Na Sé de Leiria celebrou-se a noite que mudou o mundo

746 visualizações

Na noite mais sagrada do calendário cristão, a Sé de Leiria acolheu a Vigília Pascal presidida pelo bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas. Entre o fogo novo aceso no adro e a Eucaristia com que a celebração culminou, três fiéis — uma criança e dois adultos — foram baptizados e, no caso dos adultos, crismados, incorporando-se ao mistério pascal que a Igreja anuncia ao mundo há mais de dois milénios.

Álbum Fotográfico http://l-f.pt/gpHq

A Vigília Pascal é, por definição litúrgica e por experiência vivida, a celebração maior do ano católico. Estruturada em quatro momentos — Liturgia da Luz, Liturgia da Palavra, Liturgia Batismal e Liturgia Eucarística —, ela condensa o núcleo da fé cristã: a vitória de Cristo sobre a morte e a abertura de um caminho novo para toda a humanidade.

Do fogo novo ao Precónio Pascal: Cristo, luz que rasga as trevas

Tudo começou no exterior da Sé, com a bênção do fogo novo. O círio pascal — inscrito com o Alfa e o Ómega, o ano corrente e a evocação das chagas de Cristo — foi aceso e conduzido em procissão para o interior da catedral às escuras, enquanto três vezes se proclamava: «Eis a luz de Cristo». O canto solene do Precónio Pascal, ou Exsultet, proclamou então a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, situando a assembleia no coração do mistério.

Esta imagem não tem texto alternativo. O nome do ficheiro é: Na-Se-de-Leiria-celebrou-se-a-noite-que-mudou-o-mundo.jpg

A Liturgia da Palavra convocou a História da Salvação através de diversas leituras do Antigo Testamento — da Criação ao Êxodo, passando pelas profecias —, culminando no Novo Testamento e no Evangelho da Ressurreição. À assembleia foi pedida escuta renovada: a mesma escuta que, segundo D. José Ornelas, caracterizou as mulheres presentes no sepulcro naquela manhã de domingo.

«Ao terminar esta noite, há dois mil e trinta e tal anos, quando começava um novo dia, um anjo de luz apareceu para dar uma notícia que havia de mudar o mundo. Dizia: ‘Não está aqui, no túmulo onde O pusestes; ressuscitou.’»

VÍDEO
https://youtu.be/Dk0rBQQmbXY

O bispo recordou os três anúncios angélicos que estruturam o arco narrativo da salvação: o da Anunciação a Maria, o do nascimento de Jesus aos pastores e o da Ressurreição às mulheres. «Há algo de semelhante em todos estes acontecimentos: são anjos que chegam e, à primeira vista, inquietam», observou D. José Ornelas. «Depois, porém, surge uma palavra de tranquilidade: ‘Não temas’, ‘a paz esteja contigo’. Não se trata de uma ameaça, mas de uma notícia fundamental, portadora de alegria.»

Três baptizados na «mãe de todas as vigílias»

Antes dos baptismos, a homilia de D. José Ornelas preparou a assembleia para o que se seguia. O bispo dirigiu-se directamente aos catecúmenos, anunciando-lhes a transformação que estavam prestes a viver: «É este o Espírito que hoje recebereis. Tornai-vos filhos e filhas de Deus. É isto que acontece também no Baptismo: como a criança que será baptizada, assim todos nós somos gerados para uma vida nova.»

Para iluminar o sentido do rito que se aproximava, o prelado convocou as palavras do profeta Ezequiel: «Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; dar-vos-ei um coração novo, tirarei de vós o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.» Um coração que é, na sua leitura, a sede do afecto que Deus deseja como expressão genuína da fé: «uma fé feita de relação, de gratidão, de amor».

«É isto que somos como Igreja: uma comunidade reunida por Cristo. Por isso, sois muito bem-vindos. É com estes irmãos e irmãs que formamos este mundo novo. E somos chamados a viver de forma empenhada e activa.»

Foi nesse enquadramento homilético que, a seguir, se desenrolou a Liturgia Batismal. Após a bênção da água — que evoca o Espírito Santo e recapitula toda a História da Salvação —, três pessoas receberam o baptismo: uma criança de colo e dois adultos, estes últimos incorporando o rito da iniciação cristã que a Igreja antiga privilegiava preferencialmente nesta noite, após um percurso de catecumenato.

Os dois adultos receberam igualmente o sacramento da Confirmação, completando a sua plena iniciação na comunidade eclesial. A assembleia inteira renovou, a seguir, as suas promessas batismais, reafirmando em voz alta a fé pascal — gesto que une neófitos e fiéis de longa data no mesmo compromisso.

«A morte era apenas o começo»: a Igreja enviada à Galileia

Na sua homilia, D. José Ornelas desenhou a passagem da cruz à ressurreição como o eixo à volta do qual tudo o resto se organiza — a vida de Jesus, o surgimento da Igreja, o baptismo dos novos cristãos e a missão de cada fiel. Retomando o versículo do Evangelho — «Ide dizer aos meus irmãos que estou vivo e que vou para a Galileia; lá Me verão» —, o bispo identificou na Galileia não apenas um lugar geográfico, mas o símbolo do recomeço.

«Eles pensavam segundo uma lógica antiga: esperavam um Deus milagreiro ou um líder poderoso que resolvesse tudo. Mas agora compreenderão que não é assim», disse o bispo. «Tinham-se dispersado; alguns já partiam, como os discípulos de Emaús. Sem Jesus, pensavam não haver motivo para permanecer unidos. Mas é precisamente aqui que nasce a Igreja. É este Jesus vivo que nos reúne. Sem Ele, não há Igreja.»

D. José destacou que a presença do Ressuscitado não está limitada «por paredes ou distâncias», chegando a todos com a força de Deus. A Igreja, nessa perspectiva, não é uma instituição centrada em si mesma, mas uma comunidade permanentemente convocada pelo Cristo vivo e enviada a construir «relações novas» e a trabalhar por «uma Igreja e por um mundo mais humano».

Referindo-se directamente ao desânimo dos primeiros discípulos — que viam na morte o fim —, o bispo ofereceu uma leitura invertida da derrota aparente: «Aqueles discípulos estavam desanimados e desiludidos: a morte parecia o fim. Mas, na verdade, era apenas o começo.» E acrescentou, num apelo dirigido a toda a assembleia: «Também esta noite é um recomeço: na vossa vida e na nossa.»

VÍDEO
https://youtu.be/8krykR4vBVM

A celebração da Vigília Pascal culminou com a Liturgia Eucarística, em que a comunidade reunida na Sé partilhou a comunhão pascal — sinal e antecipação do mundo novo que o Ressuscitado inaugura. Nas palavras finais da homilia, D. José Ornelas deixou o enquadramento teológico condensado numa única frase: «Porque Ele está verdadeiramente vivo e actuante no meio de nós.»

Siga-nos nas redes sociais:
Partilhar

Leia esta e outras notícias na...

NEWSLETTER

Receba as notícias no seu email​
Pode escolher quais as notícias que quer receber: destaques, da sua paróquia