A cruz escondida: A missão de um padre católico entre os semi-escravos do Paquistão

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Foto: ACN

Trabalham horas sem fim para fazerem 1200 tijolos de argila por dia e só ganham 4 euros por isso. Por mais que trabalhem nunca vão conseguir sair da miséria absoluta. São semiescravos. O Padre Thomas conhece-os. São os seus paroquianos, tal como as mulheres e as crianças que revolvem as imensas lixeiras a céu aberto à procura de qualquer coisa que possa render umas moedas para poderem comprar pão…

É fácil para o Padre Thomas descobrir onde estão os seus paroquianos. Basta ir à lixeira a céu aberto onde crianças e mulheres esgaravatam o chão à procura de restos de alguma coisa que possa valer algum dinheiro para poderem comprar pão, ou então na fábrica de tijolos, que na verdade não é bem uma fábrica, mas sim um local onde a terra, a argila, é colocada em moldes, amassada, e deixada a cozer ao sol. São tijolos artesanais, têm de ser produzidos um a um. Cada trabalhador precisa de fazer 1.200 por dia para ganhar 4 euros. Têm de o fazer também para pagarem a dívida que contraíram com o proprietário da fábrica. Na verdade, na verdade, não são trabalhadores, mas sim praticamente escravos. Os trabalhadores têm direitos. Ali, os homens que de cócoras vão amassando a terra com as mãos, têm apenas deveres. E muitos pensam que têm sorte por poderem trabalhar. “Isto parte-me o coração”, diz o Padre Thomas King. Por mais anos que passem nunca se habituou a ver tanto sofrimento. “Em todos os meus anos aqui, o ambiente tornou-se cada vez mais difícil”, diz.

Uma quase escravatura em pleno séc. XXI

Os trabalhadores de tijolos são uma metáfora perfeita do que significa ser cristão hoje em dia no Paquistão. Formalmente, são cidadãos plenos, homens livres. Na verdade, não passam de seres miseráveis que tiveram de se endividar para lá do que alguma vez imaginariam possível para conseguirem um lugar na fábrica. “É o que chamamos de trabalho forçado, uma forma de semi-escravatura”, acrescenta o sacerdote, como se fosse preciso dizer ainda alguma coisa. A situação é terrível. Os que estão ali, nas fábricas de tijolos ou os que andam nas lixeiras a céu aberto, são dos últimos da sociedade. Pertencem normalmente aos povos tribais, são olhados com desdém pela sociedade, são vistos às vezes mesmo com repugnância. Mas para o Padre Thomas King são os seus paroquianos, são o seu povo, a sua gente.

A libertação pela descoberta de Cristo

No Paquistão tem vindo a acontecer uma verdadeira revolução. Os povos tribais, os excluídos da sociedade, normalmente são hindus. No entanto, ao longo dos últimos anos têm vindo a descobrir no Cristianismo uma religião que os olha como iguais, uma religião que lhes dá a dignidade que nunca tiveram. E isso basta para se converterem. Na verdade, é mais do que uma conversão, é a descoberta de que podem ser amados exactamente como são, com os defeitos que têm, a pobreza que arrastam de geração em geração, a miséria das suas vidas. É a descoberta de que podem ser abraçados sem escândalo, sem medo, sem vergonha.

“Ajuda ser louco estar aqui…”

“Alguns tornaram-se cristãos por causa do ensinamento de Jesus de que todos são iguais, que o seu foco está nos pobres, naqueles que são considerados como inferiores pela sociedade”, sublinha o sacerdote. Descobrem isso na mensagem de Jesus e confirmam isso na atenção de pessoas como o Padre Thomas, que está ali por eles, que se dedica a eles todos os dias do ano. Um padre que tenta promovê-los socialmente, também defendendo os seus direitos. “Procuramos responder às necessidades de saúde e educação e, depois, aos que se tornam cristãos, procuramos catequizar e evangelizar, para aprofundar a sua fé. Sem dúvida, há discriminação das minorias, seja nos livros escolares, nos casamentos forçados ou nos casos de blasfémia contra cristãos específicos”, reconhece. A situação não é fácil no Paquistão. É raro o dia em que não há notícias de raptos, de violência, de ataques aos bairros cristãos. Mas o Padre Thomas não desiste. Aquele é o seu povo, é a sua gente. “Acho que ajuda ser louco para estar aqui”, diz. “Ainda há um longo caminho a percorrer, mas abraçar a dor e o sofrimento do mundo e tentar abraçar a esperança e a alegria é ser seduzido por Deus”, acrescenta o Padre Thomas King.

Paulo Aido

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