Kristin: A Diocese de Leiria-Fátima na linha da solidariedade e esperança

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A depressão Kristin atravessou o território português com uma violência pouco habitual, deixando um rasto de destruição que se fez sentir de forma particularmente intensa e catastrófica na faixa litoral e nas regiões do centro do país. No território da Diocese de Leiria-Fátima, os efeitos foram imediatos e extensos: estradas cortadas, falhas prolongadas de eletricidade, árvores derrubadas, edifícios danificados e comunidades inteiras confrontadas com a fragilidade das suas rotinas quotidianas. Perante este cenário, a Diocese mobilizou-se desde as primeiras horas, procurando responder às necessidades concretas das populações, em estreita articulação com as autoridades civis, e oferecendo uma leitura humana e esperançosa da crise.

A partir de uma conversa informal com o bispo diocesano, D. José Ornelas, é possível reconstituir não apenas os acontecimentos, mas também o espírito que tem orientado a ação da Igreja neste contexto: proximidade, coordenação, cuidado com os mais frágeis e confiança num caminho de reconstrução partilhada.

Um território atingido em múltiplas frentes

Os primeiros contactos de D. José Ornelas tiveram como objetivo perceber a real dimensão da situação. “A primeira preocupação foi saber exatamente como estavam as coisas”, explicou, referindo os encontros informais com responsáveis da Proteção Civil e com o presidente da Câmara Municipal. A informação que chegava confirmava que os danos não se limitavam à cidade de Leiria, mas estendiam-se por uma vasta área, desde a praia de Mira e Figueira da Foz até vários pontos do interior do território diocesano.

O impacto foi particularmente visível na rede viária, com estradas bloqueadas por árvores e detritos, dificultando a circulação e atrasando o socorro em algumas localidades. A interrupção de eletricidade, causada por danos extensos nas linhas de alta tensão, afetou centenas de quilómetros de rede, deixando populações inteiras sem luz durante longos períodos. Em várias zonas, apenas geradores permitiram assegurar os serviços mínimos.

As paróquias e comunidades cristãs não ficaram imunes. Muitas igrejas sofreram danos nos telhados, com telhas arrancadas pelo vento e infiltrações que colocaram em risco o património e a segurança. Na igreja da Cruz da Areia, a situação obrigou à retirada do Santíssimo Sacramento e à suspensão das celebrações. Na Sé, a chuva entrou pelo telhado, ameaçando o órgão, que teve de ser protegido com coberturas improvisadas. Outras igrejas, como Santo Agostinho, Espírito Santo e Santa Catarina da Serra, registaram danos menos severos, mas suficientes para exigir vigilância e futuras intervenções. O caso mais grave é mesmo o Santuário de Nossa Senhora da Encarnação: o telhado ficou completamente destruído e os acesso aos monte são impossíveis devido à queda das árvores que compunham a mancha florestal do sítio.

Foto: Ricardo Graça

Centros sociais paroquiais como primeira linha de apoio

Num território marcado por uma população envelhecida e por uma forte presença de respostas sociais ligadas à Igreja, os centros sociais paroquiais assumiram um papel decisivo. Muitos deles já acompanhavam idosos ao domicílio, pessoas isoladas ou famílias em situação de vulnerabilidade. Com a tempestade, essas fragilidades agravaram-se.

“A prioridade foi garantir que os centros sociais não ficassem sem eletricidade e pudessem continuar a funcionar”, referiu o bispo. Para além disso, vários centros reorganizaram-se para acolher pessoas que, devido às condições das estradas ou à falta de energia em casa, necessitavam de um espaço seguro. O conhecimento próximo das comunidades permitiu identificar rapidamente os casos mais urgentes, sobretudo entre os idosos que viviam sozinhos ou dependiam de equipamentos elétricos.

As paróquias, por sua vez, funcionaram como pontos de contacto e de informação, ajudando a sinalizar necessidades, a apoiar a Proteção Civil local e a manter a ligação entre a Diocese e as comunidades mais afetadas. Esta rede de proximidade revelou-se essencial num contexto em que as comunicações estavam frequentemente interrompidas.

O seminário como casa aberta em tempo de emergência

Um dos sinais mais visíveis da resposta diocesana foi a abertura do seminário diocesano como espaço de acolhimento. Desde cedo, foi pedido à Diocese que disponibilizasse instalações para apoiar as equipas de socorro que chegaram de todas as partes do país. Bombeiros, elementos da Proteção Civil, forças de segurança e equipas de apoio logístico encontraram ali um lugar para descansar, tomar banho e recuperar forças.

“Eles valorizam muito coisas simples: uma cama, um banho quente, um prato de comida”, contou D. José Ornelas. Cerca de quarenta quartos ficaram inicialmente disponíveis, permitindo acolher dezenas de pessoas em simultâneo, com possibilidade de alargar a capacidade caso fosse necessário. As refeições, asseguradas através de uma articulação entre empresas locais e serviços municipais, chegavam em abundância e com qualidade, criando um ambiente de cuidado que foi muito apreciado por quem estava no terreno há vários dias. Para termos uma ideia mais exacta, no almoço de sexta-feira foram servidas mais de mil refeições.

Mais do que uma resposta logística, esta abertura do seminário assumiu um forte significado simbólico. Num momento de crise, a casa, outrora de formação dos presbíteros tornou-se casa de acolhimento, testemunhando uma Igreja que coloca os seus recursos ao serviço do bem comum.

Cáritas diocesana na coordenação da solidariedade

A dimensão solidária da resposta foi estruturada através da Cáritas diocesana, chamada a coordenar a recolha e distribuição de bens e donativos. Num cenário em que a ajuda espontânea pode facilmente tornar-se dispersa ou desigual, a Cáritas assumiu a tarefa de canalizar os apoios para onde eram mais necessários, em articulação com as paróquias e com as autarquias.

“É importante que tudo seja bem coordenado, para chegar às pessoas certas”, sublinhou o bispo, destacando que a Cáritas representa o dinamismo social da Diocese e a sua capacidade de resposta organizada. Para além dos bens materiais, preparava-se também a gestão de donativos financeiros, fundamentais para apoiar famílias que perderam equipamentos, habitações ou meios de subsistência.

O cuidado com o património da Igreja

Paralelamente à resposta social, a Diocese iniciou um levantamento dos danos no património eclesial. Igrejas, casas paroquiais e outros edifícios sofreram estragos que exigem avaliação técnica e planeamento de intervenções. D. José Ornelas manteve contacto direto com responsáveis governamentais, nomeadamente na área do património, procurando garantir que as situações mais graves fossem rapidamente sinalizadas.

“É importante fazer uma avaliação sumária dos danos e dos custos, para não perder tempo”, afirmou, consciente de que a recuperação do património é também parte da vida das comunidades. Em muitos casos, as igrejas não são apenas edifícios históricos, mas centros de encontro, de celebração e de apoio social.

Uma leitura pastoral da crise

No meio da destruição e das dificuldades, a palavra que o bispo mais repetiu foi proximidade. Proximidade às pessoas afetadas, às famílias que perderam bens, às comunidades privadas de eletricidade, aos que trabalham incansavelmente no socorro. “Estamos solidários com todos, de forma muito particular com os mais frágeis e com as famílias enlutadas”, afirmou, sublinhando a importância de saber quem são essas pessoas para poder marcar uma presença concreta.

Esta leitura pastoral da crise recusa o alarmismo e aposta numa esperança realista. A gratidão pelos bombeiros, pelas forças de segurança, pelos voluntários e por todos os que servem é acompanhada pela confiança de que a reconstrução será possível, desde que feita em conjunto. “Estamos presentes em vários distritos e trabalhamos sempre em articulação com as autoridades locais. Somos parte de um esforço comum”, disse D. José Ornelas.

A tempestade Kristin revelou fragilidades, mas também revelou forças. Mostrou a vulnerabilidade das infraestruturas, mas evidenciou igualmente a capacidade de resposta das comunidades quando existe coordenação e espírito de serviço. No território da Diocese de Leiria-Fátima, a Igreja procurou ser sinal dessa comunhão que não se fecha sobre si mesma, mas se abre às necessidades do tempo presente.

Entre telhados danificados e árvores caídas, emergiu uma rede de cuidado feita de gestos simples e eficazes: um centro social que acolhe, uma paróquia que informa, um seminário que abre portas, uma Cáritas que organiza a solidariedade. É nesta rede discreta, mas firme, que a Diocese continua a escrever a sua presença no território, ajudando a transformar a adversidade num caminho de reconstrução humana e comunitária.

Mais do que um episódio de emergência, a resposta à depressão Kristin tornou-se, assim, um testemunho vivo de uma Igreja próxima, atenta e comprometida, que procura reconhecer, mesmo no meio da tempestade, os sinais de esperança que nascem da comunhão e do serviço.

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