O GRITO DO PROFETA

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Ontem, contemplando José, chamava-nos a atenção o silêncio heróico e total daquele que desempenhou, com uma fidelidade inultrapassável, a maior e mais extraordinária missão confiada a um puro homem; digo puro homem, para o distinguir do homem Deus, que, como afirma o Papa Francisco, ele amou com coração de pai.

Sim, porque a sua missão foi precisamente a de esposo da Bem-aventurada Virgem Maria e pai de seu filho, Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem.

Chamaram-lhe “pai nutrício” – encarregado do sustento da família – e pai adoptivo – como se ele se tivesse limitado a substituir o pai biológico.

Designações destinadas a realçar a virgindade da mãe de Jesus; mas que, além de ignorarem o processo da perfilhação, que toda a antiguidade, dentro e fora das tradições bíblicas, punha acima da filiação biológica, descuram certos aspectos, tão essenciais e profundos como o resto, relativo à fé na Encarnação do Verbo.

Assim sendo, é evidente que o silêncio de José tem um significado que não cabe na simples ausência de palavras: e quando reparamos, não apenas no modo como realizou a sua missão, mas sobretudo como a foi conhecendo e abraçando, passo a passo, até desaparecer, acho que podemos dizer sem exagerar, que José fez o discurso mais seguro, rico de conteúdo e constante de toda a história da humanidade.

Talvez devêssemos estudar melhor duas palavras usadas por São Mateus, quando fala daquela noite escura por que passou José:

Maria estava grávida; oficialmente era apenas sua noiva, mas isso não seria contra a Lei, segundo os costumes do tempo.

Pelo modo como Mateus fala da reacção de José, podemos perfeitamente concluir que as suas dúvidas não se referiam à noiva, mas ao papel que lhe competia em todo aquele assunto, que lhe aparecia claramente como fruto de uma intervenção especial de Deus: assim, porque é um homem justo, não a denuncia; ao contrário, com um heroísmo que só a fé e o amor explicam, assume-se como responsável pelo que de injusto possa acontecer à mãe, naquelas circunstâncias.

Ser justo e guardar silêncio, quando a lei dos homens manda falar, não quer, de modo nenhum dizer fechar os olhos e os ouvidos, para não ver nem ouvir o que se sofre e porque se sofre: significa abraçar, com os compromissos que isso implica, o silêncio que preserva a dignidade das vítimas do sofrimento. Silêncio, que assim se transforma, para os corações rectos, no mais acutilante dos gritos. Como gritavam os profetas perante a infidelidade dos reis e do povo.

Encanta-me sobremaneira meditar sobre este silêncio de José, tendo como fundo o trecho do Evangelho que lemos esta manhã:

“«Nós sabemos de onde é este homem, e, quando o Messias vier, ninguém sabe de onde Ele é».

Então, em alta voz, Jesus ensinava no templo, dizendo: «Vós Me conheceis e sabeis de onde Eu sou! No entanto, Eu não vim por minha própria vontade e é verdadeiro Aquele que Me enviou e que vós não conheceis. Mas Eu conheço-O, porque d’Ele venho e foi Ele que Me enviou». Procuravam então prender Jesus, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a sua hora” (Jo 7, 24-30).

“Em alta voz, Jesus ensinava no templo”, é a tradução, um tanto ou quanto eufemística da forma grega “ékraksen”, latim “clamabat”, “gritava”.

O templo regogitava de peregrinos, judeus da Palestina e da diáspora, vindos para a Festa dos Tabernáculos. A figura do Mestre ou rabi da Galileia tinha mesmo de andar na boca de toda a gente; e parece que os que mais conheciam d’Ele, ou diziam conhecer, dominavam o ambiente geral, apesar dos milagres que alguns citavam em prol da superioridade desse galileu, como um dos profetas.

Para todos, Jesus sente o dever de proclamar, no tom e com a força dos profetas, que precisamente os que mais pretendem saber d’Ele, são os que estão mais longe de O conhecer, na totalidade do Seu ser humano e divino, e como era precisamente a ignorância desta condição divina que dava a tantos “conhecedores” e comentadores a força que ameaçava impor-se sobre a multidão, em conivência com os abusos da autoridade, Jesus grita.

Gritar é muito mais do que falar em voz alta: guardar silêncio, quando acontece, como nos nossos dias, os ruídos serem de tal ordem que ameaçam afogar todo o pensamento correcto e justo, pode tornar-se o mais corajoso dos gritos, se nos mantemos fiéis a Deus, por Jesus Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida”: porque o velho ditado, “quem cala consente”, tem uma aplicação muito específica, que não admite nenhuma aprovação da mentira e do erro.

Jesus gritava, como recomendaria aos discípulos, numa conversa íntima com eles:

“O discípulo não é mais do que mestre, nem o servo está acima do seu senhor. Se chamaram Belzebu ao chefe da família, quanto mais aos seus familiares!

Portanto não tenhais medo deles! (…)

O que vos digo na sombra dizei-o às claras; e o que escutais ao ouvido gritai-o sobre os telhados. E não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode lançar na gehena o corpo e a alma” (Mt 10, 24-28).

O temor de Deus, no sentido bíblico, é a única coragem que afoga todos os medos nascidos ou coniventes com as nossas limitações e fraquezas.

(Fátima, 26.03.19/21)

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