A Conferência Episcopal Portuguesa iniciou esta segunda-feira, em Fátima, a sua 214.ª Assembleia Plenária ordinária, num encontro marcado pela reflexão sobre os desafios atuais da Igreja e pela realização de eleições para os órgãos do próximo triénio.
Na sessão de abertura, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, saudou os participantes, com destaque para o novo núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, e para o novo bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Fernandes. Sublinhou ainda o significado desta assembleia, que considerou ir “para além de uma mera substituição de nomes”, assumindo-se como “um serviço de escuta, discernimento espiritual e eclesial”.
No balanço dos últimos seis anos de presidência, D. José Ornelas recordou um período marcado por “anos de aprendizagem e de purificação, mas também de alento e de esperança”, destacando diversos processos que marcaram a vida da Igreja em Portugal.
Pandemia e crises desafiaram comunidades
Entre esses momentos, a pandemia de covid-19 foi apontada como um tempo exigente, que obrigou a Igreja a reinventar formas de proximidade com as comunidades. “Era fundamental que o sentido de pertença comunitária permanecesse, apesar de estarmos fechados em casa”, afirmou.
O responsável destacou também outras crises, nomeadamente fenómenos naturais e dificuldades económicas recentes, que atingiram várias regiões do país, com particular incidência na região Centro. Nestes contextos, evidenciou a mobilização solidária de milhares de voluntários, incluindo muitos jovens, bem como o papel das instituições da Igreja na resposta social.
Sinodalidade como caminho essencial
A sinodalidade foi apresentada como um eixo central da vida da Igreja, no seguimento do caminho promovido pelo Papa Francisco e continuado no atual pontificado. Segundo D. José Ornelas, trata-se não apenas de um método organizativo, mas da forma de a Igreja “se compreender e viver a partir do Evangelho”.
Neste contexto, referiu que está em curso a fase de receção e implementação do documento final do Sínodo nas comunidades locais, com vista à Assembleia Eclesial de 2028, sublinhando a necessidade de avaliação e concretização de reformas.
Juventude e legado da JMJ Lisboa 2023
A Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 foi evocada como um dos momentos mais significativos dos últimos anos. O presidente da Conferência Episcopal sublinhou que este evento não deve ser reduzido a um acontecimento pontual, mas entendido como um impulso duradouro para a vida da Igreja.
“Os jovens não são apenas destinatários da pastoral. Eles são parte ativa de uma comunidade”, afirmou, defendendo a necessidade de valorizar o seu papel e de aprofundar o diálogo com as novas gerações.
Compromisso na proteção de menores
Outro dos temas centrais abordados foi o da proteção de menores e adultos vulneráveis. D. José Ornelas reconheceu “a dor das vítimas de abusos sexuais” e reiterou o pedido de perdão, destacando o caminho de “purificação e reconciliação” que tem vindo a ser percorrido.
Referiu o trabalho desenvolvido pela Comissão Independente, pelo Grupo VITA e pelas comissões diocesanas, bem como o processo de compensações financeiras às vítimas, cuja decisão foi tomada na assembleia extraordinária de fevereiro passado.
Sublinhando que “a dor não se paga”, afirmou que estas medidas visam reconhecer o mal causado e contribuir para a reparação possível das vidas afetadas, insistindo na necessidade de consolidar uma cultura de proteção e de “tolerância zero”.
Apelo à esperança num mundo em mudança
Na parte final da intervenção, o presidente da Conferência Episcopal abordou os desafios sociais e internacionais, incluindo a guerra, a pobreza, as dificuldades no acesso à habitação e à saúde, e o aumento dos fluxos migratórios.
Alertou também para fenómenos de desilusão e radicalização no plano político e social, apelando a uma leitura profunda destas realidades.
Num mundo marcado por rápidas transformações tecnológicas, incluindo o impacto da inteligência artificial, defendeu que a Igreja deve aprender novas linguagens sem perder a fidelidade ao Evangelho.
A concluir, D. José Ornelas apelou à lucidez, humildade e coragem dos participantes nesta assembleia eletiva, para que possam discernir os caminhos futuros da Igreja em Portugal.