Foi uma daquelas conversas de fim de jantar em que o vinho já não é desculpa e as ideias começam a ter peso de verdade. À mesa, pessoas com memória viva da Igreja e outras com apenas a distância confortável de quem nunca precisou de escolher. Alguém repetiu o que se ouve por aí, com um ar de quem lança um desafio: “A Igreja está a perder o comboio.” Queria dizer que o mundo anda depressa, que as empresas inovam, comunicam e seduzem como nunca — e que a Igreja parece ficar na estação, à espera de tempos que já não voltam. A discussão aqueceu. E outro respondeu com convicção: “Mas a Igreja não é uma empresa.”
E ali ficaram as duas afirmações suspensas no ar, como pratos que ninguém sabe bem onde pousar.
Fui para casa com essa tensão dentro de mim, mesmo sabendo qual a minha posição. Não tinha sido debate abstracto, mas um tema que toca em quem, como eu, cresceu entre altares e breviários e, mais tarde, por obrigação académica e profissional, aprendeu a linguagem dos indicadores de desempenho, das estratégias de comunicação e dos funis de conversão — no sentido literal do ‘marketing’, entenda-se. Há nessa conversa uma pergunta real, e ela merece mais do que uma resposta fácil de qualquer lado.
A Igreja não é e não deve ser uma empresa
Comecemos pela evidência que um dos partícipes tinha razão em defender. A Igreja, no seu núcleo mais essencial, existe para algo que nenhuma empresa alguma vez quis ou conseguiu vender: a relação gratuita entre o ser humano e o transcendente. O amor que não cobra retorno. A graça que não exige mérito prévio. O perdão que não está dependente da satisfação do cliente.
Uma empresa mede o sucesso em crescimento, quota de mercado, eficiência e lucro. A Igreja, se for fiel a si mesma, mede-o em algo que os números recusam registar: a transformação interior de uma pessoa.
Quando a Igreja começa a tratar os seus fiéis como consumidores a satisfazer, perde algo que não tem preço — literalmente. Perde a capacidade de dizer verdades incómodas. Perde a coragem profética. Perde o direito de exigir conversão, porque o cliente nunca está errado. As comunidades de fé que mais claramente adoptaram a lógica empresarial — com palcos iluminados, experiências emocionais calibradas, mensagens de auto-ajuda espiritual — cresceram em número e esvaziaram-se em profundidade. Tornaram-se, com frequência, espelhos que devolvem ao fiel a imagem que ele já tinha de si mesmo, em vez de janelas para algo maior.
Há também uma questão estrutural. As empresas têm accionistas, têm um produto, têm um mercado-alvo. A Igreja tem uma missão universal que, por definição, não pode segmentar a humanidade em nichos rentáveis. O pobre sem ‘smartphone’ também é chamado. O idoso sem redes sociais também pertence. A missão não tem filtro demográfico, e qualquer estratégia que comece por perguntar “quem é o nosso público?” corre o risco de responder da forma errada.
O que a Igreja pode, ainda assim, aprender
Mas também é preciso dizê-lo com clareza: a recusa de se tornar empresa não pode ser desculpa para a recusa de pensar. E aqui, nessa metade da conversa, quem diz que a Igreja não é uma empresa deve dar espaço à luz que vem de fora.
As melhores empresas do mundo aprenderam, nas últimas décadas, que as pessoas não querem produtos — querem experiências com sentido, querem pertença, querem ser tratadas como seres humanos completos e não como carteiras ambulantes. Aprenderam a ouvir antes de falar. Aprenderam que a confiança se constrói com consistência e transparência, e se perde num instante de arrogância institucional. Aprenderam que a comunicação não é maquilhagem, é responsabilidade.
A Igreja pode aprender isto sem trair o Evangelho. Pode aprender que uma homilia mal preparada não é espaço para o Espírito Santo, é falta de respeito pelo tempo e pela atenção de quem veio escutar. Pode aprender que a forma como se acolhe um recém-chegado à comunidade é tão ou mais teológica como o Credo que se recita da Eucaristia. Pode aprender que a opacidade financeira e a resistência à prestação de contas não são virtudes cristãs — são obstáculos à missão. Pode aprender que responder ao mundo digital não é vender a alma, é simplesmente aparecer onde as pessoas estão, como sempre o fez, em cada século, nas línguas e formas de cada tempo.
As empresas com propósito perceberam que a autenticidade não se declama — demonstra-se. A Igreja sabe isto desde o princípio. O problema é que nem sempre age em conformidade.
Há ainda uma lição mais subtil, que as melhores organizações laicas descobriram e que as comunidades de fé por vezes ignoram: a diferença entre centralizar poder e distribuir missão. As instituições que sobrevivem e florescem no século XXI são aquelas que confiam nas pessoas, que formam em vez de controlar, que criam líderes em vez de dependentes. Isso não é linguagem empresarial — é, curiosamente, uma das intuições mais profundas do movimento que começou numa colina da Galileia.
Talvez o verdadeiro problema não seja a Igreja aprender ou não com as empresas. Talvez seja a Igreja saber distinguir, com discernimento e coragem, o método da missão. O método pode e deve actualizar-se. Já a missão não pode ter espaço para negociações.
Uma Igreja que comunica mal, que acolhe com frieza, que se fecha nas linguagens de antanho e ignora a solidão digitalizada de quem a procura sem saber bem porquê, essa Igreja não está a ser mais fiel. Está apenas a ser menos frutífera no que se propõe fazer. E isso é, no fundo, uma forma de infidelidade também.
“Pelos frutos os conhecereis”, disse Quem fundou esta Igreja. Não pelos documentos, não pelas estruturas, não pela antiguidade das pedras. Pelos frutos.
E há aquela parábola que devia arder mais do que arde: a dos talentos. O servo que enterrou o que lhe foi confiado não o desperdiçou por maldade — enterrou-o por medo, por excesso de cautela, por uma humildade que era, afinal, cobardia disfarçada. E foi exactamente esse que ouviu as palavras mais duras. O talento dado para frutificar, guardado intacto e inútil, é um talento perdido. A fidelidade ao depósito da fé não se mede pela conservação museológica do que foi recebido, mas pela coragem de o fazer crescer em cada tempo, em cada língua, em cada forma humana de estar no mundo.
Comunicar melhor, acolher com mais humanidade, aparecer onde as pessoas estão, não é render-se ao espírito do tempo. É desenterrar o talento. É, precisamente, ser fiel.
Naquela noite, depois do jantar, alguém disse — e fiquei a pensar nisso — que as melhores empresas do mundo não são as que mais cresceram, mas as que criaram algo de que o mundo precisava mesmo. Talvez seja por aí que a conversa devesse ter começado: não em como a Igreja pode crescer, mas em que falta ela faz — e se está, de facto, a fazê-la.
Essa, parece-me, é a pergunta certa.