Organizações de Economia Social e o lucro

Mais do que a gestão, importa refletir sobre a essência destas instituições, muitas delas com a natureza jurídica de Instituições Particulares de Solidariedade Social, ou, mais simplesmente, IPSS.

Na última sexta feira de outubro, no Seminário Diocesano, decorreu a conferência sobre a gestão das organizações de economia social.

Mais do que a gestão, importa refletir sobre a essência destas instituições, muitas delas com a natureza jurídica de Instituições Particulares de Solidariedade Social, ou, mais simplesmente, IPSS.

No cenário económico/social podemos identificar três realidades muito distintas. As entidades cujo objetivo é a obtenção do lucro. Sempre numa ótica de maximização da eficiência e da eficácia, o fim último é gerar excedentes. Obter lucro que depois, de acordo com os detentores do poder da decisão última, será revertido, normalmente na grande maioria, para si próprios. Outra realidade distinta é a que resulta do modelo económico a que Chiara Lubich chamou “economia de partilha”. Neste modelo continuamos com a preocupação do lucro, no entanto duma forma mais diluída, já que 1/3 desse lucro será distribuído por todos os que participam no ciclo económico do serviço que se presta ou do produto que se cria. Outro 1/3 será alocado à própria entidade sob a forma de reinvestimento. Por fim o último 1/3 será usado em favor do meio onde essa entidade se insere. Em favor da cidade, da região, do país. E este compromisso com a “partilha” altera, modifica muitos dos comportamentos dentro e fora da entidade. Por último temos as Entidades do Setor Não Lucrativo (ESNL), sobre as quais refletimos.

Claro que também nas ESNL há, deve haver, a preocupação com o lucro a que, duma forma talvez eufemística, chamamos “sustentabilidade”. Claro que estas entidades devem ser autossustentáveis. Eu atrevo-me a acrescentar: – Dentro do possível.

Na sala onde estávamos também estava um piano castanho junto à parede do lado direito. E lembrei-me da música extraordinária que já ouvi sair desse instrumento. Lembrei-me também de um outro instrumento. O violino. E perguntei-me: – Posso esperar ouvir do piano som idêntico ao do violino? Não creio que o consiga por mais que se tentasse subverter a natureza intrínseca de cada um. Podem ser extraordinários os sons que ambos produzem. Mas desafinar também é possível. Para os dois. E chegados aqui já nos remetemos para a essência da reflexão que fazia. Depende do músico. Depende das pessoas. Depende da Gestão, mais ou menos estratégica, que for desenvolvida. O instrumento musical não existe para si mesmo. Ele importa na justa medida em que ficarem agradados os que o puderem escutar. Penso que os utentes das entidades do setor não lucrativo devem importar sempre mais. Talvez até que a própria entidade em si.

A sociedade atual atingiu um grau de complexidade que muitas vezes nos deixa maravilhados. Mas também incrédulos e por vezes estarrecidos. Entendo que as boas ferramentas de gestão que utilizamos nas empresas, nas organizações ditas lucrativas, também devem ser replicadas na gestão das entidades do setor não lucrativo. Com um som diferente. É um facto. Afinal estamos a falar de entidades com naturezas distintas. Volto a ressalvar que a sustentabilidade no setor não lucrativo deve ser uma preocupação. Mas talvez não seja adequado fazer disso a preocupação principal. Voltando à música, se eu quiser ouvir Mozart não vou procurar Paganini. Podemos gostar de ambos sem termos de os qualificar de uma forma valorativa. Ambos são importantes como importantes são as entidades do setor lucrativo e as do setor não lucrativo. Cada uma na observância da natureza que as caracteriza. Imperioso será definir o caminho que queremos seguir.

Presto o meu reconhecimento pelo extraordinário trabalho de gestão que, na generalidade, tenho visto. Como o músico que todos os dias tenta melhorar a sua técnica também os gestores das entidades do setor não lucrativo o devem fazer. A conferência sobre gestão estratégica foi um ato concreto de passos certos nesse caminho. A competência tem de ser sempre estimulada. É um objetivo nunca plenamente atingido. Mais ainda quando a esmagadora maioria dos membros da Direção das entidades que conheço o fazem de forma desprendida. São voluntários. O valor que lhes reconheço é em dobro só por isso.

Nestes dias, onde por vezes o cinzento mental teima em prevalecer, continua a ser extraordinária e muito clara a diferença entre o valor e o preço.

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