero dizer, também em nome da Igreja: muito obrigado. Muito obrigado a todos.»

A imagem de Nossa Senhora da Encarnação, ali entronizada como peregrina e sem teto, foi objeto de uma reflexão especialmente tocante por parte do bispo: «Vem peregrina e sem teto, Ela, Maria, que sabe o que isso significa na realidade, pois também não encontrou lugar quando deu ao mundo o seu Filho. Vem peregrina e sem teto para esta Igreja-Mãe da cidade e da Diocese, simbolizando todos os que perderam ou viram indisponíveis as suas casas e o seu futuro.»

D. José Ornelas quis também sublinhar o caráter não fatalista do sofrimento vivido: «Vivemos isto não como uma maldição. É algo que nos aconteceu, mas é também um apelo à nossa colaboração. Viemos à casa de Deus para afirmar que não estamos sozinhos.» E avançou com uma convicção que atravessou toda a homilia: «O mundo novo e a reconstrução da nossa região e da nossa diocese, das nossas casas, das nossas instituições e das nossas igrejas não cairão feitos do céu. Serão obra de pessoas com o coração renovado, pessoas que renovam a vida. Foi sempre assim na história. É nas nossas mãos que está o futuro.»

VÍDEO
https://youtu.be/WHMqUzRB9dw

A própria catedral foi apresentada como símbolo dessa resiliência: «É nesta Igreja-Mãe da Diocese, também ela bastante atingida, mas já objeto de intervenções iniciais que lhe permitem ser sinal daquilo que queremos ser: uma Igreja de pessoas feridas, mas não vencidas, nem esquecidas.»

Cinzas nas telhas partidas pela tempestade

O momento mais simbólico da celebração reservou-se para o rito da imposição das cinzas — o núcleo ritual da Quarta-feira de Cinzas —, que este ano ganhou uma dimensão adicional de memória e significado.

As cinzas utilizadas no rito foram transportadas em telhas do telhado da própria Sé de Leiria que se partiram durante a tempestade Kristin. Este gesto uniu de forma concreta a liturgia à realidade vivida: as marcas físicas da destruição tornaram-se o sinal sacramental da fragilidade humana que a Quaresma propõe meditar. As cinzas foram levadas em procissão, logo após a homilia, por estudantes do ensino superior de Leiria que integram o SPES — Serviço Pastoral do Ensino Superior —, num rito que sublinhou o envolvimento da geração jovem neste momento de comunhão diocesana.

Na homilia, D. José Ornelas tinha já preparado o sentido deste gesto: «Daqui a pouco, serão abençoadas e distribuídas as cinzas da Quaresma, que assinalam este dia da Quarta-feira de Cinzas. São sinal da fragilidade que experimentamos e da destruição que nos rodeia, quer no vento que nos fustigou, quer nos incêndios que nos visitam no verão. Não são sinal de ameaça nem convite ao desânimo ou à revolta.»

O bispo evocou ainda o silêncio dos que trabalharam sem procurar reconhecimento: «Muito do que foi feito nestes dias aconteceu no silêncio: o silêncio de quem coordenou, o silêncio de quem serviu. Vimos rostos marcados pelo esforço, pelo suor que liberta. São essas as cinzas que hoje levamos: não como maldição, mas como sinal do trabalho necessário para construir um mundo melhor.»

E a assembleia foi chamada a um compromisso concreto: «Desta assembleia levamos um compromisso: ser sérios, honestos e transparentes, para que o futuro não reconstrua apenas casas, mas também vidas, sociedades e relações, na fraternidade, na dignidade e na paz que dão vida ao mundo.»

A celebração incluiu ainda referências à presença de cidadãos estrangeiros que participaram nos trabalhos de limpeza e recuperação da cidade e da região. «Ao unirmos as mãos para reconstruir o futuro, estamos a construir um futuro melhor para todos, com particular atenção àqueles que ainda mal conhecem o país e procuram aqui uma casa. Também os estrangeiros que nos visitam estiveram profundamente envolvidos na limpeza da nossa cidade e de tantas outras localidades», afirmou o bispo diocesano.

A imagem de Nossa Senhora da Encarnação permanecerá na Sé de Leiria até poder regressar ao seu santuário, aguardando que as obras de recuperação do edifício avancem. O bispo expressou o desejo de que esse regresso aconteça «sem longas demoras» — tal como espera que todos os que foram desalojados possam regressar às suas casas.

A diocese de Leiria-Fátima continua a mobilizar-se através da Cáritas Diocesana, que, nas palavras do bispo, «tem desempenhado um papel singular e incansável, contando com a presença ativa de escuteiros, religiosos, religiosas e de uma multidão de voluntários». A Quaresma que agora começa será, para esta diocese, não apenas um tempo de conversão interior, mas também de reconstrução concreta — de casas, de igrejas e, acima de tudo, de vidas.

Álbum Fotográfico https://photos.app.goo.gl/GQGmht9T7qZovg4K8
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