Entrevista ao diretor do Colégio de São Miguel: “somos uma referência incontornável no contexto educativo”

Este ano, Colégio de São Miguel está a celebrar o 60º aniversário da sua fundação. Nesta sexta-feira, dia 16 de dezembro, é assinalada a data com a Eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade.

Este ano, Colégio de São Miguel está a celebrar o 60º aniversário da sua fundação. Nesta sexta-feira, dia 16 de dezembro, é assinalada a data com a celebração da Eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade, presidida pelo bispo D. José Ornelas, pelas 15h00, para a qual toda a comunidade está convidada a participar. 

As celebrações deste jubileu terminarão no dia 29 de setembro de 2023, dia em se celebra a festa litúrgica do seu patrono, o arcanjo São Miguel. Nesse dia, será inaugurado de um vitral colocado no átrio principal do Colégio que figura o padroeiro.

Para realçar a efeméride, entrevistámos o diretor, Manuel Lourenço, que está à frente dos destinos daquele estabelecimento de ensino há cinco anos.

Manuel Lourenço, diretor do Colégio de São Miguel

Qual a importância do Colégio de São Miguel (CSM) no panorama educativo da região? O que o diferencia dos outros estabelecimentos?

O Colégio de São Miguel é uma referência incontornável no contexto educativo regional e nacional. Distinguiria três dimensões.

Em primeiro lugar, a formação e educação proporcionada aos milhares de alunos que, ao longo destes 60 anos, passaram pelo Colégio. Várias gerações aqui foram formadas, aqui sonharam e começaram a construir os seus projetos pessoais de vida. Nos anos 60, Fátima era maioritariamente rural, com populações pobres e sem possibilidade de proporcionar ensino aos seus filhos. Foram estas pessoas que motivaram as primeiras iniciativas do pároco de Fátima da altura, padre Manuel Henriques, e que vieram a materializar-se no que viria a ser o Colégio de São Miguel.

A segunda dimensão é a importância que advém da sua atividade de inovação pedagógica e organizativa. Falo dos nossos cursos com planos próprios, por exemplo, com formação em áreas específicas e com currículo único em Portugal. Falo da organização dos tempos letivos, com uma estrutura “amiga” das famílias. Falo das múltiplas atividades extracurriculares que enriquecem a formação dos nossos alunos. O reconhecimento de toda a comunidade possibilita ao Colégio anda hoje estar na linha da frente dos processos educativos e atividades formativas.

Destacaria ainda, como terceira dimensão, a importância histórica do Colégio de São Miguel para a solidificação do ensino particular e cooperativo em Portugal e especificamente da Escola Católica, referindo aqui toda a dinâmica desenvolvida nos anos 70 e 80 quer por iniciativa própria, com a liderança do diretor de então  padre Joaquim Ventura, quer por via das importantes associações AEEP – Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo e APEC – Associação Portuguesa de Escolas Católicas, a cuja fundação e dinâmica inicial o Colégio está umbilicalmente ligado. Hoje o Colégio integra a direção da APEC, dando continuidade ao desejo de contribuir para esta missão que é ser Escola Católica nos dias de hoje.

Manuel Lourenço, diretor do Colégio de São Miguel

No seu início, o CSM era para “meninos intelectualmente capazes, que não tinham acesso a outro nível de ensino, porque eram pobres e as escolas eram longe”… Hoje, o CSM é habitualmente associado às elites. Como se explica esta situação?

O Colégio de São Miguel é, como sempre foi, uma instituição de serviço, de formação e de evangelização. Em 1960, quando o padre Manuel Henriques, então pároco de Fátima, instituiu na paróquia um serviço de apoio escolar para meninos que não tinham onde estudar nem como prosseguir os seus estudos, marcou de forma indelével, com este ato de generosidade e de serviço, a identidade desta instituição. O Colégio de São Miguel é uma Escola Católica e por natureza universal. Quero dizer com isto que é uma escola aberta a todos com uma vocação para os mais frágeis e desfavorecidos. Comprovam-no, por exemplo, as dezenas de alunos institucionalizados que o Colégio acolhe. Não fazemos, nem poderíamos fazer, qualquer filtro ou seleção de alunos. A única limitação à frequência no Colégio é a existência de vaga nas turmas, que são poucas, tendo em conta a grande procura que felizmente o Colégio tem.

Os resultados escolares são, no entanto, muito positivos. A taxa de prosseguimento de estudos para o ensino superior ou de entrada no mercado de trabalho, para os que assim preferem, anda perto dos 100%. A exigência, rigor e trabalho é uma constante. 

Aqui convivem e partilham as mesmas salas de aulas e os mesmos recreios alunos carenciados e alunos favorecidos, alunos institucionalizados e alunos que provêm de algumas elites económicas ou culturais, alunos portugueses e alunos não portugueses. Para todos o Colégio tenta dar uma resposta de formação de valores, escolar e cívica, na medida de cada um. Temos por hábito dizer que ninguém pode ficar para trás, nem ninguém pode ser impedido de avançar ao seu ritmo.

Colégio de São Miguel em números

Alunos: 804
Turmas: 32
Professores: 63
Trabalhadores não docentes: 42

É diretor há 5 anos… Que avaliação faz do período em que dirigiu os destinos do estabelecimento?

Em 2017, ano em que assumi esta missão, vivia-se um contexto de grande perturbação nos colégios com contratos de associação, por via dos cortes estatais. Digamos que entre 2017 e 2019 o Colégio perdeu 15 turmas, havendo a necessidade de lidar com o drama das famílias, dos alunos, dos professores e funcionários que ficaram sem trabalho. Foi uma fase muito difícil para toda a instituição. A partir de 2020 iniciou a pandemia cujos efeitos nas escolas em geral foi devastador. As escolas foram essenciais para proporcionar algum carácter de normalidade às famílias e aos alunos, não evitando, todavia, as conhecidas consequências a nível emocional e de saúde mental.  Correndo o risco de parecer imodesto, penso que a Direção do Colégio foi capaz de conduzir estes dois momentos difíceis para o ambiente escolar, dando a segurança e tranquilidade às famílias dos nossos alunos e a todos os profissionais. Penso que temos um conjunto de profissionais dedicados e empenhados, comprometidos com o projeto educativo.

Nestes anos tivemos também a necessidade e possibilidade de modernizar as instalações, reforçando a digitalização dos serviços, climatizando salas de aulas, criando novos espaços que servem os serviços e as dinâmicas escolares, diversos laboratórios, entre muitos outros exemplos possíveis. Em síntese, intervenções que visam modernizar os espaços dando resposta a desafios organizativos e pedagógicos, e intervenções que proporcionam conforto a todos os que frequentam, trabalham e permanecem no Colégio.

Manuel Lourenço, diretor do Colégio de São Miguel

Depois de ter estado nos lugares cimeiros dos “rankings” das escolas, como explica a descida de lugares nessa avaliação?

Em 2020, em consequência da pandemia, as classificações dos exames não foram consideradas na classificação interna das disciplinas. Os órgãos de comunicação social que elaboram os “rankings” não conseguiram distinguir os alunos internos, isto é, os alunos que precisam da classificação dos exames para concluir as respetivas disciplinas, dos alunos autopropostos. Como consequência, o universo de provas realizadas pelos nossos alunos aumentou significativamente. Assim, esta alteração da metodologia de cálculo não teve em conta a especificidade da oferta do Colégio de São Miguel, única em Portugal, e traduziu-se numa “comparação do incomparável”. Se a metodologia fosse a habitual pré-pandemia estaríamos, como usualmente, nos lugares cimeiros dos “rankings” dos exames. Os resultados das entradas no Ensino Superior, para aqueles que se candidataram, são bem elucidativos, com cerca de 90% dos nossos alunos a integrarem os cursos superiores que optaram como primeira ou segunda opção.

Acrescento, todavia, que não valorizámos demasiado os “rankings” no passado – conscientes de que o nosso projeto educativo se centra na formação integral dos alunos e não exclusivamente nos resultados escolares -, mas não os desvalorizamos agora, sabendo que o rigor, a exigência e a seriedade do trabalho devem estar sempre presentes para que os resultados surjam de forma natural.

Sendo um estabelecimento de ensino da Diocese de Leiria-Fátima, qual a ligação efetiva que mantém com a Igreja local?

O Colégio de São Miguel é uma instituição de serviço, de formação e de evangelização, como tive já oportunidade de referir. Neste sentido são inúmeras as atividades desenvolvidas com as instituições da Igreja, diocesanas, congregacionais ou de solidariedade social, dentro e fora de portas. Seria exaustivo enumerá-las. Sintetizaria dizendo que mantemos estreitas parcerias com:

a) instituições e serviços diocesanos, nomeadamente com o Seminário Diocesano de Leiria (Semana de Oração pelos Seminários, por exemplo), com o Departamento da Pastoral Juvenil e Vocacional (por exemplo, em contexto da JMJ2023), com o Serviço de Pastoral do Ensino Superior;

b)  com a paróquia de Fátima e paróquias adjacentes, seja através de instituições que aí operam (Cáritas paroquial, por exemplo), seja através de colaborações pontuais (celebrações penitenciais, por exemplo); 

c) outras instituições da Igreja, nomeadamente com o Santuário de Fátima e com dezenas de congregações religiosas em diversas atividades ao longo do ano (Festa da Páscoa, por exemplo); 

d) Instituições de serviço público (IPSS, lares, Centro de Saúde, centros de acolhimento de crianças, entre outras) com as quais mantemos estreitas relações, ganhando relevo o nosso projeto de voluntariado #imavolunter, com uma adesão de dezenas dos nossos jovens de secundário. 

Voltando à questão que colocou inicialmente, o Colégio de São Miguel é uma instituição diocesana e a sua existência só faz sentido enquanto espaço de formação e evangelização. A ligação à Mãe Igreja é efetiva e constitui parte essencial do nosso projeto educativo.

Quais as metas a que propõe para o Colégio a curto é médio prazo?

Do ponto de vista de conceção global e de baliza de ação, diria que a principal meta será afinar o projeto educativo escolar com o Pacto Educativo Global, iniciativa do Papa Francisco em 2019, onde aborda a problemática da importância das Escolas Católicas

nos dias de hoje, enfatizando a importância de dar resposta às novas gerações, renovando a paixão por uma educação aberta e inclusiva, ecológica, capaz de ouvir e de compreender de forma construtiva.

Do ponto de vista estrito, o Colégio de São Miguel aspira a cumprir com excelência a sua missão de bem servir os alunos e as suas famílias, mantendo um corpo docente e não docentes estável, motivado e comprometido com o projeto educativo e reforçar os laços com a comunidade local. Em Educação nunca tudo está feito ou acabado. Procuramos inovar pedagogicamente, inovar organizativamente, procurar formas diferentes de formar e comunicar, adaptadas aos dias de hoje e às novas gerações. A nossa identidade é a mesma; a realidade vai mudando. Procuramos encontrar o caminho mais curto entre elas.

Uma das vertentes educativas do CSM é a espiritualidade. Como se concretiza este propósito no dia-a-dia da instituição?

Do ponto de vista de dinâmica escolar pedagógica e formativa, apresentei na questão anterior diversos exemplos de atividades com o propósito que enuncia.

Do ponto de vista espiritual e cultual propriamente dito, o Colégio dispõe de uma equipa de Pastoral, dirigida pelo padre Fernando Varela, que concebe e prepara as atividades e os diversos momentos espirituais diários, periódicos ou ocasionais, como por exemplo a oração da manhã, a celebração eucarística de turma, a celebração mariana na Capelinha das Aparições, as celebrações penitenciais pela altura da Páscoa, as atividades do Advento e da Quaresma, as atividades de voluntariado, entre muitas outras.

Dados Históricos

Ano de fundação: 1962

Diretores:
1963 – Pe. Manuel Henriques
1966 – Pe. Joaquim Ventura
2012 – Pe. Adelino Guarda
2017 – Dr. Manuel Lourenço

Em que medida as opções políticas feitas últimos anos na área da educação afetaram o CSM?

Desde 2015 que o governo tem feito uma revisão da rede de contratos de associação. Essa revisão assenta em princípios nos quais não me revejo. Em primeiro lugar, os atuais governantes entendem que só as escolas estatais podem fazer serviço público de educação. Em segundo lugar, retira qualquer possibilidade de as famílias escolherem a escola que, no seu entendimento, melhor serve os seus filhos, endo em conta as suas aspirações. Atualmente, o principal critério de seleção de escola das crianças é o código postal do domicílio fiscal, contrariando o artigo 43.ª da Constituição da República Portuguesa que expressamente enuncia no seu n.º 1 que “é garantida a liberdade de aprender e de ensinar”. 

A revisão da rede pública abrangida pelos contratos de associação levada a cabo desde 2015, como referi, acarretou consequências amplamente debatidas na altura, com a destruição de escolas únicas e projetos educativos diferenciados e diferenciadores, de valor acrescentado no panorama educativo nacional, com elevadíssimos índices de sucesso escolar e de satisfação dos membros das comunidades. Entre 2017 e 2019 o Colégio de São Miguel sofreu um corte de 15 turmas, cerca de um terço do total de turmas.

A situação foi dramática, em primeiro lugar para a população de Fátima que se viu privada da possibilidade de frequentar uma escola próxima do local de residência, dada a dimensão do corte de turmas. Em segundo lugar, dificultou as atividades de Educação Inclusiva que é tanto mais eficaz quanto maior é o número de alunos que possam dar corpo à tarefa inclusiva. Em terceiro lugar, obrigou o Colégio a ajustar-se em dimensão do corpo docente e não docente com a necessária desvinculação de profissionais de excelência.

A consequência mais perversa desta ação governativa é a de que o Estado, ao ter esta visão estatizante da educação, ao não promover a cooperação das diversas redes escolares, ao não dar liberdade de escolha às famílias, ao não assegurar a identificação das famílias com o projeto educativo que as serve, está a canalizar o preceito constitucional da “liberdade de aprender e de ensinar” apenas para alguns, para aqueles que têm o privilégio de a poder comprar. Ao invés de reduzir as desigualdades está a agravá-las. 

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