[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Era uma peregrinação diocesana, com muitas características da religiosidade popular, mas profundamente marcada pela fé na bondade de Deus e na intercessão da Virgem santíssima: Fátima era ainda a Fátima, um topónimo, articulado como como era norma geral, quando não se lhe ligava uma conotação específica, e a peregrinação diocesana fora decidida pelo o bispo e seu clero, em reparação reparação do gesto abusivo da autoridade civil que, em 13 de Agosto de 1917, raptara os videntes, para evitar que fossem à Cova da Iria, como lhes tinha dito a Senhora, que os convidara a irem aí nos meses de Junho a Outubro.
Esta peregrinação diocesana, por muitos motivos, tanto teológicos como pastorais, incluindo as profundas alterações políticas e sociais, entretanto verificadas, dentro e fora do país, foi depois, já na década de sessenta, com significativa participação das paróquias da diocese, inserida no processo de caminhada e conversão quaresmal, ligando-se, não a uma data determinada, mas ao quinto domingo da Quaresma, que então tinha, no calendário litúrgico geral, o nome de I Domingo da Paixão.
Outros elementos da nossa cultura actual, entre os quais se contam, além da progressiva secularização da vida publica, os efeitos de novos colonialismos e o consumismo universal, contribuíram para que o sábado comece já a tomar precedência sobre o domingo.
Talvez estas mudanças de datas e conteúdos, relativamente à Peregrinação Diocesana a Fátima, sejam mais positivas do que alguns serão levados a pensar: pelo menos favorecem, se quisermos aproveitá-los para isso, uma boa catequese sobre o conceito de peregrinação, começando pela ideia central de toda a ascese cristã: “peregrino” etimologicamente significa estrangeiro.
É um pensamento recorrente na vida de todos os grandes santos, desde os místicos que encontramos já nos textos bíblicos, tanto do Antigo como com do Novo Testamento, que estamos no mundo, sem ser do mundo: somos, por conseguinte, estrangeiros.
Mas atenção! Porque estrangeiro, quando se fala desta condição do homem, não é sinónimo de estranho, sem uma relação existencial com as pessoas e as coisas, que, afinal, lhe foram confiadas por Deus para que cuidasse delas: para que cuidasse delas, não para que se apoderasse delas ou por elas se deixasse escravizar.
São Josemaria Escrivá pôde dizer um dia à multidão que o escutava no campus da Universidade de Navarra, que o cristão que vive mergulhado nas realidades do mundo, para ser fiel, tem de amar loucamente esse mundo: amá-lo, porque é bom e lhe foi confiado por Deus.
Acontece, porém, que desde as origens, esse mundo lhe aparece a toda a hora, com imagens fascinantes que fazem esquecer a solenidade do gesto criador de Deus (Cfr Gen 1, 27-31; 3, 1-7).
A peregrinação, no interior mais profundo do homem, será, portanto, fruto da consciência que assume do seu apego ao que não deve, fixando-se nas criaturas, quaisquer que elas sejam, como se esta fosse a sua morada definitiva.
Afinal, todos somos peregrinos, e as luzes que tentam convencer-nos do contrário, são apenas trevas: por isso me encanta o poema de São João Newmann, que transcrevo, com a devida vénia, na tradução do Secretariado Nacional de Liturgia:
Luz terna, suave, no meio da noite, /Leva-me mais longe…
Não tenho aqui morada permanente: /Leva-me mais longe…
Que importa se é tão longe para mim /A praia aonde tenho de chegar,
Se sobre mim levar constantemente /Poisada a clara luz do teu olhar?
Nem sempre te pedi como hoje peço /Para seres a luz que me ilumina;
Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso /Na plenitude da tua luz divina.
Esquece os meus passos mal andados, /Meu desamor perdoa e meu pecado.
Eu sei que vai raiar a madrugada /E não me deixarás abandonado.
Se Tu me dás a mão, não terei medo, /Meus passos serão firmes no andar.
Luz terna, suave, leva-me mais longe: /Basta-me um passo para a Ti chegar.
Não tenho aqui morada permanente!
Mas porque tantas vezes me acolho a tugúrios que se me afiguram palácios grandiosos, porque me cegam os clarões dos fogos fátuos do poder, da fama, da riqueza e da cultura, tenho de peregrinar: sair desta morada enganadora, não importa com que meio, mas sempre levando sobre mim “constantemente poisada a clara luz do Teu olhar.
Não tenho necessidade de ir a qualquer santuário, para além daquele que criaste na Eucaristia e nos outros sacramentos da Igreja; mas sei que, guiado com a clara luz do teu olhar, nesses santuários posso, unindo-me aos milhares, talvez até milhões, que aí rezam, ter mais força para caminhar.
Luz terna, suave, no meio da noite, /Leva-me mais longe…
Não tenho aqui morada permanente: /Leva-me mais longe…
(Fátima, 26.03.22/23)