O equívoco da perfeição

198 visualizações

Desta vez começo com uma citação do último concílio ecuménico, o XXI da história da Igreja, segundo a contagem que me parece mais razoável, ainda que não universalmente adotada pelos especialistas.

“Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho” (LG 11).

Todos chamados à perfeição do Pai, cada um por seu caminho.

Todos, cada um por seu caminho.

Seria espantoso que, de um concílio tão citado, muitas vezes por más razões, quase se tenha esquecido a solenidade desta proclamação da Igreja, quanto ao essencial da sua missão. Seria espantoso, se não tivesse acontecido o mesmo com outros grandes concílios e não tivéssemos o testemunho clamoroso daqueles que nos nossos dias a própria Igreja apresenta como modelos de vida cristã, elevando-os à honra dos altares.

Pena é que, a nível da religiosidade popular, grande parte das festas e romarias façam tão pouco em prol do conhecimento desta verdade: todos somos chamados à perfeição do Pai, todos segundo as exigências concretas do próprio caminho, procurando santificar as realidades terrenas, a partir do interior.

Aliás, o concílio repete, quase palavra por palavra, uma das solenes recomendações de Jesus aos seus discípulos:

«Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.

Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os publicanos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?

Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mateus 5, 43-48).

Para o discípulo, o único modelo de perfeição é o Pai; modelo, isto é, caminho de percurso sem fim, fora d’Ele.

Eu era ainda muito jovem, quando, assistindo por acaso, a uma encenação dos Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer, ouvi Tomás Becket, o futuro mártir de Henrique II, pedir a Deus que o defendesse da tentação da santidade.

Desse espetáculo teatral não fiquei com grandes lembranças; mas desde então, nunca mais deixei de discutir o significado das palavras mais usadas na linguagem teológica, ascética e mística, procurando defender-me de conotações menos corretas de um vocabulário cuja historicidade não pode desconhecer a vida que lhe vai dando cada geração de crentes.

A tentação da santidade, como eu a interpreto, seria para o bispo saxão expulso da sua sé, o desejo de ser reconhecido como homem de virtude, dotado de uma visível perfeição moral. Isso não coincidia exatamente com a razão última do seu exílio, que era a honra de Deus e da Igreja.

O dever inalienável da consciência

Afinal, ser santo, só indiretamente terá algo a ver com perfeição moral: todos sabemos que, apesar do mistério que isso comporta, se pode levar uma vida moralmente correta, dentro do quadro legal em que, como indivíduo ou profissional competente se desenvolve, sem qualquer ligação com uma fé concreta.

A isso chamo eu o equívoco da perfeição.

Como é equívoca a expressão “liberdade de consciência”, tão usada nos nossos dias, para defender a total secularização da vida pública.

De facto, contrariamente ao que muitas vezes se ouve, não existe liberdade perante os ditames claros da própria consciência: segui-los é um dever e um direito inalienáveis.

Como são deveres e direitos inalienáveis, formar bem essa mesma consciência.

Trezentos e sessenta e cinco anos depois da morte de Tomás Becket, outro Tomás, agora um leigo e humanista de renome, morria às mãos de um rei, também chamado Henrique, precisamente porque, defendendo como um bem supremo a liberdade das consciências, não quis dizer nem fazer nada que pusesse em questão a liberdade dos outros.

E não lhe faltou quem, incluindo o próprio rei, de quem era chanceler fiel e respeitado, lhe sugerisse o que chamaríamos hoje de “politicamente correto”: assinar como chanceler, sem se comprometer como homem crente.

Tomás, que, além de uma enorme cultura e sentido de humor, tinha bom senso, humano e sobrenatural, percebeu que a sua assinatura num documento imposto pelo rei, recusando verdades fundamentais da fé, pressionaria muitas outras pessoas a violarem a própria consciência.

Não deixa de ser profundamente atual e exemplar, o facto de um homem social, cultural e politicamente comprometido, ser condenado à morte pelo silêncio que lhe impunha a própria consciência, percebendo como compreenderia a liberdade das consciências dos outros.

(Fátima, 25.06.22)

Partilhar

Leia esta e outras notícias na...

NEWSLETTER

Receba as notícias no seu email​
Pode escolher quais as notícias que quer receber: destaques, da sua paróquia