Peregrinação de esperança reúne a Diocese na casa da Mãe

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Ao longo das estradas que convergem para Fátima, há passos que não se medem em quilómetros, mas em sentido. Na manhã de 21 de março de 2026, a 93.ª Peregrinação da Diocese de Leiria-Fátima começou discreta, a partir de cinco pontos sugeridos pela organização, mas unida pelo mesmo destino. Os ritmos e histórias dos grupos provenientes de várias paróquias eram diferentes, mas a intenção, comum — caminhar juntos, “com Maria, testemunhas da esperança”. A peregrinação anual ao Santuário vai para além da devoção mariana. É o momento em que a Igreja particular se reconhece como povo. É o instante em que o isolamento das aldeias e o anonimato das cidades cedem lugar ao rosto do outro e ao passo conjunto.

Álbum Fotográfico http://l-f.pt/ipD2

Este ano, pela segunda vez consecutiva, a peregrinação realizou-se ao sábado — uma mudança introduzida com sucesso no ano anterior, que a boa receptividade dos peregrinos aconselhou a manter. A razão é prática, mas também simbólica: o sábado deixa o domingo livre para a família e o descanso, e oferece à peregrinação uma atmosfera de antecipação do domingo, dia do Senhor.

Às 10h00, em cinco pontos de concentração distintos, realizaram-se breves saudações e celebrações iniciais. Era uma proposta, não uma obrigação — a organização fez questão de o sublinhar. Cada paróquia, cada unidade pastoral ou vigararia chegou ao seu modo, com a sua cadência, com os seus próprios ritmos.

Às 10h30, iniciou-se a caminhada. Em grupos mais ou menos ordenados, com bandeirolas, insígnias paroquiais e, nalguns casos, o já habitual cantar espontâneo, os peregrinos pisaram estradas e caminhos em direcção ao Santuário. O almoço, às 12h30, foi partilhado em comunidade — cada grupo com o que trouxe de casa, numa convivialidade que os testemunhos recolhidos ao longo do dia descrevem como um dos momentos mais ricos da jornada.

A Vigararia da Marinha Grande, por exemplo, chegou com cerca de duzentas pessoas. Vieram a pé, a maior parte deles a partir de São Mamede e outros, mais aventureiros e com energia para dar e vender, das suas paróquias. Ao almoço, juntaram-se num descampado ao lado do Santuário com tendas improvisadas e uma mesa comprida de sabores partilhados.

A voz dos que caminham

Alice é uma presença habitual nestas peregrinações. A paroquiana da Maceira, que integra o movimento da Mensagem de Fátima, exerce o ministério de ministra extraordinária da Comunhão e é activa na pastoral social-caritativa, chegou ao Santuário sem ter feito o caminho a pé, mas com a responsabilidade da logística para os “seus” peregrinos.

Alice, da Maceira

“Fátima diz tudo. Fátima é a nossa casa. Aqui sinto-me como se estivesse em minha casa.” A frase saiu-lhe com uma naturalidade que dispensava qualquer comentário. Questionada sobre o que a traz sempre a esta peregrinação — «sempre», diz ela, sem hesitar —, Alice responde com a clareza de quem não precisou de pensar muito: “estarmos com as outras pessoas da nossa comunidade e partilharmos este momento também. Isto acaba por ser uma maneira de nos unirmos.”

Quando se fala de unidade pastoral — estrutura criada para agregar paróquias próximas — Alice corrige com um sorriso: «Essa unidade se calhar é só um nome. Na realidade, nós já partilhávamos muitas coisas em conjunto com outras paróquias da unidade pastoral.» A peregrinação, portanto, não cria o que não existe. Reforça e celebra o que já se vive. “Nada nos vale mais do que a comunidade. Temos que viver em união e em comunidade”, explicou.

Há na Alice uma certa sabedoria serena, de quem já fez muitas vezes este caminho e percebe que o mais importante não é a distância percorrida, mas a companhia com que se percorre. «Se calhar havia de vir mais», diz ela, um pouco a brincar, um pouco a sério.

“Para fazer uma peregrinação é preciso sair de si”

Também Hélder Frade chegou com intenção declarada. Catequista do oitavo ano e organista na Maceirinha, veio para «pedir que este resto de caminho de Quaresma seja produtivo e operativo na minha vida até à Páscoa». Para o Hélder, Fátima tem um significado que começa pelo lugar e vai muito além dele: “Pertencemos à diocese de Leiria-Fátima. O hífen Leiria-Fátima faz todo o sentido. Fátima foi abençoada com a vinda, com a visita de Maria aos três pastorinhos. A Mãe de Jesus, dignando-se vir aqui aparecer, atesta que Deus está presente na nossa vida, que Deus se interessa por nós e quer a nossa felicidade e a nossa salvação.”

Helder Frade, da Maceira

O Hélder tinha convidado os seus catequizandos a participar. Nenhum veio. Não guarda mágoa. Compreen­de — e articula essa compreensão com uma metáfora que tem a textura de quem pensa muito sobre o que faz. “Para fazer uma peregrinação é preciso sair de si, sair do seu conforto, do seu espaço. Sair de uma situação para chegar a outra. É muito difícil tomar esta decisão de pegar em si, sair da situação em que está e dar um passo em frente, rumo ao desconhecido, rasgar o espaço, rasgar o tempo e abraçar algo novo que está à nossa frente.”

Sobre a experiência comunitária da peregrinação, Hélder vai mais longe: “Não há uma peregrinação individual ou individualista. Estamos sempre integrados num grupo maior, numa comunidade maior. A fé não é só uma experiência individual. É um caminho pessoal, mas integrado numa comunidade. A comunidade ajuda a pessoa, a pessoa também enriquece a comunidade.”

E sobre a mudança para o sábado, Hélder é pragmático: «Para os miúdos da escola, para os trabalhadores, se calhar o sábado é até mais interessante para poderem descansar mais no domingo e depois abraçarem os trabalhos e as obrigações.»

“Foram eles que propuseram”

Mais tarde, sentado no chão do recinto do Santuário, encontrámos Vítor Correia que chegou a Fátima com o seu grupo de jovens do nono ano. E a história de como vieram tem qualquer coisa de surpreendente: não foi ele a convencê-los; foram eles a propor. “Foram eles que propuseram. Falaram e depois eu, conjuntamente com a minha colega, desafiámo-los, e eles acabaram por decidir e vir.”

A distância percorrida foi de cerca de nove quilómetros — desde o Alqueidão da Serra até ao Santuário. Uma subida considerável no início, recordada com algum humor por Vítor, mas que acabou por correr bem. «Quando chegámos, acho que começaram a sentir a dor nas pernas, mas também naquela coisa da surpresa: olha, já chegámos.»

Vítor Correia (1.º da esquerda) com o seu grupo do 9.º ano, do Alqueidão da Serra

Para Vítor, Fátima é essencialmente um lugar de interioridade: “É um momento de introspecção, um momento em que se consegue sentir um bocadinho mais a espiritualidade. Conseguimos ter uma pausa e pensar mais sobre Jesus, sobre Maria. Maria é sempre a ligação com Jesus, é sempre o caminho para Jesus.”

Sobre o formato da peregrinação ao sábado, Vítor é entusiasta — e honesto quanto a uma preocupação real: «Tenho algum receio que, acabando a missa, muita gente vá embora. No ano passado acho que correu muito bem. Acredito que este ano também.»

“Se estivéssemos em casa, estávamos no telemóvel”

Marta e Francisco fazem parte do grupo do Vítor. Têm a idade em que as certezas sobre a fé ainda estão a ganhar forma, e falam com a franqueza característica de quem ainda não aprendeu a dizer o que se espera que digam.

Era a primeira vez que vinham a pé. A pergunta sobre a motivação para aceitar o desafio obteve uma resposta que tanto é prosaica como reveladora. “Eu acho que todos aceitámos vir porque se estivéssemos em casa, estávamos no telemóvel; é uma oportunidade para estarmos com os nossos amigos e divertirmo-nos um bocadinho, em vez de estar só deitados no sofá”, respondeu a Marta. Já o Francisco escolheu “aceitar fazer esta proposta, porque já tinha falado diversas vezes em fazer esta caminhada e aproveitei a oportunidade para a fazer”.

Marta e Francisco

Sobre Fátima, os dois partilham uma perspectiva comum — a da consciência de que nem sempre se percebe o que se tem perto de si: “como somos daqui de perto, não é assim tão impactante como para outras pessoas; mas, vindo aqui, vemos que é uma coisa imponente”.

É uma confissão que tem a sua dignidade própria. E sobre estarem reunidos com pessoas de toda a Diocese: “é sempre uma forma de união com a Diocese; nós não conversamos muito com as pessoas, mas sentimos que estamos aqui unidos, todos para o mesmo”.

“Oportunidade para mostrar que não é só mais uma actividade”

O Corpo Nacional de Escutas da Região de Leiria-Fátima integra a peregrinação diocesana todos os anos, mas com programa próprio. Este ano, os grupos escutistas concentraram-se junto ao Santuário de manhã, realizaram jogos por patrulhas e juntaram-se à Diocese para a Eucaristia da tarde. Inês Pereira, chefe do Agrupamento 1077 de Monte Real, fez questão de estar presente — mesmo com apenas uma patrulha de seis elementos.

A peregrinação escutista tem as suas particularidades. Já não é o programa de dois dias de outros anos — sábado de marcha, pernoita, domingo de Eucaristia. Passou a ser só o sábado, e isso, segundo Inês, pode explicar alguma menor adesão: “se calhar os agrupamentos acabam por achar que não é a actividade mais interessante para vir com os miúdos; mas, neste caso, sendo a única actividade a nível regional este ano, fizemos questão de vir com os que puderem.”

Inês Pereira, Monte Real

Para os jovens escuteiros, a motivação é sobretudo o encontro e o convívio. A fé é trabalhada de forma discreta, mas intencional, através dos jogos e das actividades pensadas para o efeito. Inês é lúcida sobre isso:

“Para eles, é mais uma actividade. Para nós, enquanto chefes que participamos na organização, é a oportunidade que temos para lhes mostrar que não é só mais uma actividade. É a oportunidade que nos cabe a nós puxá-los para este lado e fazê-los pensar e perceber determinadas coisas.”

E acrescenta, com uma observação que toca fundo: “eles podem não vir com esse intuito, mas aquilo que é feito aqui, eles acabam por levar algo com eles no que é a questão da fé.”

Da Capelinha até à Basílica da Santíssima Trindade

Às 14h00, os peregrinos foram recebidos na Capelinha das Aparições para o Rosário. A praça estava já bem preenchida — famílias com crianças, grupos de jovens, idosos, religiosos e sacerdotes. Às 14h40, a procissão encaminhou-se para a Basílica da Santíssima Trindade, aquela estrutura imponente que parece querer enterrar-se discretamente na terra sem deixar de abraçar o céu.

Às 15h00 teve início a Eucaristia. O bispo diocesano, D. José Ornelas, presidiu. Na saudação inicial, dirigiu palavras de boas-vindas a todos os grupos presentes — as comunidades de vida consagrada, as crianças da catequese, os escuteiros, os idosos, os movimentos eclesiais e os sacerdotes. E reservou uma saudação especialmente calorosa para dois bispos eméritos: D. Serafim Ferreira e Silva e D. António Marto, este a celebrar os 25 anos de ordenação episcopal.

“Imaginem o que é o povo de Gaza”

Na homilia, D. José Ornelas começou por situar o momento litúrgico: o último domingo antes da solenidade dos Ramos e do início da Semana Santa. As leituras escolhidas — Ezequiel e o Evangelho de João com a ressurreição de Lázaro — ofereceram ao bispo uma plataforma para uma homilia que foi simultaneamente exegética e pastoral, doutrinal e profundamente humana.

O profeta Ezequiel, lembrou, falava a um povo no exílio, desprovido de conforto, de meios e de perspectivas. Um povo que sentia que Deus o tinha abandonado — e a quem a palavra profética se dirigia como promessa de ressurreição colectiva.

“Imaginem o que é o povo de Gaza neste momento. Imaginem o que é o Irão a ser semeado de bombas constantemente, ou o Líbano, ou o Sudão — e tantas situações destas, muito concretas, onde até escolas de crianças são bombardeadas.”

A aproximação entre o exílio de Israel e os conflitos contemporâneos não foi deliberada. D. José Ornelas não hesitou em nomear o sofrimento que acontece no mundo, e em ancorar nele a força da palavra bíblica. Fez também uma referência ao recente temporal que assolou a Diocese, numa leitura que soube transformar o desastre local em metáfora espiritual: “nós também fizemos uma experiência dessas nas últimas semanas, com o vendaval que nos assolou; houve muita gente a dizer: estamos cá, graças a Deus, e vamos reconstruir.

A passagem sobre Lázaro serviu ao bispo para explorar o silêncio aparente de Deus — o escândalo de Jesus que chega tarde, de Deus que parece ausente quando mais é preciso. A resposta não foi consolatória de forma fácil. Foi uma resposta que olhou de frente para a revolta e a integrou na fé:

“O sofrimento e a morte não deixam Jesus indiferente. O silêncio de Deus é um escândalo para a família, para a Igreja e até para os de fora. De certo modo, é um escândalo também para o coração do homem Jesus, o Filho de Deus, que se sente interiormente perturbado e revoltado, diante do homem preso pela morte.”

“Não fiquem sentadinhos no seu quarto”

A ordem de Jesus — «Tirem a pedra», «Lázaro, sai cá para fora», «Desliguem-no e deixem-no ir livre» — foi lida pelo bispo como um programa eclesial e espiritual para a Diocese:

“Retirem as pedras tumulares que vos impedem de fazer festa, de participar na vida juntos, em comunidade, em Igreja sinodal — isto é, uma Igreja que caminha junta. Não se fechem em si próprios, no círculo enclausurado dos vossos ecrãs ou numa ideia fechada de uma Igreja que alguns veem como seita, porque é só a sua paróquia, o seu lugarzinho, aqueles que pensam como eles.”

Num momento de grande simbolismo, D. José Ornelas olhou para as crianças e para os escuteiros presentes e convocou os três pastorinhos como modelo de coragem simples:

“Eram apenas três crianças, pequenas — sete, nove e onze anos. Não tinham sequer ido à escola. A sua fé era uma fé de crianças, da catequese. Não diferiam muito das nossas crianças. Eram crianças sem força, mas moveram multidões.”

O apelo final foi denso e directo: «Escutem bem a palavra deste Evangelho: vem cá para fora. Não fiquem sentadinhos no seu quarto, nem nas suas certezas, nem nas suas convicções, nem no seu egoísmo.» E concluiu com uma invocação mariana que ressoou pelo espaço da Basílica: «Nossa Senhora da Esperança, rogai por nós.»

O jubileu de D. António Marto

Foi num dos momentos mais inesperados da tarde que a liturgia ganhou uma dimensão particularmente humana e comovente. Durante o momento de acção de graças da Eucaristia, duas crianças vestidas a rigor com os trajes dos santos pastorinhos — Francisco e Jacinta — caminharam até D. António Marto e ofereceram-lhe uma escultura dos dois santos de Fátima. O gesto era simples, o efeito, profundo.

D. António Marto, bispo emérito da Diocese de Leiria-Fátima, que serviu durante dezasseis anos à frente da Diocese e cujo nome está indissoluvelmente ligado ao Santuário, completou recentemente 25 anos de ordenação episcopal. O jubileu era celebrado precisamente onde devia ser: em Fátima, com o seu povo, na casa da Mãe.

Quando se levantou para falar, havia no templo a expectativa de quem sabia que aquele homem tinha muito para dizer — e que o diria com a parcimónia e a emoção dos grandes momentos. D. António Marto não desiludiu. As suas palavras oscilaram entre a gratidão serena e a comoção que, por momentos, o deixou sem fala.

“É um grande motivo de alegria para mim celebrar, em acção de graças, o jubileu de 25 anos de Ordenação e Vida Episcopal — com todos vós, este povo santo e fiel de Deus, desta nossa diocese, para mim sempre querida, que servi durante dezasseis anos.”

Evocou o paradoxo que todo o bispo conhece — a grandeza da missão confiada e a pequenez do instrumento que a recebe — e fê-lo através de uma linguagem bíblica que é a sua marca:

“Quem sou eu, Senhor Deus, para me ter chegado até Ti? A grandeza do dom e a enormidade da missão que Deus confia, por um lado. Por outro, um vaso tão frágil, tão quebradiço e, por vezes, mesmo quebrado, a quem é confiado.”

A emoção veio quando falou dos pastorinhos, da escultura oferecida pelas crianças, e do que Fátima representa para ele — não apenas institucionalmente, mas existencialmente:

“Quero agradecer de todo o coração… e a lembrança tão bela como foi a oferta dos amiguitos e amiguitas, com aquela escultura dos pastorinhos de quem sou muito devoto. Posso dizer-lhes que senti, de modo vivo, experiencial, quase palpável mesmo, a sua companhia, a sua ternura, a sua protecção no exercício do meu episcopado durante este longo período.”

Às palavras de agradecimento ao bispo diocesano D. José Ornelas, aos bispos irmãos D. Serafim e D. Augusto César, e a todos os sacerdotes e colaboradores que o acompanharam ao longo de dezasseis anos, D. António Marto juntou um gesto que emocionou os mais jovens presentes: dirigiu-se directamente às crianças — aquelas que o tinham surpreendido com a escultura, e todas as outras da Diocese:

“Caros amiguitos e amiguitas, sempre os saudei com uma saudação de carinho. Hoje, também quero mandar daqui uma saudação cheia de muito carinho por cada um e cada uma de vocês, e uma bênção especial do Senhor Jesus, Nossa Senhora e dos Pastorinhos, para que vocês continuem a ser sempre amigos e amigas felizes e alegres, da amizade com Jesus, com Nossa Senhora e os Pastorinhos.”

E terminou com uma confissão de gratidão que subiu do coração para os lábios com a sinceridade dos momentos irrepetíveis — por momentos, a comoção apoderou-se dele e as palavras chegaram com mais dificuldade, mas chegaram:

“Vinte e cinco anos de bispo… é o que fica no fundo do coração: a alegria de servir, a alegria de amar, a alegria de ser enviado! Por favor, rezem por mim. Cantarei, Senhor, para sempre a Tua misericórdia.”

A oratória e o regresso

Após a Eucaristia, no Centro Pastoral Paulo VI, os peregrinos puderam assistir à oratória «Fátima, sinal de esperança para a Humanidade», apresentada pelo Conservatório de Música e Artes do Centro. Foi o ponto final de uma jornada longa, mas equilibrada — entre o caminho e a oração, entre o esforço físico e a contemplação, entre a comunidade e o silêncio interior.

A escolha do lema deste ano — «Com Maria, somos testemunhas da esperança» — acabou por se revelar não apenas um título, mas uma chave de leitura de tudo o que aconteceu ao longo do dia. A esperança não foi declarada em abstracto. Manifestou-se nos passos dados a pé desde o Alqueidão da Serra, na partilha do almoço na Vigararia da Marinha Grande, nos jovens escutas que chegaram sem saber bem porquê e foram embora com algo que não sabem ainda nomear.

Quando o sol começou a baixar sobre a Serra de Aire e os últimos peregrinos encaminhavam os seus passos para casa, o Santuário respirava ainda o calor da tarde. No largo, ficaram os últimos grupos de fotografia, os abraços de despedida, as crianças que corriam à volta da Capelinha sem perceber bem porque é que os adultos estavam ali parados.

A peregrinação diocesana não resolve crises de fé, não converte em massa, não transforma de forma imediata. Mas faz algo que poucos outros eventos conseguem: lembra às pessoas que não andam sós. Que a sua paróquia existe dentro de uma diocese. Que a sua diocese existe dentro de uma Igreja. Que essa Igreja existe dentro de uma humanidade que sofre, que espera e que, uma vez por ano, caminha em conjunto para um lugar onde alguém, há mais de cem anos, terá dito às crianças que Deus não as tinha esquecido.

Alice, da Maceira, disse-o da forma mais simples: «Fátima é a minha casa.»

Hélder Frade disse-o de outra maneira: «A fé é um caminho pessoal, mas integrado numa comunidade. E a comunidade ajuda a pessoa.»

Francisco, do Alqueidão, disse-o com a surpresa de quem não esperava sentir o que sentiu: «Mais uma vez mostra a dimensão e a importância deste local para a nossa região e para todos nós.»

E D. António Marto, com os olhos brilhantes e a voz por vezes embargada, resumiu 25 anos de serviço episcopal numa frase que é, ao mesmo tempo, a melhor síntese possível desta 93.ª peregrinação:

“Cantarei, Senhor, para sempre a Tua misericórdia.”

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