A cruz escondida: No meio da selva da Amazónia, no Brasil, a Igreja faz-se presente

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Foto: ACN

Quando foi enviado para a Amazónia, no Brasil, Paolo Maria Braghini chegou a temer pela sua vida. Ninguém o ameaçou, nem se envolveu em tumultos, nada disso, só que depressa o frade italiano compreendeu que a natureza ali era excessiva em tudo. Bela demais, sufocante demais, doentia. E Braghini chegou a estar mesmo muito doente. Mas a doença maior foi sempre a do amor aos que vivem naquela região, especialmente os muito pobres, os quase esquecidos da sociedade. Um amor doentio que só se compreende para quem vive profundamente enamorado por Deus….

“Ninguém nos visita aqui, só os frades.” A mulher, de corpo débil e rosto já enrugado, fala em ticuna, a língua nativa local. O que acaba de dizer, a uma equipa da Fundação AIS, é o maior elogio que o frade franciscano Paolo Braghini alguma vez poderia escutar. Ele nasceu em Itália, mas cedo se deixou enamorar por Deus e pelo sonho de ser missionário. Quando foi enviado para a Amazónia brasileira, Braghini cumpriu esse desejo, e logo numa das regiões do planeta onde ainda vivem populações nativas. Ser missionário na Amazónia significa ter de deixar todos os preconceitos para trás, tudo o que se pensa que se sabe sobre as pessoas, a vida, sobre o mundo. A própria Amazónia é um lugar à parte. A floresta é por vezes tão densa e sufocante que parece engolir tudo e todos. É nas margens desse verde intenso que serpenteia o grande rio onde vivem as pessoas a quem Paolo foi enviado. Ao fim de pouco tempo depois de ter chegado à floresta, o frade franciscano chegou a pensar que ia morrer. Adoeceu, esteve muito mal, mas sobreviveu. “Quem quiser seguir-Me, tome a sua cruz e siga-Me”, disse ele para consigo vezes sem fim, repetindo as palavras do Mestre. É quase sempre assim. Como se a natureza colocasse sempre à prova os que ousam querer viver por ali. Paolo Braghini superou a prova. “Estou tranquilo, sereno, consciente e muito feliz”, confessa à equipa da Fundação AIS que foi ao Brasil profundo acompanhar o trabalho da Igreja.

Padre, amigo, carpinteiro, médico…

Ser missionário na Amazónia significa adoptar todos os que vivem por ali, todos os que habitam em casas de madeira, muito humildes, quase que se diria apenas cabanas, e sempre equilibradas sobre estacas nas margens do rio. E adoptar todos os que vivem por ali significa alargar quase até ao infinito o sentido de família. É que todos os habitantes da região passaram, de alguma forma, a ser filhos de Paolo e ele passou a sentir a necessidade de cuidar de todos por igual. Para chegar àquelas micro aldeias, às vezes nem isso pois são apenas pouco mais de duas ou três cabanas, o único meio de transporte possível é a jangada ou, com sorte, algum barco a motor. O rio é a grande estrada, o único caminho e é por isso que as pessoas habitam nas suas margens. O interior da floresta é quase impossível. Às vezes, é tão densa a floresta, é tão intenso o emaranhado de ramos e árvores que mal se vislumbra o próprio rio e as pessoas que viajam nas canoas têm de se baixar, como se a natureza as obrigasse a fazer uma vénia, uma saudação. Frei Paolo é padre, amigo, médico, carpinteiro, professor, confidente de todos os que vivem por ali, na Amazónia. É tudo para todos. Paolo, o Frei Paolo, vive apaixonado pela sua missão. É por isso que as palavras desta mulher, já idosa, são tão significativas. “Ninguém nos visita aqui, apenas os frades”, diz ela, em ticuna, o dialecto local. Palavras que mostram como é fundamental a presença da Igreja na Amazónia. “Os frades deram-nos educação, conhecimento e sabedoria”, diz ainda. E acrescenta, numa erudição já antiga, que tem passado de geração em geração, que todos querem crescer na fé, “porque quando esta vida passar, os nossos nomes serão inscritos no Céu”. Eloquente testemunho este, que prova como tem sido preciosa a presença da Igreja na Amazónia brasileira. O amor é assim.

Gestos que fazem a diferença

Um amor que também é possível encontrar através da generosidade dos benfeitores da Fundação AIS. São inúmeros pequenos sinais que o atestam. A canoas ou os barcos a motor, são exemplo disso, mas há todo um mundo construído por pequenos gestos que ali, no meio do verde denso da floresta, fazem toda a diferença. E Paolo Braghini não se esquece de o dizer de viva-voz e de o lembrar a todos os que visita, nem que seja apenas para ajudar a reparar, de martelo em punho, as cabanas onde moram, ou simplesmente para escutar os desabafos de uma vida. Em todos os momentos, em todos os encontros, Frei Paolo gosta de dizer que ele é, ali, apenas o rosto de um mundo de solidariedade que se espalha pelos quatro cantos do planeta. E pede sempre que todos rezem pelos benfeitores da AIS. “Rezamos para agradecer a cada benfeitor da Ajuda à Igreja que Sofre. Não importa se a ajuda é pequena ou grande. É uma ajuda que serve para construir uma capela, para se construir uma canoa, para se comprar um computador, um violão… É ajuda para se manter um jovem daqui, do povo Ticuna, no seminário”, diz, enumerando algumas das iniciativas que se conseguem fazer por ali através das dádivas sempre generosas dos benfeitores e amigos da AIS, tantos deles em Portugal. Os gestos deste frade italiano que se deixou enamorar por Deus já fazem parte da história do povo da Amazónia brasileira. São gestos de amor de quem faz da sua vida uma entrega total aos outros…

Paulo Aido

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