Salvar a Igreja Rasgando-a ao Meio

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Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Acordar com a firme resolução de cometer um cisma antes do almoço exige uma certa ginástica mental. Não é para amadores. Em Ecône, na Suíça, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X montou uma bela tenda branca, convocou 15 mil almas e decidiu que o dia 1 de julho pedia quatro novos bispos. Assim, sem mandato pontifício. Com a mesma naturalidade com que alguém vai à padaria e pede quatro carcaças bem torradas.

O Papa Leão XIV ainda tentou. Escreveu-lhes dois dias antes. Uma carta com o coração nas mãos, pedindo que não rasgassem a túnica inconsútil de Cristo. “Reconsiderai!”, suplicou. Mas de que vale a súplica de um pai quando os filhos já encomendaram os paramentos, afinaram os coros e ligaram o streaming em seis línguas? Para o superior da Fraternidade, eventuais penas ou censuras “não têm nenhum valor”. É fascinante. Uma arrogância de chumbo embrulhada em incenso de primeira qualidade.

É aqui que o sorriso cínico morre e a tristeza se instala. Porque a fractura é real.

Olho para o altar em Ecône, para as mãos impostas sobre cabeças obstinadas que juram estar a salvar a Igreja, e constato que tenho medo destas pessoas que dizem que pensam, e pensam; que dizem que fazem, e fazem. Imediatamente. Sem espaço para um “vou tentar”, “vou ver se consigo”, “vou pensar melhor”, “vou ouvir outros”. Não. Dizem que vão fazer e fazem. Pensam por si próprias e acham que tudo o que fazem está bem feito. Não há lugar para a salutar dúvida. Não há lugar para escutar. São ditadores de sacristia. Não sabem viver em comunhão. Não deixam os outros crescer, respirar, pensar de modo diferente. Querem que todos sejam à sua imagem e semelhança, porque se julgam donos da verdade absoluta. Eles, os seus seguidores e os seus amigos sentem possuir uma graça especial. Um dom raro de ponderação e certeza absoluta. Um discernimento que ultrapassa qualquer capacidade naturalmente humana, como se de um super-herói se tratasse. Algo que se encontra facilmente na Fraternidade Sacerdotal São Pio X: a convicção de que só ali está a verdadeira Igreja, só ali se celebra a verdadeira liturgia, só por aquele caminho se chega a Deus, através de Jesus Cristo — e mesmo isso, claro, se Cristo concordar quando chegar o fim dos tempos.

A liturgia deles pode ser imaculada. O latim pode soar aos anjos. Mas a Tradição não é um bunker para os puros. Não é um clube privado onde nos fechamos à chave para não nos misturarmos com a plebe que canta desafinada na paróquia da esquina.

Dizer que se rasga a Igreja para a salvar é a derradeira ironia. É deitar fogo à casa inteira só para proteger os móveis da sala de estar. E no fim, por muita razão que achem ter, sobra apenas a cinza de uma túnica que era suposto ser uma só.

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