Há lugares que parecem nascer já carregados de excesso. Fátima é um deles. Antes de chegarmos, já lá estiveram por nós as imagens televisivas, as romarias, os autocarros alinhados, as promessas cumpridas de joelhos, as bancas de recordações, as velas grossas como troncos, os terços fluorescentes, os lenços brancos, a piedade popular, a incredulidade alheia, a ironia dos que nunca precisaram de pedir nada a ninguém. Fátima chega-nos muitas vezes antes de Fátima: embrulhada em comércio, política, turismo religioso, solenidade institucional, kitsch devocional, mágoa antiga, fé cansada, fé desesperada.
E, no entanto, acredito em Nossa Senhora, minha madrinha de batismo.
Escrevo isto com algum pudor, talvez porque a fé, quando é dita em voz alta, fica imediatamente exposta à troça ou à suspeita. Não é uma declaração elegante. Não cabe bem no vocabulário urbano, cético, culturalmente sofisticado com que aprendemos a proteger-nos. Acreditar em Nossa Senhora — não apenas como símbolo materno, não apenas como construção histórica, não apenas como mito nacional — é aceitar uma certa vulnerabilidade. É admitir que há momentos em que a razão, embora preciosa, não chega; que há dores que não se resolvem com argumentos; que há pedidos que só sabemos formular no escuro.
Fátima talvez não seja o santuário mais bonito do mundo. Não tem a delicadeza de certas igrejas italianas, nem o dramatismo barroco de alguns altares espanhóis, nem a imponência gótica que nos faz sentir pequenos por razões arquitetónicas antes mesmo de nos sentirmos pequenos por razões espirituais. Há em Fátima uma vastidão dura, branca, quase administrativa. O recinto parece por vezes demasiado grande, demasiado exposto, demasiado frio. O cimento e a escala podem esmagar a intimidade. A modernidade de algumas construções convive mal com a memória pobre e rural da Cova da Iria. Há qualquer coisa de desamparado naquele espaço aberto, como se a fé tivesse sido colocada ali sem ornamento, à mercê do vento, da luz crua e da multidão.
Mas talvez seja precisamente isso que torna Fátima tão comovente.
Porque Fátima não é bonita da maneira como um lugar quer ser bonito para nos seduzir. Fátima não nos convence pela harmonia. Não nos recebe com a promessa estética de que tudo fará sentido. Pelo contrário: Fátima é quase sempre desconcertante. Tem peregrinos exaustos, gente que chega com os pés feridos, famílias inteiras agarradas a fotografias, diagnósticos, lutos, culpas, agradecimentos. Tem uma quantidade quase insuportável de dor humana concentrada num só lugar. Há crianças doentes nos braços dos pais, idosos que caminham devagar, mulheres que choram sem espetáculo, homens que fingem não chorar. Há quem venha pedir a cura, quem venha agradecer uma sobrevivência, quem venha apenas porque já não sabe a quem falar.
A carga negativa de Fátima existe. Seria desonesto negá-la. Há o comércio da fé, por vezes grosseiro. Há a exploração sentimental. Há a repetição mecânica de gestos que parecem ter perdido a alma. Há uma certa apropriação política da mensagem, uma história nacional feita de medo, penitência, obediência e sacrifício. Há uma iconografia que pode ser pesada, quase opressiva: o inferno, a culpa, o castigo, a reparação, a criança que sofre, a mãe que avisa, o mundo à beira da perdição. Há também a sombra de uma religiosidade que, durante demasiado tempo, ensinou muitos portugueses a rezar mais por medo do que por amor.
Tudo isso está lá. E mesmo assim Fátima resiste.
Resiste porque, no centro de tudo, há um bem raríssimo: silêncio. Não o silêncio puro, claro, absoluto — porque Fátima é também ruído, passos, cânticos, altifalantes, murmúrios, turistas, motores, vendedores. Mas há ali um silêncio mais profundo do que a ausência de som. Um silêncio que se abre no meio da multidão. Um silêncio que não é vazio, mas escuta. Talvez seja isso que tantas pessoas procuram sem o saber: um lugar onde o sofrimento não precise de ser explicado, onde a esperança não tenha de apresentar provas, onde a comoção não seja ridícula.
Em Fátima, o silêncio não é uma decoração espiritual. É uma forma de hospitalidade. Aquele espaço imenso permite que cada um esteja acompanhado sem ser interrogado. Ninguém pergunta exatamente o que nos leva ali. Ninguém exige uma teologia perfeita. Ninguém pede que a nossa fé esteja arrumada, coerente, limpa. Podemos chegar ali com devoção, dúvida, ressentimento, cansaço, gratidão ou medo. Podemos nem saber rezar. Podemos só ficar.
E às vezes ficar é uma oração.
Talvez eu goste de Fátima por causa disso: não apesar da sua dureza, mas por causa dela. Há lugares religiosos que parecem feitos para os santos; Fátima parece feita para os aflitos. E isso, para mim, é mais importante do que a beleza. A beleza pode elevar, mas a esperança sustenta. A beleza consola os olhos; a esperança segura-nos quando já não sabemos onde pousar a vida.
Nossa Senhora de Fátima não me aparece como uma figura triunfante. Vejo-a antes como uma presença discreta, quase silenciosa, diante de uma humanidade que pede demais porque sofre demais. Uma mãe, não no sentido sentimental e fácil da palavra, mas no sentido mais radical: alguém que fica. Alguém que não resolve tudo, não explica tudo, não impede todas as perdas, mas permanece. E talvez a fé seja, em grande parte, esta intuição de permanência. A certeza íntima de que não estamos inteiramente sozinhos.
Fátima não elimina a dor. Quem lá vai sabe isso. Muitos regressam para as mesmas casas, os mesmos tratamentos, as mesmas ausências, os mesmos problemas. Mas há lugares que não prometem retirar-nos o peso; prometem apenas ajudar-nos a carregá-lo. E, num tempo em que tudo fala, vende, opina, interrompe, Fátima oferece ainda a possibilidade estranha de uma suspensão. Um intervalo. Um terreiro onde se pode estar calado diante do mistério.
É pouco? Talvez. Mas há dias em que é tudo.
Por isso, quando penso em Fátima, não penso primeiro na multidão, nem nas lojas, nem na solenidade, nem sequer nas grandes celebrações. Penso no momento em que alguém, sozinho no meio daquele espaço imenso, baixa a cabeça. Penso no som das velas a arder. Penso nos passos lentos sobre a pedra. Penso nessa espécie de pudor coletivo em que milhares de pessoas, cada uma com a sua ferida, aceitam por instantes não fazer barulho.
E penso que a esperança, quando é verdadeira, não precisa de ser espetacular. Às vezes é apenas isto: uma mulher de branco no centro da nossa aflição; um lugar imperfeito onde ainda se pode chorar; um silêncio grande o suficiente para nele caberem todos os pedidos do mundo. E alegria. Muita alegria.
[A autora, Alexandra Tavares-Teles, é jornalista no Diário de Notícias]