ALEGRIA OU AMARGURA?

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

(UMA MEDITAÇÃO PARA O IV DOMINGO DA QUARESMA)

I

Antes da reforma do Missal Romano, preconizada pelo Concílio Vaticano II e proclamada por São Paulo VI, em 1967, quando não havia ainda a actual estrutura do leccionário dominical em três ciclos, a antífona de entrada, que então designávamos por INTROITO, do IV domingo da Quaresma, era tirada de Isaías 66, 10: “alegrai-vos com Jerusalém, rejubilai com ela, vós todos que a amais” (Is 66, 10).

Na língua então comum a todos os ritos latinos, cantava-se “Laetare Ierusalem et conventum facite qui diligitis eam”; por isso começou a chamar-se a este domingo “dominica laetare”, ligando-se-lhe sobretudo a ideia de um certo alívio na severidade das práticas quaresmais; como vestígio dessa tradição, conserva-se o costume do uso dos paramentos cor de rosa, que só se permitem no terceiro domingo do Avento, também chamado “dominica gaudete”: porque o cântico de entrada eram os versículos 4 a 6, do capitulo IV da carta aos Filipenses, cuja primeira palavra era mais um convite à alegria, em latim “gaudete”. Aliás, a liturgia deste domingo acabou por sofrer a influência do quarto domingo da Quaresma.

Não vamos agora consumir mais tempo a explicar a radical diferença entre os vocábulos “LAETARE”, de “laetitia”, alegria e “GAUDETE”, de “gaudium”, alegria, sentimento interior de felicidade. Direi apenas que basta a diferença dos dois vocábulos que se usam, para perceber como a exortação do Novo Testamento, veiculada por São Paulo, que escreve na prisão aos Filipenses, é algo de muito mais profundo (digamos mesmo, mais humano), que a de Isaías, que escreve para uma cidade cuja reconstrução é muitas vezes ameaçada pelo cansaço e o desânimo.

Não faltam por aí leituras deste e outros profetas, que só não fazem tábua rasa da revelação do Novo Testamento, mas que às vezes nem a nível da leitura crente hebraica conseguem chegar.

Seja como for, torna-se claro que o convite da liturgia – digo, da liturgia católica romana – não podia nunca ficar no plano mais directo de Isaías.

Talvez tenha o seu interesse saber que a sensação de que os cristãos são pessoas tristes, apesar de nos últimos dois séculos, na cultura europeia, isso se repetir quase como um slogan contra o catolicismo, é de origem protestante, do calvinismo aos luteranos da linha mais severa. Ainda que não seja de esquecer a influência negativa do jansenismo, em certos estratos populacionais.

Claro que não se põe sequer em causa a boa vontade pastoral de mudanças feitas no sentido de aproximar mais os ritos do povo, que, sem uma catequese adequada, ou os abandona ou lhes atribui um carácter que fica a meio caminho entre a magia e o farisaísmo, no sentido mais negativo da palavra.

Mas trata-se de um efeito ligado a qualquer rito – antigo, moderno ou futuro – cujo sentido não se explique adequadamente. E não se pode negar que muitas vezes, ainda que com o melhor dos intuitos, o que aconteceu foi introduzirem-se nas celebrações litúrgicas palavras e gestos que escondem quase por completo o carácter sagrado da celebração, afogando o mistério em imitações mais ou menos dignas das festas profanas.

O que quero significar com isto, ainda que pareça o contrário, é que a alegria do crente, enquanto crente, não depende do modo como celebra a sua fé; diria antes o contrário: é a celebração que depende da fé dos seus protagonistas.

Para mim, neste momento, mais do que entrar nessa discussão sobre o carácter triste ou alegre das celebrações, é dizer duas ou três palavras sobre as raízes da verdadeira alegria, aquela a que se referem os escritos bíblicos e litúrgicos.

Retomo um dos textos mais belos do Novo Testamento, que talvez perca um pouco do seu impacto, por ser lido tantas vezes e explicado quase sempre da mesma maneira; até o nome que habitualmente se lhe dá – “parábola do filho prodigo” – reduz de certo modo o seu significa; por isso, os que têm mais em consideração o contexto, preferem chamar-lhe “parábola do pai misericordioso”.

O cardeal J. Ratzinger (Bento XVI), numa das suas homilias privadas, sugere que se lhe chame “parábola dos dois irmãos” e ocupa-se especialmente do irmão mais velho dizendo que é “o que mais nos diz respeito” e também “o ponto de partida e chagada da parábola de Jesus”.

Ao dizer que o irmão mais velho é a figura que realmente nos diz respeito, a lucidez de Ratzinger, certamente unida à sua experiência como pastor e a sua piedade pessoal, esta lucidez abre-nos um horizonte de leitura do texto de São Lucas muito mais importante para nós, cristãos “cumpridores”, com a mente no pecado como algo comportamental, que vemos sempre a distância, mais importante porque nos impede a distracção tantas vezes ocorrente, provocada pela lembrança das guerrilhas provocadas pelos escribas e fariseus.

Talvez possamos voltar ao tema, com palavras respigadas da homilia do sábio cardeal e papa, a fim de pormos de facto em realce onde radica e como se elimina a tristeza de que nos acusam os que nos contemplam no mundo em que vivemos com eles.

(26.03.13)

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