Fátima, 10 nov 2025 (Ecclesia) – O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, afirmou que a Igreja Católica em Portugal assumiu de forma definitiva o compromisso de cuidar das vítimas de abusos e de garantir a proteção de menores.
“É claro para todos que estamos num caminho que não voltará atrás. Apesar do muito trabalho ainda a fazer para garantir uma Igreja cada vez mais segura, a transparência, a proteção e o cuidado dos mais frágeis estão a tornar-se numa cultura permanente”, declarou o bispo de Leiria-Fátima, no discurso de abertura da 212.ª Assembleia Plenária da CEP, que decorre em Fátima até quinta-feira.
Os trabalhos iniciaram-se com a análise do processo de compensações às vítimas de abusos e a constituição de um fundo solidário nacional. O responsável sublinhou que o objetivo das compensações é oferecer uma “reparação extrajudicial célere e equitativa”, reconhecendo, no entanto, que o prazo previsto até final de 2025 poderá ser alargado devido ao número de pedidos e às dificuldades logísticas verificadas.
A CEP recebeu até agora 84 pedidos de compensação, dos quais 77 foram considerados válidos. A comissão encarregada de propor os montantes indemnizatórios integra sete especialistas na área do Direito. O fundo solidário será alimentado pelos contributos das dioceses e dos institutos de vida consagrada.
D. José Ornelas garantiu que a Igreja continua empenhada no acolhimento das vítimas, no encaminhamento das denúncias e na formação para a prevenção de abusos em todos os contextos eclesiais. Recordou ainda as orientações da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, que desafiam as Igrejas locais a reforçar a cultura de transparência e responsabilidade.
Apela ao diálogo e condena discursos que alimentam divisão e ódio
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) alertou também para o risco de crescente polarização social e política em Portugal, defendendo a importância do diálogo, da escuta e da fraternidade como caminho para a paz e a justiça.
“Vivemos dias em que o medo, a desconfiança e a agressividade parecem querer ocupar o lugar da razão e do diálogo. Nenhum projeto humano se pode erguer sobre a divisão, o insulto ou o ódio”, afirmou o bispo de Leiria-Fátima.
O responsável sublinhou que “a nação só floresce quando cada cidadão reconhece no outro um irmão, não um inimigo”, alertando para a tentação das “palavras fáceis” e das “soluções rápidas” que apenas alimentam ressentimentos e destroem pontes.
D. José Ornelas referiu-se às dificuldades económicas e sociais que marcam o país – o acesso à habitação, a pressão sobre os serviços de saúde, as desigualdades e o aumento da migração – e à necessidade de respostas políticas assentes na dignidade humana e no bem comum. Lembrou ainda a responsabilidade dos governantes e autarcas, apelando a uma “renovação ética e democrática” baseada no compromisso e na construção de consensos.
O presidente da CEP anunciou a realização do “Fórum Migrações”, no próximo sábado, em Fátima, iniciativa dirigida a dioceses, congregações religiosas e organismos nacionais da Igreja. O encontro visa promover a reflexão e a formação sobre o acolhimento e integração dos migrantes, que D. José Ornelas descreveu como “irmãos, não ameaças”, e uma oportunidade para construir uma sociedade “mais justa, fraterna e solidária”.
No plano internacional, manifestou preocupação com os conflitos na Faixa de Gaza, na Ucrânia e em Cabo Delgado, pedindo que a comunidade global mantenha viva a esperança na paz.