Padre Pascoal, Amigo para a Vida!

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Não sei se foi o destino ou a Providência a levar-me para os Pousos nos primeiros meses de 1997 como vigário paroquial. Sei, porque acredito mais na segunda que no primeiro, e reconheço que o dedo de Deus andaria por aí, que não terá ficado como acaso.

Por estes dias, não faltarão nos mais variados espaços de partilha, frases, ideias, histórias, impressões sobre a Pessoa que, nestes dias, nos deixou, e para mim deixando de ser o professor e formador do Seminário passou a “Colega” designado então, e Amigo para a vida. Seguiram-se sete anos até aos dias em que, por decisão minha e circunstâncias várias, mudei de “vida” sem ter mudado de Amigo e passado a ex-colega.

Não faltarão os encómios à sabedoria e impacto que este Homem “estranho” teve em tantas vidas. Ele e uma equipa de seminário, com o seu dedo na escolha e concretização, que durante muitos anos se responsabilizaram pela formação de alguns padres e muitos ex-seminaristas. E a verdade é que quem por lá passou, na sua maioria, tece louvores ao cuidado que encontrou!

Deixemos essas linhas para outros testemunhos. Aqui, faço questão de exercer o meu direito a ter privado com e conhecido o padre Pascoal como muito poucos conseguiram ou tiveram oportunidade. Ainda hoje, nos tempos que correm, ouço alguns a falar desse homem austero, intelectualmente superior, professor sempre insatisfeito, conservador impertinente, pastor aparentemente desajustado. E, contudo, quem com ele privou e conseguiu chegar-se próximo, descobriu em tantos momentos a sensibilidade de uma criança, a inquietação de um jovem envergonhado, a falta de jeito de um génio sempre brilhante, a enciclopédia sempre capaz de se posicionar no tempo e nos espaços do acontecido.

Poder-se-á dizer que quem parte é sempre inspiração para que o melhor dele se diga. Aqui, mais do que esse caso, vem ao de cima a relevância para uma Diocese como a nossa de ter um génio destes a quem nem sempre deu crédito ou espaços para a ousadia de que o próprio era o primeiro a não saber usar. Talvez por isso, a dupla que se manteve nos Pousos sete anos, e à qual muitos vaticinavam anos de horrores e dificuldades mútuas, se manteve e se concretizou num trabalho conjunto fiel a algo que ambos, a pedido do mais velho e sábio, souberam manter. A Lealdade! Esta foi assunto nas primeiras, senão a primeira, conversa de alinhamento aquando da concretização da minha ida para vigário paroquial. E a verdade é que nunca a deixei de sentir e estou em crer, que o mesmo padre Pascoal também a não deixou de sentir. Foram tempos em que houve “um padre velho” e um “padre novo” mas, para eles, na velhice e na juventude, o trabalho pastoral era coordenado e alinhado. E nenhum deles semeava discórdia ou comparações desajustadas. Eram equipa. 

As iniciativas da paróquia dos Pousos, alicerçadas na preocupação maior de proporcionar àquela comunidade dinamismos de um espaço que já era mais urbano que rural, a catequese integradora de novas gerações, o esquema das festas alterado para conseguir o disseminar de novas relações transversais a toda a comunidades, a zona urbana inspiradora de outras iniciativas e pastoral adequada, as primeiras boas festas com equipas de leigos, as celebrações da catequese com a participação activa dos pais e dos miúdos, a atenção aos novos centros populacionais. E, a assessorar, um Conselho Económico e um Conselho Pastoral (efectivos) de gente com pensamento, visão, independência e alguns velhos do Restelo, também. Mas a verdade que aqui se quer fazer sobressair é que, para este padre Pascoal, o clericalismo era o principal escalracho da renovação eclesial. E a verdade é que, à sua maneira, tantas vezes classificada como falta de jeito, não só fazia o seu caminho de aproximação às pessoas como potenciava sementes de transformação eclesial. E sim, precisava, de vez em quando, de um empurrão(zito) para dizer olá ao passar, perceber outros horários que não os seus, dar-se ao ócio sem estar a pensar na tese, nas aulas ou nas reuniões com assuntos delicados.

Mais relevante, para mim, que escrevo estas linhas, é o convívio privilegiado que tive com a Pessoa. 

Cheia de coisas que eu próprio não entendia. O não escrever ou sublinhar qualquer livro (não precisava, lia e assimilava o conteúdo), o levantar-se cedíssimo para rezar e celebrar missa, penso que em latim, (quando não tinha celebração comunitária prevista), a dificuldade de parecer em público sem o seu habitual cabeção e fato preto ou batina, a dificuldade de discordar dos seus antigos mestres e professores ainda vivos e presentes em reuniões (sim, o padre Gaspar, da Sé, era pessoa inquestionável), o ar tantas vezes macambúzio que afastava os desconhecidos e alguns próximos.

Cheio de pormenores únicos. O afã com que encontrava “um dia não são dias” para melhorarmos a refeição com um vinho ou uma sobremesa melhores, a indignação sempre que ouvia o português ser maltratado nos meios de comunicação, a alegria com que nos via a nós, padres mais novos, a tentar dinamizar a pastoral com outro traquejo ou chama que ele sistematicamente dizia não saber e não ver nos colegas da sua idade, a inquietação em olhar a sua Diocese e percebê-la órfã de referências intelectuais e tudo fazer para que, pelo Teatro, pela Música e pela Literatura, se continuasse abrir portas para a vivência da fé — mais do que ninguém sabia que uma Igreja culturalmente irrelevante deixa de poder concretizar a sua missão: talvez aqui se possa perceber o seu empenho na implementação da Universidade Católica em Leiria —, o gosto em saber dos percursos de vida dos ex-alunos do seminário e com quem, muitos, foi mantendo contacto.

Houve um dia em que choramos os dois. E não precisarei de explicar qual. Mas entre lágrimas do sofrimento comum, disse-me algo que para sempre ficou como referência: “a verdade sobre cada um de nós, só Deus a sabe”. Como quem diz, segue o teu caminho. Pode ser de erro ou de acerto. Pode ser louvado ou criticado. Mas não te poupes ao esforço de continuar a caminhar para Ele!

Os anos foram-se passando e as vezes que nos fomos encontrando, vinha sempre ao de cima a lealdade que um dia nos tínhamos prometido, mas, mais do que tudo, a Amizade em querer que o outro estivesse bem.

Obrigado (Amigo) Padre Pascoal!

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