[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
À beira do caminho, a pedir esmola, um cego de nascença.
Um cego de nascença!
Entre os que passavam, para além dos que se compadeciam e davam como esmola um pouco do que lhes sobrava, havia a multidão dos que nem sequer reparavam nele; mas havia também os que comentavam, com os mais variados discursos, o destino de quem vinha assim ao mudo, sem poder contemplar a vida, as belezas iluminadas pela luz do sol.
E alguns, vendo nisso uma punição divina, procuravam um culpado que lhes permitisse o conforto de pensarem que não tinham nada a ver com aquela cegueira. Não era, pelo menos de sua responsabilidade que ele tenha nascido. No fundo era esse o comportamento da maioria: admitindo que o cego estava a sofrer um castigo, como não se sentiam culpados, passavam adiante.
Dos que comentavam o facto e procuravam um culpado fazem-se eco os discípulos, que perguntam a Jesus: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?»
Quem é que pecou?
É o de sempre: confundimos a felicidade de viver na casa paterna com o bem-estar material e saltamos facilmente do sofrimento temporal para a justiça divina, corrompendo a ideia de Deus, cuja justiça concebemos à nossa maneira.
Daí a resposta de Jesus: «Isso não tem nada a ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus».
Sem querer meter-me em exegeses fáceis, como primeira reflexão na manhã deste domingo, tradicionalmente chamado Domingo da Alegria, partilho com os meus leitores o que senti ao ler esta resposta de Jesus:
Nenhum sofrimento, físico ou moral, qualquer que ele seja, pode considerar-se punição divina por um pecado pessoal.
Depois, e esta não me parece a mensagem menos significativa do Mestre, Deus não quis que o homem sofresse; por isso manifesta a Sua glória, não propriamente libertando-nos do sofrimento, mas assumindo-o, fazendo-o seu e dando-nos luz necessária para descobrirmos o seu carácter divino.
“Aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus.”
Creio que uma das leituras mais redutoras da frase de Jesus e consequentemente de toda esta perícopa do Evangelho, será o pensar que “as obras de Deus” aqui referidas se limitam à cura do cego de nascença; o que provoca também o esquecimento de outros pormenores, como, por exemplo, a importância dos gestos que precedem essa cura.
Diríamos que assim se oculta visivelmente o significado baptismal do episódio, que, aliás, está na origem da sua escolha para este domingo, no qual se faziam – ou fazem ainda, em algumas paróquias – os escrutínios dos catecúmenos que iriam (ou vão) ser baptizados na Vigília Pascal.
Diz o texto sagrado. “Jesus cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé».
Saliva, lodo, cegueira da natureza (era um cego de nascença), a piscina em que se lava, recuperação da vista… no final, “O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor»”.
Diz a teologia católica que o Baptismo faz do indivíduo uma nova criatura; por isso muitos comentadores, tendo em vista a própria estrutura do quarto evangelho, vêm neste episódio mais um sinal de todo o mistério da Redenção: o homem, tirado do lodo da terra, ser vivente por acção directa de Deus (Cfr Gen 2, 7-8), ao querer substituir-se a este Deus, nasce cego, incapaz de atingir a Verdade e a Vida, pelas quais continua fascinado, mas às quais não chegará pelos próprios meios: só acolhendo o Criador, que vem ao seu encontro feito homem como ele, mas oferecendo-se-lhe, como o “caminho, a verdade e a vida” (cfr Jo 14, 6-7).
Afinal, para recuperar a vista, aquele cego não precisou de grandes esforços: bastou-lhe deixar-se tocar por Jesus – um toque aparentemente anti-higiénico, mas salutar. – e obedecer às suas ordens.
Neste ponto, parecem-me oportunas as palavras de Santo Agostinho:
“Não te é dito: «Esforça-te por encontrar o caminho, para que possas chegar à verdade e à vida». Não é isso, certamente. Levanta-te, preguiçoso. O próprio caminho veio ao teu encontro e te despertou do sono em que dormias (se é que chegou a despertar-te); levanta-te e anda. Talvez tentes andar e não consigas, por te doerem os pés. E por que motivo te doem? Não será pela dureza dos caminhos que a avareza te levou a percorrer? Mas o Verbo de Deus curou também os coxos. «Eu tenho os pés sãos, dizes tu, mas não vejo o caminho». Lembra-te que Ele também deu vista aos cegos”. (In Ev. Ioan. Tract. 34, 8-9).
Isto dito, como, aliás, recomenda o mesmo Santo Doutor, noutro contexto, convém não descurar as dificuldades por que passou o cego de nascença – ele, seus pais e amigos – antes e depois de ser curado: algumas perseguições vinham, como muitas vezes acontece, mascaradas com o zelo pela Lei.
Do cego há que admirar o amor à verdade dos factos e humildade com que realiza os gestos que se lhe pedem.
E é depois de ter sofrido a castigo máximo por parte destes cumpridores, esses que se julgavam mais lúcidos do que o cego curado, só depois ele encontra o verdadeiro Messias, que, mais uma vez, vai ao encontro dele.
(Fátima, 26.03.15/16)