A cruz escondida: Pais procuram libertar menina cristã de 13 anos raptada no Paquistão

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“Esta é uma tragédia que se repete”, denuncia Joel Amir Sahotra perante a decisão de um tribunal que rejeitou, no passado dia 3, a libertação de uma menina cristã de 13 anos, raptada em Julho do ano passado no Punjab, e forçada a converter-se ao Islão e a casar com o próprio raptor, um homem muçulmano. Para o dirigente cristão, que recentemente esteve em Portugal, este caso revela a insegurança em que vive esta comunidade religiosa no Paquistão. “Os nossos filhos não estão seguros, as nossas famílias vivem com medo e as nossas vozes não são ouvidas…”

Os pais de Maria Shabhaz, uma menina cristã de 13 anos raptada em Julho do ano passado, “ficaram devastados” quando souberam da decisão do tribunal, que rejeitou no passado dia 3 de Fevereiro a certidão de nascimento da filha, que comprova que ela é ainda uma criança menor de idade. O tribunal aceitou, no entanto, como válida, a declaração da jovem de que se tinha convertido e casado de livre vontade, versão que a família rejeita, garantindo que esse documento foi assinado sob coacção. Este caso mostra, com toda a sua dramaticidade, a “dolorosa realidade” em que se encontra a comunidade cristã no Paquistão, segundo Joel Amir Sahotra, antigo deputado no parlamento provincial do Punjab. Para este destacado dirigente cristão, que ainda recentemente esteve em Portugal, tendo reunido com diversos deputados na Assembleia da República, “os nossos filhos não estão seguros, as nossas famílias vivem com medo e as nossas vozes muitas vezes não são ouvidas…” E o pior é que “este não é um caso isolado, mas sim uma tragédia que se repete”. Num comunicado enviado para a Fundação AIS em Lisboa, Joel Sahotra recorda que, no seu país, “muitas jovens cristãs foram [já] raptadas, convertidas à força e obrigadas a casar antes mesmo de entenderem o que é a infância de verdade”. E diz ainda que, por trás de cada notícia relacionada com estes casos, “há uma família que chora, pais que imploram por justiça e uma criança a quem foi roubada a inocência e o futuro”.

Proteger as crianças é um dever moral

Independentemente da evolução deste caso – a família de Maria Shahbaz diz que não vai desistir da libertação da menina –, para Joel Amir Sahotra é preciso denunciar a forma como a comunidade cristã vive no Paquistão, os constantes atropelos à sua liberdade e dignidade. “Como cristãos no Paquistão, já enfrentamos dificuldades diárias — como a pobreza, a discriminação, a falta de acesso à educação e a protecção limitada perante a lei. Limpamos as ruas, trabalhamos em fábricas e servimos a sociedade com dignidade, mas quando os nossos filhos mais precisam de protecção, a justiça muitas vezes parece distante e demorada”, lamenta. Joel Amir Sahotra recorda que “proteger as crianças não é uma questão religiosa, mas sim uma responsabilidade moral, um dever humano”. Face a tudo isto, e perante mais um revés judicial a atingir a comunidade cristã, o antigo deputado provincial do Punjab apela, na nota enviada à Fundação AIS, ao Governo do Paquistão, ao poder judicial e às autoridades policiais “para que escutem os apelos das famílias pertencentes às minorias”, e que “respeitem a lei, respeitem os registos de nascimento, protejam, sem preconceitos, os menores”. E lança também um apelo à comunicação social e à comunidade internacional para “não desviarem o olhar”. “O silêncio só fortalece a injustiça”. E conclui, dizendo que os Cristãos pedem justiça e dignidade. “Os nossos filhos merecem salas de aula, não tribunais. Merecem segurança, não medo. Merecem infância, não cativeiro. Que o Paquistão se torne um lugar onde todas as crianças – cristãs, muçulmanas ou de qualquer outra fé – possam viver sem medo. Continuaremos a levantar as nossas vozes até que as nossas crianças estejam seguras”, conclui.

Uma história com final feliz…

Ao contrário do caso de Maria Shahbaz, tem havido, no entanto, situações em que o poder judicial atende às reivindicações da comunidade cristã. Ainda recentemente, a Fundação AIS divulgou a história de duas enfermeiras que foram absolvidas da acusação de blasfémia, numa decisão que colocou um ponto final num calvário de mais de quatro anos. A defesa de Mariam Lal e Newosh Arooj, as duas enfermeiras, foi conduzida pela Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) instituição que é apoiada pela Fundação AIS. O resultado judicial representou, neste caso, um desfecho “positivo e raro”, uma vez que os tribunais de primeira instância normalmente não absolvem os acusados de blasfémia por causa da pressão social que estes casos provocam no Paquistão, remetendo as decisões para os tribunais superiores. “A decisão independente e corajosa de um tribunal distrital neste caso, marca uma mudança positiva e rara na prática judicial”, explicou, à AIS, o director da CNJP de Faisalabad, padre Khalid Rashid Ali.

AR discute perseguição aos Cristãos

Durante a recente visita a Portugal, Joel Amir Sahotra reuniu com membros de alguns partidos políticos representados na Assembleia da República, nomeadamente com elementos do CDS-PP, do Partido Socialista e ainda do Chega. Reuniões que classificou como positivas porque todos os parlamentares se mostraram “muito preocupados” e dispostos a “fazer ouvir a voz da comunidade mais perseguida e desfavorecida do Paquistão”, seja no Parlamento nacional, seja em fóruns internacionais. Resultado desse encontro, deu entrada no Parlamento, no passado dia 3 de Fevereiro, a proposta de um “voto de condenação pela perseguição aos Cristãos no Paquistão. No documento, subscrito pelos deputados do CDS-PP, e que a Fundação AIS consultou, referem-se diversas situações de discriminação que atingem a comunidade cristã, nomeadamente ao nível da precariedade laboral e marginalização social. “É particularmente grave a prática discriminatória, ainda hoje existente, de anúncios de emprego que reservam determinadas funções exclusivamente a ‘não-muçulmanos’, institucionalizando a exclusão e reforçando a marginalização de comunidades inteiras”, refere o documento. O objectivo é que a Assembleia da República condene, em sessão plenária, “todas as formas de perseguição religiosa, discriminação e violência dirigidas contra a comunidade cristã no Paquistão”, manifeste a sua solidariedade para com as vítimas e apele às autoridades paquistanesas para que “garantam o respeito efectivo pelos direitos humanos, pela liberdade religiosa e pela igualdade perante a lei, revendo práticas e legislação discriminatórias, nomeadamente no que respeita às leis da blasfémia”.

Paulo Aido 

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