A Catedral de Leiria acolheu esta manhã a celebração da Missa Crismal, presidida por D. José Ornelas, numa das liturgias mais expressivas do ano litúrgico. Os sacerdotes renovaram os seus compromissos de ordenação, foram benzidos os santos óleos e foram evocados os jubileus e a memória dos presbíteros falecidos.
A manhã de Quinta-feira Santa, 2 de abril de 2026, ficou marcada pela solenidade e pela fraternidade que a Missa Crismal imprime a quem a celebra. A Catedral de Leiria encheu-se de sacerdotes vindos de todas as paróquias e Unidades Pastorais, de membros de comunidades de Vida Consagrada e de fiéis leigos, para celebrar, em conjunto, uma das liturgias mais ricas e significativas do calendário da Igreja. A celebração, com início às 11h00, foi presidida por D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima, e constituiu o coração espiritual da Semana Santa diocesana.
A Missa Crismal tem um lugar próprio e insubstituível na tradição da Igreja. É nela que o bispo, rodeado pelo seu presbitério, benze os óleos santos — o óleo dos catecúmenos, o óleo dos enfermos e o santo crisma — que serão utilizados ao longo do ano em toda a Diocese, nos sacramentos do Batismo, da Confirmação, da Unção dos Doentes e da Ordenação. É também o momento em que os sacerdotes, reunidos à volta do seu bispo, renovam publicamente os compromissos assumidos no dia da sua ordenação. Uma liturgia que, por natureza, é eclesialmente densa: manifesta a unidade do presbitério, a comunhão entre o bispo e os seus sacerdotes e a ligação orgânica entre o ministério ordenado e a vida sacramental de todo o povo de Deus.
Álbum fotográfico http://l-f.pt/FpF6Nas palavras de acolhimento que dirigiu à assembleia, D. José Ornelas começou por saudar todos os presentes com afeto e significado: “É com especial alegria que vos dou as boas-vindas na Sé da nossa Diocese, a Casa-Mãe da nossa Igreja de Leiria-Fátima, vindos das diferentes paróquias e Unidades Pastorais, bem como das comunidades de Vida Consagrada.” O Bispo saudou de modo particular D. Serafim Ferreira Silva, bispo emérito da Diocese, e os sacerdotes presentes, bem como aqueles que, “por enfermidade ou outro motivo, não podem estar aqui connosco.” Aqui, deu nota da ausência do cardeal D. António Marto, impedido de estar presente por motivos familiares: “o Cardeal D. António Marto também tinha previsto juntar-se a nós, mas, devido a problemas de saúde de pessoas da sua família, foi juntar-se a eles, mas disse que estaria unido a nós nesta especial Eucaristia da Quinta-feira Santa.”
Jubileus do serviço fiel à Igreja
Uma das notas mais tocantes da celebração foi o reconhecimento público dos sacerdotes que, em 2026, assinalam jubileus de ordenação. Num gesto que a Diocese repete anualmente como sinal de memória e gratidão, D. José Ornelas anunciou com alegria os nomes e os anos de ministério de cada um.
O destaque vai para o padre Manuel de Sousa Antunes, que assinala neste ano os ricos 75 anos de ordenação presbiteral — uma vida inteira entregue ao serviço do Povo de Deus. A seguir, o padre Benevenuto Santiago Morgado celebra 70 anos de ministério sacerdotal. O padre José Ferreira Gonçalves assinala 60 anos de vida presbiteral. E o padre David Nogueira Ferreira, atualmente em missão na Diocese do Sumbe, em Angola, completa 25 anos de ordenação — um testemunho de doação missionária para além das fronteiras da Diocese de origem.
A celebração incluiu igualmente a evocação de um jubileu episcopal de grande significado para a Diocese: os 25 anos de ordenação episcopal de D. António Marto, um marco que a Igreja local quis honrar neste dia de comunhão presbiteral.
“Quero saudar e congratular-me com os irmãos no sacerdócio que, desde a última Páscoa, celebram jubileus da sua ordenação ao serviço do povo de Deus”, disse o Bispo, enumerando os nomes com a solenidade que a ocasião merecia. Momentos como estes sublinham que a Igreja que reconhece os seus servos é uma Igreja que sabe de onde vem e quem a sustentou, ao longo de décadas, no silêncio do ministério pastoral.
Na memória dos que partiram
A celebração reservou também um momento de memória e oração pelos sacerdotes diocesanos falecidos desde Páscoa de 2025. Três nomes foram evocados com respeito e gratidão: o padre Elias Ferreira da Costa, falecido a 9 de novembro de 2025; o padre Luciano Coelho Cristino, a 28 de novembro de 2025; e o padre António da Piedade Bento, a 17 de janeiro de 2026.
Nomes que representam anos — décadas — de presença na Diocese. A sua evocação pública na Missa Crismal é, ela própria, um ato litúrgico: a Igreja que celebra a unidade do seu presbitério não a entende como limitada aos vivos, mas como uma comunhão que atravessa a morte e se estende aos que já entregaram o ministério ao Senhor que lhos confiou.
Unidade, serviço e missão no coração da Igreja
O núcleo espiritual e teológico da celebração foi a homilia de D. José Ornelas, que foi, ao mesmo tempo, uma meditação sobre o sentido do ministério ordenado e um convite pastoral dirigido a toda a Diocese.
O Bispo partiu do contexto litúrgico do dia: “Neste dia em que celebramos a última ceia de Jesus com os seus discípulos e a instituição da Eucaristia através do mandato aos apóstolos de a celebrar em sua memória, também nós nos reunimos, como Igreja de Leiria-Fátima, para atualizar a palavra de Jesus que nos diz: ‘Fazei isto em memória de Mim’.” A referência à Última Ceia não foi apenas histórica ou doutrinária — foi o fio condutor de toda a reflexão, ancorada na oração de Jesus ao Pai pela unidade dos seus discípulos: “Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti” (Jo 17, 20s).
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A unidade — como dom do Espírito e como exigência ética — foi o tema central da homilia. D. José Ornelas citou o Documento Final do Sínodo de 2024 para iluminar o que esta unidade implica concretamente: “Para ser uma Igreja sinodal é necessária uma verdadeira conversão das relações.” Não se trata de uma fórmula abstrata: trata-se de transformar o modo como os membros da Igreja — e em particular os ministros ordenados — se relacionam entre si e com o povo que servem.
O bispo foi claro e direto ao descrever a identidade do ministério ordenado: “O Ministério Ordenado não transforma os que o recebem em senhores ou patrões de ninguém, nem donos da Igreja.” A afirmação ganhou ainda mais força pela lógica que a fundamenta: “Precisamente porque o dom é de Deus, é para ser exercido em nome dele e segundo o estilo de Jesus ‘que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão’ (Mc 10,45).”
Citando o Evangelho de Lucas — “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres. Ele me enviou a anunciar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4, 18s) —, D. José Ornelas sublinhou que a unção do Espírito não é uma prerrogativa de distinção, mas uma consagração para o serviço. A missão da Igreja, disse, “não é exclusiva daqueles que recebem a unção do Espírito para o ministério sagrado, mas eles têm um papel especial, ligado à missão de Jesus Cristo.”
A autoridade dos ministros ordenados, no pensamento do Bispo, não tem origem na capacidade pessoal nem na representatividade comunitária: tem origem no dom do Espírito recebido pela imposição das mãos. É por isso que as palavras sacramentais — “Isto é o meu corpo”, “Eu te absolvo dos teus pecados”, “Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, dom de Deus” — “só são possíveis em nome e através do Espírito de Jesus ressuscitado, concedido, na Igreja, pelo sacramento da Ordem pelo sinal do óleo que hoje consagramos.” Uma afirmação que coloca o ministério na sua verdadeira origem: não no mérito humano, mas na graça divina.
As Unidades Pastorais como expressão de sinodalidade
Um dos momentos mais pastoralmente concretos da homilia foi a referência direta às Unidades Pastorais que a Diocese de Leiria-Fátima está a implementar. D. José Ornelas apresentou-as não como uma mera reorganização administrativa, mas como uma expressão do espírito da Quinta-feira Santa: a comunhão dos discípulos enviados em missão.
“As Unidades Pastorais que estamos a promover inspiram-se no espírito deste dia de comunhão de Jesus com os seus discípulos e na missão de que os incumbe, em conjunto, enviando-os dois a dois”, disse o Bispo. E acrescentou um princípio de base: “É de particular importância que aqueles que presidem às comunidades e à sua missão estejam unidos através da oração e do discernimento no Espírito.”
A lógica de saída de si — de cada comunidade para fora dos seus próprios limites — foi igualmente afirmada com firmeza. Citando o Documento Final do Sínodo, o Bispo lembrou que “no Povo santo de Deus, que é a Igreja, a comunhão dos fiéis é, ao mesmo tempo, a comunhão das Igrejas” (DFS, nº 18). As Unidades Pastorais são, neste horizonte, o modo concreto como cada comunidade local exprime que pertence a algo maior: a Igreja una, santa, católica e apostólica.
Palavra final aos sacerdotes, consagrados e leigos
O Bispo concluiu a sua homilia com palavras de agradecimento e de envio. Aos sacerdotes, disse: “Louvo o Senhor e agradeço-vos de coração a cada um de vós, pelo que sois e pelo ministério que exerceis nesta Igreja, pelo dom sincero da vossa vida, a generosidade da vossa dedicação e a abertura de coração para buscar, com a ajuda do Espírito, caminhos de vida e missão, em comunhão com o Povo de Deus e com o Papa Leão XIV, sucessor do apóstolo Pedro, no caminho sinodal que a Igreja está a trilhar, por todo o mundo.”
Aos leigos, consagradas e consagrados, D. José Ornelas dirigiu um pedido especial: “Acolhei estes irmãos com estima, como pessoas e como enviados do Senhor, com amor sincero, apoiando-os na sua missão em vosso favor. Nenhum de nós é perfeito, mas o Senhor é capaz de nos transformar pelo seu Espírito e de nos colocar ao serviço dos irmãos, para bem da Igreja.”
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O Bispo anunciou ainda a próxima ordenação diaconal de Miguel Francisco Vieira, prevista para o dia 26 de abril, Domingo do Bom Pastor, pedindo a oração de todos: “Para que o Espírito do Senhor faça dele um apóstolo segundo o seu Coração, ao serviço do seu Povo.”
A celebração teve um dos seus pontos altos na renovação pública dos compromissos sacerdotais por parte de todos os presbíteros presentes — um dos momentos mais intensos da liturgia da Quinta-feira Santa —, seguida da bênção dos santos óleos que, nas próximas horas e dias, partirão para cada comunidade da Diocese, levados pelas mãos dos sacerdotes que os receberam, para ungir, fortalecer e santificar o povo que lhes foi confiado.
Durante a bênção e consagração dos óleos, o bispo realiza alguns gestos muito expressivos: recebe as âmbulas dos óleos, deita os perfumes no óleo do Crisma quando é o caso, estende as mãos sobre o Crisma durante a oração, e, por vezes, sopra sobre a âmbula do Crisma; depois, abençoa o óleo dos enfermos e o óleo dos catecúmenos segundo a ordem litúrgica.
Gestos principais
O primeiro gesto é a apresentação dos óleos ao bispo: os ministros trazem as âmbulas e o bispo recebe-as, sinal de que a Igreja inteira confia a ele este serviço de unidade. Em seguida, na preparação do Crisma, o bispo mistura o óleo com o perfume/bálsamo, gesto que exprime a plenitude da graça do Espírito Santo e a beleza da consagração.
Na oração
Durante a oração de consagração do Crisma, o bispo fica de pé, de braços abertos, e os concelebrantes estendem a mão direita para o óleo, como sinal de súplica e comunhão no mesmo ministério. Em algumas celebrações, o bispo sopra sobre o Crisma, gesto antigo ligado ao sopro do Espírito Santo, que comunica vida nova.
Sentido destes sinais
Todos estes gestos mostram que os santos óleos não são apenas elementos materiais, mas sinais visíveis da ação de Deus na Igreja: fortaleza para os catecúmenos, conforto para os enfermos e consagração para o Crisma. Se quiser, posso transformar isto num texto corrido, em estilo mais pastoral e simples, para publicação.