No documento Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional – Instrumentum Laboris, da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (3 a 28 de outubro de 2018), é referido, no capítulo IV, que muitos países do mundo estão a enfrentar o fenómeno das fake news, isto é, a difusão incontrolável de notícias falsas através dos meios de comunicação (digital ou não), assim como a dificuldade crescente de as distinguir das verdadeiras[1]. Digamos que a verdade e a força do argumento parecem estar a perder a capacidade de persuasão, levando os meios de comunicação digitais e as redes sociais a não terem uma hierarquia da verdade.
Em todo o mundo, os jovens estão particularmente expostos ao clima do ambiente digital, uma vez que os seus hábitos são altamente comunicativos. Neste sentido, é necessário um acompanhamento para que não se sintam desorientados. A Igreja, sem renunciar à sua especificidade, deve encontrar o modo de transmitir o anúncio cristão em circunstâncias culturais distintas. Além disso, a tradição bíblica diz-nos que é bom reconhecer que a verdade tem uma base relacional[2], isto é, que o ser humano descobre a verdade no momento em que a experimenta por parte de Deus, o único verdadeiramente confiável e digno de confiança. Por isso, o próprio testemunho pessoal desperta à vocação do outro, na busca da felicidade, com histórias pessoais, que não podem ser adulteradas.
A invasão súbita das tecnologias digitais está a começar a ter impactos muito profundos na noção de tempo e espaço, na perceção de si, dos outros e do mundo, no modo de comunicar, aprender e informar-se. Na realidade, esta entrada abrupta das tecnologias digitais privilegia a imagem, em vez da escuta e da leitura, e está a mudar o modo de aprender e o desenvolvimento do sentido crítico. Mais do que nunca, é necessário vigiar e estar plenamente consciente e atento à metamorfose em curso[3].
O uso superficial dos meios de comunicação digitais leva ao risco do isolamento. Na verdade, este isolamento afeta um elevado número de jovens em vários países, especialmente asiáticos, que se refugiam numa felicidade ilusória e inconsistente que gera formas de dependência[4].
Na reunião pré-sinodal ocorrida entre 19 e 24 de março de 2018, os jovens mostraram estar conscientes de que
“frequentemente [..] tendem a se comportar nos ambientes online diferentemente de como se comportam nos ambientes offline. É necessário oferecer uma formação aos jovens de como viver as suas vidas digitais. As relações online podem se tornar desumanas. Os espaços digitais cegam-nos em relação à vulnerabilidade do outro ser humano e privam-nos da nossa autorreflexão. Problemas como a pornografia distorcem a perceção que o jovem tem da sexualidade humana. A tecnologia usada deste modo cria uma realidade paralela ilusória, que ignora a dignidade humana. Outros riscos incluem: a perda de identidade relacionada a uma representação errada da pessoa, uma construção virtual da personalidade e a perda de uma presença social baseada na realidade. Além disso, os riscos a longo prazo incluem: perda de memória, de cultura e de criatividade diante do acesso imediato à informação e a perda de concentração ligada à fragmentação. Além do mais, existe uma cultura ditatorial da aparência.” (RP 4)[5]
Acolhendo o contributo da reunião pré-sinodal, tomamos consciência de que
“os fenómenos de utilização massiva dos recursos digitais, com a sua consequente utilização em todos os âmbitos da vida pessoal e comunitária, levam a que se tome consciência de que a Internet está a fornecer as ferramentas tecnológicas para novas formas de socialização, numa rede de sujeitos e de dispositivos.”[6]
[1] Cf. Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional – Instrumentum Laboris (Cidade do Vaticano, 2018), 23.
[2] Cf. Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional – Instrumentum Laboris, 55.
[3] Cf. Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional – Instrumentum Laboris,23.
[4] Cf. Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional – Instrumentum Laboris,24.
[5] Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional – Instrumentum Laboris, 24.
[6] L. M. Figueiredo Rodrigues, “Mediações da fé e tecnologias”, em Igreja Comunhão (Braga: Paulus, 2019), 158.