[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Para além do mito, a filosofia e a teologia da superioridade da pessoa.
Não tive a felicidade de a ouvir, mas alguém me falou da polémica que teria gerado uma recente frase do Papa, que, ao contrário, do que, por vezes se quer fazer crer, vive, como homem, crente e instância suprema do Magistério da Igreja, a situação actual do mundo, esfacelado pelo inferno da guerra: uma guerra em que o patriotismo e um nacionalismo feroz tentam sacrilegamente esconder-se por detrás de valores humanos, culturais e religiosos.
O Papa terá dito – repito, segundo me informaram – que não se pode rezar a Deus com as mãos cheias de sangue: seja para o que for, senão para O adorar; e isso, só arrancando do coração qualquer cumplicidade com a guerra.
Esta referência de Leão XIV ao “rezar com as mãos cheias de sangue”, trouxe-me à memória um livro português escrito no século XVI, ainda que publicado apenas no início do século seguinte.
Refiro-me à “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto; português que, conjugando de forma especial, muito própria, história, ficção e pensamento ora teológico, ora filosófico, produziu, na nossa língua, segundo algumas estatísticas, o texto mais traduzido, depois de “Os Lusíadas”, na Europa, até finais do século XVIII.
Muitas coisas há neste livro que mereceriam um estudo aprofundado por parte daqueles que se ocupam, alguns com grande mérito, das origens e conteúdos do pensamento português, numa época em que o velho continente se transformava de forma radical, também com o contributo de Portugal.
Entre essas coisas, na “Peregrinação”, narram-se com grande profusão de pormenores, uns históricos outros fictícios, as viagens do pirata António de Faria, acompanhado de Fernão Mendes Pinto – um e outro verdadeiramente ficcionados – que poderíamos talvez comparar a Sancho Pansa e o Cavaleiro da Triste Figura de Cervantes, que, note-se, escreve depois da publicação do texto português.
Inserido numa das viagens do ilustre pirata português, há um episódio que sempre me chamou a atenção dada a modernidade, pelo menos hipotética, que denuncia na mente de quem o narra, ou seja, o companheiro de António de Faria, Fernão Mendes Pinto, ele próprio, que nos deixou também, no seu livro, aquilo que me atrevo a considerar a primeira grande utopia escrita numa língua moderna.
O episódio em causa – que recordo de memória, já que as minhas condições de saúde me não permitem outra coisa – este episódio resume-se em poucas linhas:
Os piratas portugueses assaltam um barco do qual roubam toda a mercadoria, após o massacra dos tripulantes, dos quais escapa apenas uma criança, se me não engano, filha do próprio chefe da embarcação assaltada.
Como bons cristãos – ironia de Fernão Mendes Pinto – os portugueses, alegres pela vitória e despojos alcançados, preparam-se para rezar antes da refeição; acto contínuo, a criança lança-se em grande choro. António de Faria comove-se e promete à criança o carinho que perdera com a morte do pai.
Resposta do órfão, afogado em largo pranto: não é pela morte de meu pai que choro, mas porque vocês oram a Deus com as mãos banhadas em sangue.
Uma criança do interior da selva, nascida e educada entre povos então na Europa considerados bárbaros, surge na ficção de Mendes Pinto como o aviso mais acutilante sobre o carácter relativo de todas as culturas e a afirmação claríssima de que não se pode, sob pretexto nenhum, adorar a Deus esmagando o homem.
Leia-se a “Peregrinação” como aquilo que ela é: um livro sério, ainda que muitas vezes escrito em tom de brincadeira: alguns chamaram-lhe, em meu entender com carradas de razão, não o anti Lusíadas, mas a outra face do imortal poema de Camões.
Aliás, não será por acaso que ambas as obras foram escritas em português, ainda por cima, no mesmo século.
Voltemos à polémica criada pelas palavras de Leão XIV; palavras que infelizmente não pude ler directamente nem na integra, mas cujos ecos me fizeram pensar que, além de não se ter entendido na sua profundidade o pensamento do Papa, continuamos todos divididos em nome de valores que, por importantes que sejam e superiores que nos pareçam, não podem nunca justificar que os utilizemos como pretexto para massacrar as pessoas; aquelas que de qualquer modo discordam da nossa escala valorativa.
D e facto não se percebe como é possível que, em pleno século vinte e um, vejamos de repente o mundo que se diz civilizado dividido em dois blocos, pondo a máscara de valores que, se não têm Deus no horizonte, deixam de ser valores, para se transformarem em armas de destruição e morte.
Isso deixou escrito, no século XVI, o nosso Fernão Mendes Pinto, com aquela criança a chorar porque os assassinos do pai e companheiros rezavam antes de comer, para mais do que haviam roubado.
Isso quis dizer o Papa, quando afirmou que não se pode rezar com as mãos cheias de sangue.
Não reza quem não se converte; e não se converte quem, sem dor nem arrependimento se entrega á construção de máquinas de guerra.
(26.04.07)