Carlos Narciso: o carpinteiro que construiu uma família e uma vida de fé

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Nota do editor: texto lido por Filipa Lagoa, neta de Carlos Narciso, na cerimónia das suas exéquias.

Esta imagem não tem texto alternativo. O nome do ficheiro é: Carlos-Narciso_otimizada.jpg

Se tivessem de definir um herói numa palavra, qual seria? Coragem? Trabalho? Amor? Fé? O avô provavelmente encolheria os ombros e diria: “Herói? Eu só fiz o que tinha de ser”. Mas eu acrescento: reparou o que precisava de ser reparado e inventou o que ainda não existia. E isso diz quase tudo sobre ele.

Há algum tempo, sentei-me com o avô com a ideia de gravar a história da vida dele. Queria que ficasse registada para que quem viesse depois pudesse saber quem ele foi, pela voz dele. A gravação não chegou a acontecer, mas a história sim. Hoje queria contar-vos quem foi o Carlos — não só como avô, pai ou amigo, mas como homem, contado por ele próprio.

O avô nasceu na Chainça. Foi à escola até aos sete anos — e não era propriamente fã dos estudos. Era preguiçoso para os livros, mas nunca foi preguiçoso para a vida. A mãe, sozinha em casa, tirou-o da escola para a ajudar nas fazendas. De manhã semeava milho. E, sem saber, estava a aprender lições que nenhuma escola ensina: responsabilidade, esforço e presença.

Era um de 11 irmãos e adorava a irmã Leonor. Aprendeu cedo que a vida é feita de partilha: que nunca se vive sozinho, que há sempre espaço para mais um à mesa. Mais tarde, construiu a sua própria tribo. Teve oito filhos: a Cecília, a Isabel, a Zaira, o Paulo, o Licos, o Jorge, a Mena e o Miguel. E hoje, com muito orgulho, somos 40 pessoas. Somos a família Narciso — e convenhamos: com um nome destes, só podíamos ser uma família que se multiplica, cresce, faz barulho… e que nunca deixemos de fazer muito barulho. Talvez essa seja uma curiosidade bonita sobre nós: não somos poucos, não somos discretos; somos muitos, unidos e cheios de vida.

Um homem de compromisso e de caminho longo

O avô trabalhou como carpinteiro, fez a tropa e vinha a casa todos os fins de semana. Depois trabalhou dia e noite, sempre à procura da melhor oportunidade. Nunca foi homem de atalhos. Era homem de caminho longo. Construiu casas — literalmente. Mas, acima de tudo, construiu pessoas. E depois há a história mais bonita de todas: a forma como conheceu e amou a avó.

Já andava de olho nela, embora, como qualquer bom jovem confuso, namorasse outra rapariga na altura. Mas a avó era diferente, disse-me ele. Conheceram-se numa festa, em Santa Catarina. Namoro sério: dois bancos separados por mais de um metro. Havia uma distância física no início, mas uma vida inteira de proximidade. O resto é história. Mas houve um dia que ela chegou ao pé dele e disse: “Carlos, eu venho para casar. Vamos tratar do casamento o mais depressa possível”. Ele não teve medo nem ficou ansioso. Era um homem de compromisso.

Perguntei-lhe na altura qual foi o momento mais duro que ele teve e ele disse-me que, durante a construção da casa, cortou gravemente três dedos da mão e teve medo que ela deixasse de o querer por isso. Mas ela respondeu: “Carlos, eu cada vez gosto mais de ti”. Talvez aqui esteja outra definição de herói: alguém que se sente frágil e, mesmo assim, é amado.

Nos últimos anos, a vida exigiu-lhe ainda mais coragem. Passou muito tempo em hospitais. Foi operado à anca, ao joelho e depois veio o cancro nos intestinos, que o obrigou a usar um saco para as fezes. Aos 80 anos, isso mexeu com a confiança dele. Mas deu-nos a todos uma lição silenciosa sobre o que é verdadeiramente a dignidade e sobre o que significa querer viver. Recentemente, teve de ser operado de emergência e colocaram-lhe outro saco. E ele recuperou. Mas não até ao fim; recuperou o suficiente para nos mostrar, mais uma vez, que viver não é apenas estar inteiro por fora — é manter-se inteiro por dentro.

E foi isso que ele fez até ao último momento. Era um homem de fé. Rezava o terço mais vezes do que, provavelmente, metade da plateia aqui presente (desculpem a minha ousadia). Falava com Deus como quem fala com um velho amigo. Por isso, hoje, acredito que os portões do céu não estavam só abertos: estavam à espera dele.

Todos os anos, no Natal, organizamos momentos especiais em família. Neste momento já é difícil juntar todos porque já temos presença internacional: a nossa Ana e Catarina. O Ricardo foi recentemente pai. Mas para os que estavam presentes as provas este ano foram… difíceis de explicar a quem não é da família Narciso. Cozemos ovos frescos a um nível Michelin. Ligamos a alguém e cumprimos o máximo de desafios possíveis. Fizemos entrevistas, criamos bandas. Lemos textos com as letras trocadas — porque nesta família corre a veia da dislexia, mas nem isso nos engana. Avô, nem sabes… a culpa foi sempre do raio do rato que roeu a rolha da garrafa de rum do Roberto, o rei da Rússia, e do crocodilo que sempre sonhou em ser jacaré. E, claro, não esquecemos o famoso 201, que apanhou de surpresa até os nossos matemáticos, detalhistas e especialistas em descobrir o chá de camomila.

O que é que todas estas provas têm em comum? Além de serem uma grande parvoíce sem jeito nenhum? Duas coisas: união e estar presente. E eu acredito que o avô percebia isso melhor do que ninguém. Porque foi exatamente isso que ele fez a vida inteira. Por isso, termino como comecei. O que é um herói?

Talvez seja alguém que semeia milho de manhã. Que constrói casas com as próprias mãos. Que cria oito filhos e deixa uma família de 40. Que sofre, mas não perde a dignidade. Que reza. Que ama uma mulher a vida inteira. Que educa, protege, insiste, falha e tenta outra vez. Talvez um herói seja alguém que nunca se chamou de herói.

O avô vive em cada um de nós. Nos gestos simples. Nas gargalhadas à mesa. Nas tradições que insistimos em manter. O avô não deixou grandes frases, deixou a estrutura. E a verdade é esta: só unidos é que a vida dele fez sentido. Há pessoas que não fazem história nos livros, mas fazem história nas pessoas. Não deixam estátuas, deixam gestos. Não ensinam com palavras grandes, ensinam com dias repetidos. O meu avô foi isso: um homem simples com um amor inteiro. E enquanto houver quem se lembre da forma como ele olhava, trabalhava e amava, ele nunca partirá de verdade.

Filipa Lagoa

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