Fui surpreendido com a notícia da partida, para o outro lado da vida, do Doutor Augusto Pascoal. Estive em contacto com ele, pela primeira vez, em 1969, ainda adolescente. E fui seu aluno durante cinco anos. A ele devo o amor que tenho pela língua e pela cultura do meu país, a ele devo a descoberta da dimensão estética da nossa língua, a ele devo alertas múltiplos para diversificar fontes de conhecimento e de informação num tempo em que dominava um pensamento e uma informação controlada pela rigidez da censura que apenas permitia aceder ao que era considerado conveniente. Foi a ele que ouvi, pela primeira vez, esta sábia recomendação: “Não oiças sempre a mesma música, nem as mesmas estações de rádio e, muito menos, as mesmas correntes de pensamento.” E rematava: “Constrói a tua perspetiva, pensa pela tua cabeça, mas verifica sempre a correção das ideias que servem de base para o teu pensamento.”

E isso guiou-me ao longo da vida. Porque fonte de liberdade interior, ainda que à custa do pagamento da fatura correspondente que ela sempre cobra a quem a procura seguir.
Juntei a este ensinamento muitos outros, no domínio da cultura e da nossa História Nacional e Europeia, tanto no plano religioso como nos planos político, cultural, económico e social.
Devo-lhe ainda o desenvolvimento do gosto pela leitura, pela escrita e pelo uso estético da nossa língua e a ajuda leal e amiga numa atividade diretiva que partilhámos numa instituição de ensino.
A sombra do seu génio intelectual e da força da sua personalidade seguiu-me ao longo do tempo, mesmo naqueles anos em que, muito raramente, nos encontrávamos. E os contactos dos últimos anos foram, apenas, através das redes sociais. Breves mensagens
em troca da leitura dos textos de reflexão que colocava regularmente na rede.
Foi bem mais de meio século de contacto intermitente e irregular. E dou comigo a pensar que, entre a notícia da sua morte e o seu funeral, o tempo foi tão curto que nem tive tempo para estar presente na sua aldeia-natal para lhe dizer um último adeus. E ficou a fazer-me falta esse momento. Não por ele, como é óbvio, que estará feliz na Casa do Pai, mas por mim. Porque me ficou a faltar o estar lá. Uma última presença. Um último agradecimento a alguém que, de algum modo, moldou algumas das características da minha forma de ser, de estar e de viver. Que me ajudou a descobrir o valor da liberdade e que me desafiou a ultrapassar-me a mim próprio em cada dia. Não para ser mais do que os outros, mas para ser mais do que eu próprio. Só isso.
É um comentário extemporâneo, talvez, porque, na vertigem do tempo, ontem já foi há muito e uma semana é quase uma eternidade. Ainda assim, não posso deixar de partilhar o profundo sentimento de gratidão por ter tido a oportunidade de aprender, crescer e conviver com a pessoa e com o imenso saber e talento do Doutor Pascoal. Porque há pessoas que, sem serem consensuais, conseguem ser luminosas e ajudam, muitas vezes sem saberem, a desenhar os caminhos que trilhamos na banalidade do nosso quotidiano.