Desafios para uma Igreja sinodal em que todos são sujeitos

O processo sinodal está, portanto, ainda no início e já revela as dificuldades de se conseguir envolver todos e se fazer o necessário discernimento, para chegar a conclusões efetivas de modo a implementar-se novos modos de agir eclesial.
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Está a terminar nas dioceses, com as respetivas assembleias, a primeira parte do processo sinodal, desejado e implementado pelo Papa Francisco. As pessoas, mesmo as mais distantes das comunidades cristãs e até as não crentes, foram convidadas a reunirem-se em pequenos grupos para fazerem oração, meditarem e discernirem sobre os assuntos que hão de conduzir a uma renovação da Igreja e da sua missão no mundo. O método indicado visava a escuta do Espírito por parte de todos e uma escuta mútua, para que juntos, mediante o discernimento, partilhassem e identificassem os caminhos futuros a trilhar por todo o povo de Deus.

As dez temáticas em debate abrangem dimensões fundamentais da vida e missão da Igreja: o reconhecimento de que todos, dentro ou fora das comunidades cristãs, somos “companheiros de viagem”, pelo que importa saber integrar e não deixar ninguém à margem (1); a atenta e permanente atitude de escuta de coração aberto é indispensável para identificar a voz e os sinais do Espírito Santo: ouvir o “contexto social e cultural”, os descartados e excluídos, os leigos e as mulheres e uns aos outros (2); muito importante é igualmente a comunicação livre, pelo que “todos estão convidados a falar com coragem e parrésia”, a usar da palavra para dizer o que para si é importante (3); a celebração da Eucaristia, onde se faz escuta comunitária da Palavra e o memorial da morte e ressurreição de Cristo para louvar a Deus e nos santificar, é ato que envolve todos os fiéis (4); na missão eclesial de testemunhar o Evangelho, todos os fiéis são corresponsáveis, pelo que devem participar e ser protagonistas (5); o diálogo é o modo de a Igreja se confrontar com as experiências, convicções e divergências variadas no seu seio e na sociedade, partilhando visões e procurando caminhos juntos de cooperação (6); também com as outras confissões cristãs é possível e desejável o dialogo e o caminho juntos (7); numa Igreja sinodal, conjugam-se em harmonia a autoridade e a participação corresponsável, em ordem a debater e identificar os objetivos comuns, os caminhos a percorrer e os passos a dar (8); discernir e decidir juntos em obediência comum ao Espírito nas diversas instâncias, da base ao topo, é o estilo que caracteriza a Igreja sinodal (9); o caminhar juntos requer uma apropriada espiritualidade trinitária e a formação na sinodalidade, particularmente dos que desempenham funções de responsabilidade no seio das comunidades cristãs (10).

À volta destas temáticas e das questões sobre elas formuladas reuniram-se bastantes grupos. Foi a chamada “consulta ao povo de Deus”, experiência que muitos viveram, comunicando os seus contributos às comissões diocesanas que coordenavam o processo. Também os pobres e os mais vulneráveis eram chamados a participar, procurando ouvi-los. Tentei promover essa consulta e pelo menos alguns idosos numa instituição foram ouvidos. Seria preciso bem mais. Essas pessoas também podem ser inspiradoras para os caminhos a percorrer pela Igreja.

Continuar e praticar a sinodalidade

As assembleias diocesanas onde se vão debater as sínteses da consulta ao povo de Deus são a conclusão de uma primeira fase do processo. Este tem continuidade, sucessivamente, nas conferências episcopais nacionais e em assembleias continentais. Daí os contributos confluem para Roma, onde serão objeto de debate e discernimento pelo Sínodo dos bispos, presidido pelo Papa, em 2023. O processo continuará depois com as orientações do Papa para toda a Igreja.

Não vamos, todavia, ficar simplesmente à espera destas orientações. Devemos continuar o caminho eclesial ao nosso nível, com as responsabilidades que nos competem. Citando palavras do Papa Francisco no início do Sínodo dedicado aos jovens, o Documento Preparatório do atual sínodo diz que o objetivo não é tanto produzir documentos quanto «fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, faixar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender uns dos outros e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, restitua força às mãos» (n. 32).

O processo sinodal está, portanto, ainda no início e já revela as dificuldades de se conseguir envolver todos e se fazer o necessário discernimento, para chegar a conclusões efetivas de modo a implementar-se novos modos de agir eclesial. Não podemos ficar satisfeitos por um grupo numeroso de pessoas participar, dando o seu contributo na resposta às questões. É preciso que o estilo sinodal se enraíze na vida concreta do povo de Deus: nos grupos e comunidades, nas paróquias, dioceses, movimentos, associações, instituições e congregações religiosas, da base até ao nível central da Igreja. O Documento Preparatório afirma que a sinodalidade é, ao mesmo tempo, o objeto e o método do caminhar juntos, é uma experiência eclesial “que permite começar a colher imediatamente os frutos do dinamismo” (n. 25). Esses frutos são internos e externos, no sentido de que tornam fecundo e cativante na sociedade o testemunho pessoal e comunitário da vida cristã segundo o Evangelho.

Então, o desafio a que desde já podemos corresponder é pormos em prática a sinodalidade. A escuta de Deus e dos seus sinais juntos, o discernimento dos passos a dar e a obediência à sua palavra são imediatos e não para mais tarde: «porque tu o dizes, nós o fazemos». A voz de Deus manifesta-se em relação com as situações concretas dos homens e mulheres de hoje, das suas aflições, gritos e anseios. Sair ao seu encontro com o próprio “hospital de campanha” para curar feridas, amparar, dar alento e esperança, com criatividade, é a missão contínua e presente da Igreja. Só muda com as realidades humanas que encontra. Uma Igreja sinodal não pode ficar instalada simplesmente nas suas atividades tradicionais: catequéticas, litúrgicas, festivas, devocionais, caritativas, administrativas… Tem que inovar nas linguagens, métodos e iniciativas, segundo as pessoas a quem serve. A mensagem, o espírito e as atitudes são os mesmos. O que muda são os modos, o estilo e as ações inovadoras em resposta às necessidades das pessoas. Igreja em saída, portanto, e com criatividade.

Desafio é igualmente o envolvimento de todos os membros do povo de Deus, na sua diversidade. Apesar de todos os avanços na participação dos fiéis leigos em várias áreas, ainda estamos numa Igreja demasiado clerical e religiosa. A sinodalidade implica o povo de Deus no seu conjunto, que os fiéis sejam todos protagonistas da vida e missão eclesial, com os seus múltiplos carismas e ministérios. Em comunhão eclesial, é certo, mas cada um pode e deve ter iniciativas e levá-las por diante em colaboração com outros, sem rivalidade nem concorrência, mas em rede, não perdendo o genuíno espirito eclesial. A Igreja pode e deve renovar-se, ganhando nova vitalidade. Para isso é indispensável reconhecer e aproveitar os carismas e talentos de todos os seus membros, como testemunha o Livro dos Atos dos Apóstolos, no início da irradiação do Evangelho e da vida das primeiras comunidades cristãs. As origens são inspiradoras para os tempos e desafios de hoje. “Fidelidade criativa” ao Evangelho é o grande desafio permanente para todo o povo de Deus, também hoje no caminho sinodal.

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