Onde está a omnipotência, omnipresença e omnisciência de Deus, perante os infortúnios humanos, exteriores à capacidade de enfrentamento por parte dos seus filhos muito amados?
A Natureza presenteia-nos com os reflexos da harmonia do Criador, num pôr do sol, ou na beleza duma noite estrelada. Mas os flagelos meteorológicos revelam uma faceta oposta.
Não sejamos ingénuos, nem blasfemos… Deus é Pai, mas a fé nele «não promete um seguro contra todos os riscos», citando o Reitor do Santuário de Fátima, Padre Carlos Cabecinhas, numa homilia dos últimos dias. O próprio Jesus avisou que quem quiser segui-lo e viver a vida com plenitude, tem que se renegar a si mesmo e pegar na sua cruz diária. Esta passa pelo amor abnegado ao próximo, o que exige esforço, mas também pela galhardia face à doença, morte e episódios de força maior, que vão desde os tremores de terra, erupções vulcânicas, passando pelos fenómenos meteorológicos adversos, até às guerras perfeitamente evitáveis, se houvessem estadistas responsáveis. Esta é inevitável em legítima defesa, todavia os agressores são duma miopia comportamental quase indesculpável.
É claro que tudo seria harmonizável com um estalar de dedos divino, mas Deus não é um mágico caprichoso, nem nos facilita demais a vida. Dá-nos a liberdade e uma cruz proporcional aos nossos ombros, embora às vezes haja vontade de nos queixarmos pelo seu peso excessivo. Se não, sem a cruz estaríamos já no Paraíso! A vida humana é permeada na sua relação com a transcendência pelo triunvirato da Graça, da Prova e da Misericórdia, sem escapatória possível. Até o Filho Unigénito foi exposto ao ápice da dor, com a Paixão e morte de cruz. No entanto, a palavra derradeira não fica por aqui, o consolo e a Ressurreição são também o reverso glorioso do misterioso medalhão da Vida.



