Editorial Rede 22

Falar de escutismo faz-nos imediatamente vir à memória rapazes e raparigas trajados, de lenço ao pescoço. Lembra-nos acampamentos e noitadas em pinhais, talvez à volta de uma fogueira. E sugere-nos aquele tão pejorativo lugar-comum de ajudar senhoras já idosas a atravessar passadeiras. Tenho para mim que não deve haver movimento tão cheio de clichés como o movimento escutista. Alguns deles, a bem dizer, com alguma razão de ser, mas que, por teimarmos em reparamos numa ou outra árvore, nos impedem de olhar atentamente para a floresta.

Há uma injustiça que nos arriscamos a cometer vezes sem conta. Referimo-nos ao dirigismo escutista, àqueles e aquelas que, abnegadamente, dão grande parte do seu tempo para se dedicarem a posições de chefia nos agrupamentos e respetivas obrigações. É uma realidade transversal à própria Igreja pois, se agora falamos de chefes de escuteiros, noutra altura faríamos referência aos catequistas ou a tanta gente que vulgarmente colocamos dentro do saco que rotulámos de “agentes de pastoral”. Talvez ser “chefe”, catequista ou “agente pastoral” tenha um estatuto tão evidenciado que, implicitamente, compensamos com a desconsideração a que os vetamos.

Mas a verdade é que o “chefe de escuteiros” — convenhamos que, pelos paradigmas linguísticos actuais, a nomenclatura não ajuda nada —, para além de ser indispensável na estrutura formativa de qualquer agrupamento, carrega uma responsabilidade que, nos dias de hoje, com o escrutínio permanente da sociedade, não é para qualquer “arcaboiço”. (Pausa para parênteses. Arcaboiço tem, entre outros significados, o de estrutura de madeira de uma construção, o que faz todo o sentido trazê-lo à colação).

Ser “chefe” não é tarefa para qualquer um. Para já, tem sob a sua alçada um grupo de crianças, adolescentes e jovens, claramente em fase de formação das suas personalidades, em que o desempenho dos educadores pode fazer a diferença para a “construção do homem novo”, de um adulto bem formado física, emocional e espiritualmente. Imaginar essa missão, é o suficiente para muitos fugirem a sete pés. Depois, o grau de exigência é sobejamente elevado, tanto pela crítica a que são sujeitos por via desse escrutínio permanente, como pelos requisitos que o próprio Corpo Nacional de Escutas impõe como condição para se ser dirigente e integrar um plano pedagógico e formativo que tem sido aprimorado durante o quase século de existência.

No Fórum que se realizou no passado fim de semana, tornou-se evidente que há lacunas que faltam preencher. Assim de repente, podemo-nos referir ao entrosamento entre os agrupamentos e as dinâmicas pastorais das comunidades onde estão integrados. Ou da real vertente religiosa/espiritual que desde o início foi assumida pelo seu fundador. Mas se é certo que essas ou outras deficiências hão de sempre existir, a explícita manifestação da vontade de ver e julgar os próprios erros e falhas pode ser o catalisador que falta para agir e fazer um movimento ainda mais pujante.

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