A notícia da morte do padre Augusto Pascoal obrigou-me a viajar muitos anos para trás, até aos primeiros dias da minha entrada no Seminário Diocesano de Leiria, quando eu era apenas um rapaz de onze anos e menos de metro e meio, e olhava para o mundo dos adultos com aquela mistura de curiosidade, admiração e receio que caracteriza a infância. Nesse universo novo, feito de corredores longos, horários rigorosos, professores exigentes e uma comunidade inteiramente desconhecida, o doutor Pascoal – que era como o tratávamos – destacava-se naturalmente entre todas as figuras que compunham o cenário daqueles primeiros tempos.

O gigante que metia respeito
Tinha então quarenta e oito anos e, aos olhos de um rapaz da minha idade, parecia um gigante. A altura impressionava, mas não era apenas isso. Havia toda uma composição visual que contribuía para essa percepção: a batina preta, que lhe conferia solenidade, os óculos de massa grossa, incapazes de esconder as sobrancelhas densas que lhe acentuavam a expressão, e sobretudo uma discrição quase austera, feita de poucas palavras e de uma presença que não precisava de se impor, porque o respeito surgia espontaneamente. Hoje sorrio ao recordar a imagem que dele construímos, mas a verdade é que aquele homem silencioso conseguia inspirar em nós um temor reverencial, daqueles que fazem aguardar de pé e de costas direitas quando alguém entra numa sala.
As suas aulas de Português possuíam uma liturgia própria que ainda hoje recordo. Começavam com a turma mergulhada num silêncio quase penitencial, porque todos sabíamos que, a qualquer momento, alguém seria chamado a responder sobre a matéria leccionada. Provavelmente não passava de um método pedagógico perfeitamente normal, mas a solenidade com que tudo acontecia, aliada à voz grave do professor, fazia-nos sentir como se estivéssemos perante um exame decisivo. Para os nossos padrões adolescentes, aquilo era um acontecimento de enorme relevância.
O que os anos me ensinaram foi que a primeira impressão que guardamos das pessoas raramente coincide com a sua verdadeira dimensão. À medida que fui crescendo, a figura austera do educador começou a revelar outras camadas, algumas inesperadas, outras profundamente marcantes. Curiosamente, uma das primeiras portas para essa descoberta foi algo tão simples quanto a sua caligrafia.
Ainda hoje me recordo do espanto que me causavam os seus manuscritos. Fossem apontamentos das aulas, adaptações de peças de teatro ou qualquer outro texto produzido por ele, havia naquela escrita uma elegância artística que me parecia contradizer a imagem de severidade que lhe atribuíamos. Cada letra parecia ser desenhada com um cuidado meticuloso, cada palavra possuía uma harmonia própria, e eu contemplava aqueles textos, fascinado pela beleza gráfica que deles emanava. Parecia-me extraordinário que o mesmo homem que nos interrogava com voz grave sobre análise sintáctica fosse capaz de produzir uma escrita tão delicada e bela.
A verdade é que aquela admiração acabou por deixar marcas inesperadas. Durante muito tempo procurei imitar a sua letra e, ainda hoje, há na minha própria assinatura vestígios dessa influência. Salvaguardadas todas as distâncias entre o modelo e a cópia, existe nela qualquer coisa que nasceu da contemplação dos manuscritos do padre Pascoal. Nunca lhe confessei esta admiração secreta, mas gosto de pensar que ele a tenha intuído. Os bons educadores possuem frequentemente essa capacidade rara de perceber aquilo que os seus alunos nunca chegam a verbalizar.
Quando a austeridade deu lugar ao homem
Na realidade, quanto mais os anos passam, mais me convenço de que a austeridade que víamos era, em grande medida, consequência da responsabilidade que carregava. Educar dezenas de adolescentes não é tarefa simples em nenhuma época da história e, olhando retrospectivamente, imagino o peso que representava acompanhar o crescimento humano, intelectual e espiritual de tantos jovens. Talvez fosse essa responsabilidade que lhe emprestava aquela aparência severa; talvez fosse o sentido do dever que lhe exigia uma disciplina permanente. O que sei é que, apesar de toda a exigência que lhe reconhecíamos, não consigo recordar uma única palavra injusta, uma única humilhação gratuita ou um único gesto que não estivesse ao serviço da missão educativa que abraçara.
Esta percepção tornou-se ainda mais clara quando deixou a equipa formadora do seminário para se dedicar à paróquia dos Pousos. Tenho a impressão de que foi então que vi surgir uma versão mais leve do homem que conhecera durante a adolescência. O rosto parecia mais descontraído, os sorrisos surgiam com maior frequência, os óculos tornaram-se menos pesados e até as lendárias sobrancelhas pareciam ter sido aparadas para aliviar a sua capacidade intimidatória. Não sei se foi ele que mudou ou se fui eu que finalmente aprendi a vê-lo para além da função que desempenhava. Talvez tenham acontecido ambas as coisas.
Entre as muitas recordações que guardo desses anos, existe uma que me é particularmente querida: a ligação do padre Pascoal ao teatro. Ainda hoje me parece curioso que as artes dramáticas estivessem confiadas precisamente àquele homem que nós associávamos ao rigor académico e à discrição pessoal. Era ele quem adaptava textos, preparava guiões, organizava ensaios e conduzia representações que permaneceram na memória de sucessivas gerações de seminaristas. Lembro-me particularmente de “As Árvores Morrem de Pé”, uma produção memorável que, como tantas outras, passou pelas suas mãos antes de chegar ao palco.
Naturalmente, num seminário exclusivamente masculino, a adaptação de certas obras obrigava a algumas soluções criativas. Por isso mesmo, graças à fidelidade ao texto original de Gil Vicente, coube-me um dia interpretar a célebre Brízida Vaz no “Auto da Barca do Inferno”, episódio que provavelmente não figura entre os momentos mais gloriosos da história do teatro nacional, mas que continua a ocupar um lugar de destaque entre as minhas recordações daqueles tempos. O que nunca esquecerei, porém, é que os guiões que utilizávamos eram frequentemente escritos à mão pelo próprio padre Pascoal e voltavam a exibir aquela caligrafia que tanto admirava.
Um sábio que continua a ensinar
Mas, acima de tudo, aquilo que mais cresceu dentro de mim foi a admiração pelo seu saber. Houve um tempo em que o via apenas como professor; depois comecei a vê-lo como intelectual; mais tarde descobri nele algo ainda mais raro: um homem verdadeiramente sábio. A diferença é importante. O conhecimento pode adquirir-se; a sabedoria, pelo contrário, resulta de uma vida inteira dedicada à procura da verdade, ao estudo paciente e à reflexão profunda.
Era um homem reservado, discreto e até tímido, mas possuía uma cultura vastíssima que nunca exibia como ornamento. Pertencia àquela espécie cada vez mais rara de intelectuais que não sentem necessidade de demonstrar constantemente aquilo que sabem. Bastava ouvi-lo para perceber a profundidade das suas leituras, a solidez do seu pensamento e a amplitude dos seus horizontes. A imagem de sábio assenta-lhe perfeitamente e é essa imagem que guardo para mim. Às vezes penso, com um sorriso, que bastaria deixá-lo crescer o cabelo, entregar-lhe um cajado e transportá-lo para a Terra Média para que passasse facilmente por Gandalf. Não o digo apenas pela semelhança física que a imaginação permite construir, mas sobretudo porque ambos partilhavam aquela autoridade tranquila que nasce do conhecimento e da experiência. Não admira que um dos momentos que mais me marcou tenha acontecido já muito mais tarde, quando finalmente concluiu a sua tese de doutoramento. Ao pedir-me que desenhasse a capa daquele volumoso trabalho académico, ofereceu-me muito mais do que uma simples colaboração gráfica. Naquele gesto estava o reconhecimento de uma ligação construída ao longo dos anos. Eu continuava a vê-lo como um dos mestres da minha juventude; ele, apesar das centenas de alunos que tinham passado pela sua vida, continuava a lembrar-se daquele antigo seminarista. Foi um gesto discreto, à sua maneira, mas profundamente significativo para mim.
Hoje, ao recordar o padre Pascoal, não penso apenas no professor, no formador, no dramaturgo ou no intelectual. Penso sobretudo no homem que ajudou silenciosamente a moldar a vida de tantos outros homens. Penso naquele educador cuja influência continua presente em pequenos detalhes que atravessaram décadas, desde uma assinatura inspirada na sua até uma forma de olhar para o conhecimento como algo que merece ser procurado com humildade e perseverança.
Há pessoas que passam pela nossa vida e deixam recordações. Outras deixam marcas. O padre Pascoal pertence a esta segunda categoria. E essa é a mais bela definição de um educador: alguém que continua a ensinar muito depois de ter terminado a última aula.