P. Aires Gameiro: Peregrino entre novos céus e nova terra

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Entrevista de Vitória Meneses

É por demais conhecida a vida missionária e de evangelizador do P. Aires Gameiro, sacerdote da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, autor de obras de referência e conferencista em várias partes do mundo. A sua vida pessoal e religiosa ajusta-se a uma longa caminhada através de múltiplos acontecimentos e participação em diferentes realizações. As suas memórias de muitos anos são um manancial de sabedoria e experiência, mas não deixam de estar abertas a novas aprendizagens e partilha de conhecimentos. É o que podemos testemunhar da sua recente viagem/peregrinação realizada ao centro da Europa e ao coração de Roma, no decorrer do Jubileu para os consagrados na Igreja. Na pequena entrevista que nos concedeu (que pode ser livremente divulgada) fica-se com a certeza de que é possível viver entre os “novos céus” e uma “nova terra” quando as convicções espirituais se tornam realidade e se afirmam fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo.

P. Aires Gameiro, como foi participar num jubileu dedicado aos consagrados/religiosos em Roma? O acontecimento excedeu as expectativas? As vivências à volta dos dons e carismas saíram reforçadas? 

Não diria que excedeu, mas não há dúvida que surpreendeu pelas multidões de religiosos de todas as idades, de tantos países e de tanta variedade de hábitos e de grupos sem hábito, talvez de seus membros associados. Ficou a impressão que os religiosos são muitos e manifestam fé, vivacidade, agilidade, no canto e na oração. Entupiam os percursos e cansavam-se em passo acelerado para cumprir programas. Perguntava-me por ali se os consagrados têm aumentado na Igreja em relação ao tempo do Vaticano II. Agora, as estatísticas do Vaticano, apesar de menos número, dão, ao todo, 128.559 sacerdotes religiosos, e 49.414 religiosos não sacerdotes, enquanto as religiosas são 599.228.  Naquela semana de jubileu haveria alguns milhares por Roma. Apesar de ter vivido cinco anos em Roma e a ter visitado mais de duas dezenas de vezes, Roma ainda foi uma surpresa!

Roma continua a ser a “cidade eterna”? 

Sim, cidade viva é, e a abarrotar de gente, turistas e em turismo religioso, peregrinos do cristianismo católico. Roma será mais cidade de missão evangelizadora em curso que apenas “cidade eterna”. Conto uma história de há uns quarenta anos entre estudantes e professores, em dia de Papa à janela, a falar a uma praça cheia. Um dos estudantes, aos que admiravam aquela mole de edifícios colossais, escandaliza os outros ao dizer: “de todas estas construções não ficará pedra sobre pedra”. E logo um retorquiu: “não diga isso”! Calou-se e terá ficado a interrogar-se: será que os novos céus e a nova terra incluirá esta “cidade eterna?” Será ainda sinal? E os Museus do Vaticano, de toda cidade e de todo o mundo?

Com a sua idade, 96 anos feitos em Agosto deste ano, com uma mentalidade aberta, sempre curiosa, o que significou este jubileu para si, pessoalmente, já que a sua vida longa é sinónimo de sabedoria, vivências especiais, conhecimentos profundos?

Uma das vivências mais fortes foi a de haver gente a rezar, nas filas das portas santas, dentro das basílicas e doutras igrejas; e apesar de tantos incómodos e cansaços, aceitam-se os sacrifícios da peregrinação com bastante paciência. Também causou admiração que numa das missas para grupo numeroso de italianos um Bispo presidia, sozinho, sem concelebrantes nem qualquer acólito! O jubileu foi para mim tempo de ação de graças e renovação da consagração de religioso e sacerdote. E foi uma oportunidade de oferecer ao Papa Leão XIV alguns dos meus livros recentes, do centenário desta Casa de Instituto de S. João de Deus, e do Irmão sacerdote missionário em Moçambique, Bento Manuel Nogueira, agora servo de Deus pelo processo de beatificação realizado em Lisboa, e o pedido de Bênção Apostólica, como já fizera, com oferta de livros diferentes em 1982, a João Paulo II, e em 2019 ao Papa Francisco. Também permitiu, nos tempos livres, visitar livrarias e sentir-me afogado com tantos títulos. Por fim, bastou um sobre sonhos e uma conversa com a livreira e um cliente.

Além do recente jubileu, também participou numa peregrinação a alguns países do Báltico, cheios de memórias históricas e situações únicas no campo da religião… De tudo quanto viu/observou, o que de essencial pode partilhar? 

Apesar de vizinhos da cultura eslava, cada um destes três países, Estónia, Letónia e Lituânia, tem a sua identidade própria resiliente, língua não eslava, desejo de manter a independência da Federação Russa, como que fartos de ser dominados por Ordens de Cavaleiros, germânicos e suecos e mais ainda pela União Soviética Comunista opressiva. Tive a surpresa do desenvolvimento e nível de vida e das diferenças religiosas entre eles; a Estónia, pagão, Letónia, luterano, e Lituânia o mais católico.

Em tempo de férias, no Verão deste ano, como viveu os dias de descanso? Houve lugar a festejos particulares na família ou relacionados  com datas pessoais?

O que mais as marcou foram, de facto, as datas especiais da vida pessoal e de familiares, aniversários, um casamento de sobrinha, e, também um funeral de igreja cheia, celebrações com familiares e vizinhos, encontros com companheiros da escola primária, oferta de livros pessoais, conversas de arraial, etc. Outra experiência grata foi a alimentação saudável com que os sobrinhos, à vez, me mimosearam: verduras verdes da horta, (não brancas) tomate tenro e não encortiçado, fruta madura, peixe e sardinhas frescas, frango e coelho do curral, etc., tudo bem cozinhado e conversado. Quando os dados das estatísticas vêm dizer que os portugueses comem o dobro das calorias que precisam e ingerem carne, peixe e ovos em excesso; e acrescento, por minha experiência, comem pouca verdura que não é verde nem bem cozinhada, pouca fruta e verde, dura e geneticamente modificada, sem paladar e pouco digerível e incómoda, as curas alimentares são de considerar no envelhecimento. Nem faltou uma incursão por todo o Douro desde Barca de Alva ao Porto de carro, de barco, de comboio e outra pela Ria de Aveiro. E a transbordar, uma visita fraterna à comunidade do Telhal e outra de estudo ao Museu S. João de Deus, Saúde Mental e Psiquiatria e à Casa de Saúde anexa; uma entrevista a uma neurologista de Santa Maria sobre a minha experiência de assistir a leucotomias de Egas Moniz a quatro doentes e ao seu pós-operatório em 1947, e uma consulta de rotina a cardiologista para ouvir que estava bem. E, por fim, a cereja no bolo foi um retiro de grupo, em silêncio, com integração de oração em exercícios respiratórios e cantos orantes em que o “espírito” inspirado era acompanhado do Espírito de Deus em interação de Amor. Que bela cereja. Autêntica espiritualidade!

Sente-se em força para continuar um trabalho intelectual de envergadura, como o que tem realizado nos últimos tempos com a publicação de livros e artigos para diversos jornais?

Não sei bem; talvez, não tanto; preciso de mais discernimento para continuar a aprender a envelhecer com  vida saudável ativa que está na minha mão e a ajuda dos que me cuidam mas não me substituem. Penso ir empreendendo trabalho intelectual, mas se será de envergadura não me compete avaliar. Talvez alguém o faça daqui a 30 ou 40 anos. Mais importante é a avaliação do Senhor misericordioso e compassivo. Tenho intenção de continuar sempre a aprender a aprender com curiosidade para manter o nível de vida saudável e espiritual conectado com o Sopro divino, sem ansiedade nem stresse. E continuar atento se, em tempo de Jubileu, Cristo está presente na cultura atual, mesmo não cristã.

Se lhe pedissem um conselho para se entender melhor o mundo atual marcado por conflitos de vária ordem, o que diria? Há lugar para a esperança, a felicidade…?

Importa discernir as camadas de informações abundantes sem se deixar desviar pelas mais repetidas e pelas ideologias de desinformação. Estas praticam estratégias esquerdistas jihadistas, daheshistas, (islamismo terrorista?), aparentando defesa da liberdade democrática e religiosa. Misturam populismos e propostas fraturantes pra rebaixar a Igreja católica e silenciar a relação dela com Cristo. Os imperialismos totalitários e a sua falta de liberdade religiosa são muitas vezes tolerados e silenciados por informação dita de referência. Como entender que algum jornalismo silencie as vítimas de totalitarismos anticristãos? Porquê quase só a “Ajuda à Igreja que Sofre” alerta para as perseguições em dezenas de países sem liberdade religiosa que vitimam milhares de crentes e os jornais de referência as omitem? A mentira global e a desinformação tornam difícil entender o mundo em que vivemos. Para os que celebram o Jubileu a esperança acompanha.

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