A CULTURA DO CUIDADO E A PAZ

Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a mensagem do Papa para o dia Mundial da Paz de 2021

Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a mensagem do Papa para o dia Mundial da Paz de 2021

Como vem sendo hábito, a Comissão Nacional Justiça e Paz quer salientar, com esta nota, alguns aspetos da mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz e a sua pertinência no atual contexto da sociedade portuguesa.

A cultura do cuidado é o centro desta mensagem. Não é alheia a este foco na cultura do cuidado a experiência que se tem vivido por todo o mundo na sequência da pandemia da Covid-19. Essa experiência tem revelado a importância do cuidado para com os doentes atingidos por essa doença e para com as pessoas que mais riscos correm de a contrair de modo fatal, como os idosos.

Ao longo do ano de 2020, a CNJP abordou a questão do lugar dos mais velhos na sociedade portuguesa, encarados como uma riqueza, e da importância das profissões dedicadas ao seu cuidado. Não é demais reforçar a ideia de que deve ser reconhecido, mais que o tem sido até agora, o valor de tais profissões.

A cultura do cuidado é, na mensagem do Papa, contraposta à «cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer». (n. 1). Afirma esta mensagem: «É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição.» (n. 1).

É também com tristeza que vemos Portugal atingido por ventos de racismo e xenofobia. Depois de os serviços oficiais de apoio a imigrantes terem recebido em anos passados elogios no plano internacional, foi com grande indignação que soubemos do bárbaro assassinato de um cidadão estrangeiro no aeroporto de Lisboa a quem havia sido negada a entrada em território português. Uma tragédia que envergonha o Estado português.

Quanto às guerras e conflitos que recentemente se agravaram, não podemos ignorar a situação da região de Cabo Delgado, com as suas centenas de milhar de vítimas, a quem o mundo ainda não prestou a devida atenção.

Nesta mensagem, o Papa Francisco aponta uma “bússola” para um “rumo comum” do processo de globalização, uma “bússola” inspirada na cultura do cuidado e que assenta em quatro princípios basilares da doutrina social da Igreja: a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação (n. 6).

A dignidade da pessoa (conceito que surgiu e amadureceu com o cristianismo) leva a considerá-la sempre fim em si mesma e nunca um mero instrumento avaliado em função da sua utilidade. A pessoa exige sempre a relação, e não o individualismo; isso implica deveres e responsabilidades, como a de acolher e socorrer os pobres, os doentes, os marginalizados, «o nosso próximo, vizinho ou distante no espaço e no tempo».

Cada aspeto da vida social, política e económica encontra a sua realização, quando se coloca ao serviço do bem comum, isto é (na definição da constituição Gaudium et Spes, do concílio Vaticano II), do «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a sua perfeição». Por isso, as nossas ações devem ter sempre em conta os seus efeitos sobre toda a família humana, ponderando as suas consequências para o momento presente e para as gerações futuras.

A solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, não como um sentimento vago, mas como a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum. A solidariedade ajuda-nos a ver o outro –  a outra pessoa ou o outro povo ou nação – «como nosso próximo, companheiro de viagem, chamado a participar, como nós, no banquete da vida, para o qual todos somos igualmente convidados por Deus».

O cuidado estende-se às pessoas e também à salvaguarda da criação e da Terra como nossa casa comum. Estas duas formas de cuidado não podem desligar-se.

 Algumas propostas concretas que decorrem destes princípios são reafirmadas pelo Papa nesta mensagem: como a de que as vacinas contra a Covid-19 estejam ao alcance dos mais pobres (n. 1), ou a de que se destinem verbas atualmente destinadas a armamento a um fundo mundial para eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres (n. 7).

Um outro aspeto abordado na mensagem do Papa é o da importância da educação para o cuidado. Aí se afirma: «A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável» (n. 8).

Sempre em colaboração com a família, são importantes os papéis da escola e da universidade e, em certos aspetos, também o da comunicação social. É assim porque a educação «constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias» (n.8).

A este respeito, vem a propósito relembrar, como já fez a CNJP numa outra nota, a urgência de remediar os malefícios que, entre nós como noutros países, a interrupção do ensino presencial provocou na educação de muitas crianças e adolescentes, sobretudo das famílias mais pobres.

Em síntese, diz a mensagem da Papa para o Dia Mundial da Paz de 2021: «A cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz» (n. 9).

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