DE OBSTÁCULO EM OBSTÁCULO

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Para um leitor crente, que pega nos textos sagrados como quem reza, lê mais para escutar do que para descobrir e aprender, a Sagrada Escritura, além de todas as outras dificuldades, põe-lhe sempre diante a barreira da linguagem. O que não surpreende quem acredita, porque Deus é um mistério e não pode – literalmente, não pode – deixar de o ser, ainda que faça o máximo para descobrirmos o que Ele quer ser para nós.

Ou seja, para alcançar-nos de modo que O vejamos como alguém da nossa estirpe, sem sacrificar a Sua absoluta transcendência, Deus assume toda a nossa humanidade e utiliza os nossos instrumentos para comunicar entre pessoas: é o mistério da Encarnação – um mistério sobre outro mistério – cuja globalidade faz parte da nossa fé, ainda que frequentemente esqueçamos aspectos fundamentais dela.

É talvez por isso que uma das manifestações mais correntes do orgulho – individual ou comunitário – são as guerrilhas sobre os textos; não falo do confronto sereno de opiniões, mas de guerrilhas em que frequentemente se cai na maledicência, se ofende a caridade, logo o autor principal da Sagrada Escritura, cuja interpretação não tem outro limite senão a fé da comunidade crente, que a acolheu e guarda como Palavra de Deus.

Afinal, a fé é, acima de tudo, uma caminhada até Deus, por Jesus Cristo, logo, a única forma de não perder o rumo e a única luz que nos guia; Ele o disse d’Ele próprio: Eu sou a luz do mundo.

Santo Agostinho, a propósito de outra afirmação do divino Mestre – “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6) – realça o facto de Ele, antes de se afirmar como a vida, declarar que o caminho para chegar a essa verdade e a essa vida, é Ele. O caminho; não um caminho. Ou seja, não há alternativa para Jesus Cristo.

Ele disse que era a luz do mundo; mas esta luz não nos guia senão na medida em que fugimos a todos os clarões que, mesmo quando parecem luminosos, apenas agravam as sombras, porque agitados pelo orgulho que nos sussurra, como a serpente do Génesis: por aqui alcanças a ciência do bem do mal (Cfr Gen 3, 5).

Isto significa que, numa linguagem correcta, exacta, não devíamos falar de caminhada para a fé, mas de caminhada na fé.

E uma caminhada que a cada passo encontra barreiras mais difíceis que a da própria linguagem, que já não usa a palavra, mas factos surpreendentes, encruzilhadas para sair das quais não bastam os discursos dos sábios, e as sugestões dos santos, nnca passam de sugestões: sabemos que não temos senão que escutar, no silêncio do coração, como Maria e José, o que por detrás de tudo isso nos quer Deus comunicar.

Estas reflexões, inspiradas nos textos de terça e quarta feira últimas, acabam por me fazer mergulhar no mistério da vocação de José, escolhido por Deus para pai de Seu Filho feito homem.

Vocação misteriosa, como todas as vocações divinas, mas que, quando a vemos do lado do chamado, nos aparece com algumas marcas tão profundamente evangélicas, que só espanta os Padres e os teólogos levarem tanto tempo a descobrir a sua importância, não só para vida cristã em geral, mas ainda para a profundidade do mistério de Cristo.

Santa Teresa de Jesus, que foi de certo modo, pioneira na descoberta moderna de São José, chamava-lhe “meu pai e senhor”.

Pai, claro: porque pai de Jesus, que se disse nosso irmão: o Papa Francisco, começa a encíclica com que celebrou os 150 anos da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Universal (1870/2020), afirmando, com base no Evangelho, que José amou Jesus com coração de pai. Jesus, perfeito Deus e perfeito homem, não podia dispensar nenhum dos dois amores mais radicais e mais profundos da natureza humana, que assumiu plenamente: o amor virginal de um pai e de uma mãe.

Não sabemos como é que José tomou conhecimento da gravidez de Maria, como não sabemos muitas outras coisas de que não falam os textos, ou porque isso não é relevante para a mensagem, ou porque o Espírito Santo está permanentemente a desafiar-nos, que exige um mergulho permanente no silêncio. E se há alguma coisa que sobressai em todo o mistério da Encarnação, é precisamente o silêncio.

A começar pelo silêncio de Maria, que, perante a saudação do Anjo, apesar de perturbada, fica a pensar no sentido daquela saudação, que continha um elogio jamais feito a qualquer mulher judia.

É neste silêncio que sinto hoje a necessidade de mergulhar, porque daquele que em toda a história da humanidade desempenhou o papel mais universal e de uma transcendência só ultrapassada pelo da esposa, desse homem não existe na Sagrada Escritura uma única palavra.

O silêncio de José!

O homem justo – que cumpria os deveres da Aliança, como o mais fiel dos fiéis – não ficou calado, não por medo ou comodismo, já que o seu silêncio perante a gravidez de Maria, certamente inspirado no que sabia dela e no amor que lhe tinha, punha em risco a sua própria honra, salvaguardando a da noiva.

José, homem justo, apaixonado, com grande força de carácter, e leal, perante um mistério no qual não vê lugar para si, silenciosamente, mas decidido, salta a barreira do mistério fazendo tudo quanto podia fazer um homem justo; assim se percebe como é que mais uma vez, sem dizer palavra:

“Quando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo e tomou Maria por sua esposa” (Mt 1, 24).

(Fátima, 26.03/17-19

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