À imagem e semelhança de Deus – Trindade! (II)

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Com o II Concílio do Vaticano e o movimento de renovação que o precedeu e acompanhou, o mistério fundamental da fé cristã, Deus – Trindade Santíssima, recuperou o lugar central na vida e missão da Igreja.  

Se até então parecia distante – isolado em tratados teológicos, profissões de fé e celebrações litúrgicas -, sem incidência prática na vida eclesial e pessoal, com o IIº Concílio do Vaticano o mistério de Deus – Trindade Santíssima tornou-se, por assim dizer, acessível e íntimo a cada fiel.  

É a partir dele que a Igreja se vai repensar e reorganizar, descobrindo nova luz para uma compreensão mais profunda do seu ser, tal como ficou patente na constituição dogmática Lumen Gentium onde, no primeiro capítulo, Deus – Trindade é apresentado como raiz e fonte do Mistério da Igreja e, no segundo capítulo, esta é definida como Povo de Deus, articulando e moldando as suas relações à imagem e semelhança do rosto trinitário de Deus.

De facto, somos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; a liturgia da Igreja dirige-se ao Pai pelo Filho no Espírito Santo; a teologia, nas suas diferentes áreas, passou a dar justa relevância ao mistério central da nossa fé; e a Igreja iniciou um processo de renovação, a começar pela sua própria conceção, cujo impulso e dinamismo continua a produzir frutos, sendo o caminho sinodal, proposto pelo Papa Francisco, um dos últimos e mais importantes.  

A Igreja procede e participa do mistério e da vida da Trindade Santíssima e tem como missão ser ícone, isto é, ser Sua imagem e presença num mundo dilacerado por discórdias, ódios e violência. Através dela, pela ação do Filho e do Espírito Santo – as duas mãos de Deus Pai, no dizer de Santo Ireneu –, a Santíssima Trindade torna-se próxima de todos nós e atrai-nos para Si a fim de vivermos ao ritmo do Seu dinamismo de amor e doação, cuidando uns dos outros e procurando que cada um cresça à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4,13). 

Viver imersos no mistério trinitário de Deus significa aprender a ser ponte, a saber ser amparo e suporte; significa fazer acontecer a fraternidade e ajudar a curar e a restaurar relações, superando ressentimentos, intolerâncias e vinganças; significa ser capaz de harmonizar igualdade com diferença, a pessoa com a comunidade, o particular com o universal. 

Esta experiência íntima e sublime, pessoal e comunitária de Deus – Trindade Santíssima, que se dá na contemplação e na ação, permite-nos descobrir a Sua presença em tudo e em todos, convertendo-nos em construtores da paz, em habitantes comprometidos da Casa Comum e cuidadores das suas criaturas. 

Talvez se possa vislumbrar no resgate teológico, eclesial e espiritual da dimensão trinitária do Mistério de Deus do nosso tempo e sua vivência no quotidiano, o caminho profético apontado por Karl Rahner no pós-Concílio, ao afirmar: “o cristão do século XXI ou será místico ou não será cristão”.

Nicolai Berdaieff, político cristão russo, dizia quando o interpelavam sobre o seu programa e respetivo quadro de valores: “O meu programa é a Santíssima Trindade, pois ela ensina-nos a salvaguardar a dignidade da pessoa e, ao mesmo tempo, a construir a comunidade humana no amor e na justiça”. Que este programa seja também o nosso!

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