Dar ou tirar

Sendo o Homem corpo e espírito, devendo o corpo estar sujeito à vontade para alcançar um bem maior, deverá esforçar-se por compreender qual é e onde está esse verdadeiro bem.

Estamos a viver momentos heróicos. Este ano ficará para a História da humanidade devido à pandemia espalhada pelo Corona vírus em suas variadas mutações, tal como ficou a peste negra na Idade Média. Pena é que a maioria dos nomes daqueles que estão a dar vida por mim e por ti venham a ficar esquecidos, tal como aconteceu no caso da peste. Nessa altura, agora também, houve quem se refugiasse nos campos para fugir ao contágio, e quem se oferecesse, também como agora, para ajudar a tratar e atender os enfermos. Os sacerdotes não tinham mãos a medir para ajudar os doentes, e muitos deles, os mais generosos, pereceram por isso.

Há quem dê heroicamente e há quem tire. Uns oferecem ventiladores, máscaras, equipamentos, meios vários para combater a pandemia; outros roubam, subindo os preços das máscaras, medicamentos, alimentos… e não interessa saber mais. Interessa, sim, agradecer e seguir o exemplo dos melhores, como o de D. Giuseppe Berardeli. o sacerdote italiano que prescindiu do ventilador oferecido pelos seus paroquianos, a favor de um doente mais jovem.

Existe uma enorme diferença entre o dar e o tirar, sobretudo quando se trata da vida. Enquanto dar é um ato de responsabilidade, generosidade e coragem, tirar é um ato egoísta e covarde. Tentarei explicar-me melhor em relação a estas três virtudes humanas: 

  • RESPONSABILIDADE – Há dois modos de dar a vida, uma ordinária e outra extraordinária. O modo comum consiste em darmo-nos através do trabalho e da constituição de uma família, modos de servir a sociedade. O modo extraordinário consiste em aceitar morrer para salvar outras vidas. Ambos os modos não são fruto de um impulso instintivo, mas sim fruto de reflexão, ponderação, vontade forte, decisão e generosidade. Numa palavra, são verdadeiros atos humanos, responsáveis.
  • GENEROSIDADE – É a virtude de quem é capaz de tirar de si para dar ao outro. É evidente no martírio e mais discreta na família, embora também aí seja heroica. Por isso, na atual sociedade hedonista, o número de matrimónios tem vindo a diminuir. Casar-se, supõe viver sempre com a mesma pessoa, desde a juventude até que a morte os separe: aceitar ter filhos com todos os sacrifícios, despesas, alegrias e… saudades próprios do amor, quando estes partem para a sua vida (sim, porque os pais dão, sem nada exigir em troca); cuidar dos pais idosos, atender e ajudar os familiares necessitados, trabalhar para sustentar a família e servir nobremente o seu país. Os celibatários vivem a generosidade com sacrifícios diferentes. Por exemplo, prescindem da sua liberdade para servir o país , a empresa onde trabalham ou as almas, no caso de sacerdotes e religiosos. Bem diferente da situação de quem opta por ficar solteiro, “solto”, sem compromissos.
  • CORAGEM – Consiste na capacidade de enfrentar a dor e, eventualmente, a morte. Não é valentia seguir um impulso de raiva ou vingança. Corajoso é aquele que se prepara para a luta com as armas apropriadas; não apenas a pistola ou o lança mísseis, mas com o esforço por conhecer o inimigo, em que terrenos se irão encontrar, quais as suas armas e quais as táticas a seguir. Acima de tudo, o corajoso deve ter a paz como objetivo da sua ação. 

Sendo o Homem corpo e espírito, devendo o corpo estar sujeito à vontade para alcançar um bem maior, deverá esforçar-se por compreender qual é e onde está esse verdadeiro bem. Todos entendemos agora onde está o mal – na doença – e como o devemos enfrentar – evitando o contágio e tratando os enfermos. Porém, ao fazê-lo, estamos a cuidar apenas do corpo. 

E a alma, não precisará também ela de cuidados? O Papa Francisco diz-nos que sim, e que a Quaresma é o tempo próprio para a cuidar. Para fugir ao contágio da mentira e perda de tempo, aconselha-nos a fazer jejum no uso de telemóveis, televisão, computadores, consolas… e a conviver mais com familiares e amigos. Para curar os seus males (os pecados) fala-nos no sacramento da confissão. Felizmente, em Portugal, ainda temos sacerdotes generosos e disponíveis para confessar, e fazem-no com cuidados redobrados de higiene. As almas merecem viver felizes para sempre e eles ofereceram a sua vida para dar felicidade aos outros. 

Neste dia em que escrevo, comemora-se a ordenação sacerdotal de S. Josemaria Escrivá, um santo que suscitou muitas vocações sacerdotais, entre elas, a de um filho meu. Costumava ele dizer aos “seus filhos” sacerdotes que deviam deixar-se pisar como um tapete para que os outros pudessem pisar suavemente. Nesta Quaresma tão especial de 2020, este conselho de S. Josemaria aplica-se à maioria da população sempre que aceita ficar em casa, evitar encontros sociais, ter cuidados especiais de higiene, etc., etc. Também assim se dá a vida, mesmo sendo pisados. Um sorriso, um obrigado podem ajudar quantos estão a dar a vida por outras vidas. 

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