Liberdade e quaresmas de santos e menos santos

Há muitas quaresmas: de Cristo, da Igreja, dos santos e convertidos, de jejuar e dar comer aos famintos. Os de ontem e os de hoje. Doem mais as quaresmas de crises e sofrimentos, sem esperança.

Há muitas quaresmas: de Cristo, da Igreja, dos santos e convertidos, de jejuar e dar comer aos famintos. Os de ontem e os de hoje. Doem mais as quaresmas de crises e sofrimentos, sem esperança. Todas são tempos de austeridade, privação, sofrimento e iluminação espiritual; e podem ser de libertação e conversão. Há uns anos num congresso internacional fiquei surpreendido com a campanha de um orador para o hospital sem sofrimento. Ainda se fosse sem dor… foi a minha observação. Haverá alguém, jovem, adulto ou idoso, que nunca sofreu? Jesus no deserto suportou o sofrimento da fome, teve mesmo fome, sofreu e ia sofrer mais na Paixão, sempre com liberdade. Conduzido pelo Espírito, proclamou que não tinha que obedecer ao diabo e vender-se para fugir ao sofrimento. A libertação dos sofrimentos não pode ser ao preço da chuva. As dores são sinais de alerta muito úteis, dizem os médicos; os sofrimentos doem mas podem ajudar a maturidade das pessoas, concordam os sábios. E convertê-las a Deus, como remédio, dizem tantos santos. Muitos santos aceitaram desertos de jejum, oração e dores; e, livremente, se oferecerem a Deus para matar a fome, da alma e do corpo, ao próximo. Francisco de Assis libertou-se do peso da riqueza do pai; Inácio de Loiola preferiu a bandeira de Cristo à mundana; João de Deus de Granada recebeu misericórdia e deu hospitalidade. Muitos milhões de pessoas trocaram tudo por Cristo, medicados por quaresmas de dor. Não foram estúpidas como alguns pretendem. Como Jesus, recorreram à luz da palavra de Deus, e ao LIVRO, para iluminar a sua vida. As modernidades pós verdade cunharam termos de venda de liberdade a pataco, transformada em libertinagem de prazeres podres. Os santos distinguiam a vontade livre da menos livre, como Paulo de Tarso e Agostinho de Hipona que deixaram palavras sábias sobre vontade e liberdade: faço o mal que não quero e não faço o bem que quero (Rom 7,15 e 19;Confissões VII). Alguns negam o livre arbítrio na linha de B. F. Skinner do condicionamento total; outros estendem-no para além de todos os fatores condicionantes igualando liberdade e libertinagem. Até se iludem de ser livres para controlar a morte e a negar. Em tempos orientei um curso livre no CRC sobre crises e desilusões. À medida que ia avançando e me atrevia a dizer que era bom sofrer desilusões; alguns ficavam chocados e reagiam: as desilusões não podiam ser experiências positivas por causar sofrimento. Esqueciam os dicionários a definir desilusão como frustração e sofrimento; e também desengano e perda de ilusões. O desiludido deixa enganos e erros. As desilusões de proximidade da morte provocam crises e podem conseguir mais maturidade que anos de psicanálise. Neste sentido, Cristo, no deserto, perante o pai da mentira e das ilusões usou a palavra de Deus para vencer as pretensões de o diabo o iludir. Deus e a sua palavra de verdade valem mais que tudo nesta vida, respondeu-lhe Jesus. A vaidade ilusória de controlar perigos, pondo Deus ao seu serviço, na queda do pináculo, e a tentação de adorar o diabo em vez do único Deus para ser dono do mundo todo, era ilusão que só podia receber um forte não de Cristo. Nas suas quaresmas, os santos e convertidos não se mataram, nem cortaram relações com Deus para escapar a todo o sofrimento e doenças graves. Oraram como Jesus no Jardim das Oliveiras: Pai, se é possível, afasta este sofrimento, contudo aceito o sofrimento e a morte segundo a tua vontade. No sonho de Daniel (Dan 2,27-35), uma pedra vinda do alto, reduziu a pó o gigantone com pés de ferro e barro. A pedrinha que agora desfaz ilusões de ser possível controlar tudo, mesmo o sofrimento e a morte, como tabus, poderá ser uma doença que alastra, como a epidemia do coronavírus a ameaçar parar o mundo. Os sofrimentos podem ser convites ao super-homem a cair em si e a aceitar o amor de Deus Pai e a converter-se do mal ao bem. É ilusão querer branquear as palavras com falsos sentidos para negar o pecado; e dizer que todo o prazer é bom e faz bem; que interromper a gravidez deixa de ser o mal do aborto procurado; que ajudar outro no seu suicídio é misericórdia. Ou ainda que legalizar roubos e corrupção torna esses crimes aceitáveis; e que chamar às incuráveis doenças prolongadas afasta o sofrimento e a morte. Grande ilusão é enxertar liberdade, suicídio e homicídio e chamar morte digna ao pedido a outro para causar morte antecipada. Os sofrimentos e as limitações das quaresmas e dos desertos de cada um não têm que ser caminhos de absurdo e inferno, mas sim passagens da ilusão para verdade, amor e vida que não acabam. Essa passagem pode ser a expulsão dos demónios com jejum e oração para se gozar da liberdade dos filhos de Deus (Mc 9,29). De facto, «conduzidos pelo Espírito de Deus, somos filhos de Deus (…) clamamos: Aba! Pai! (…) na esperança de participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rom 8:14-21).

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