A arte de olhar

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Uma das tentações mais frequentes da comunicação contemporânea consiste em falar para multidões imaginárias. Criamos mensagens para públicos-alvo, segmentos, audiências, seguidores, utilizadores ou consumidores; estudamos métricas, analisamos comportamentos e definimos perfis com uma precisão cada vez maior. Tudo isto possui utilidade e relevância. Contudo, existe um risco subtil e, talvez por isso mesmo, particularmente perigoso: no meio de tanta informação sobre as pessoas, podemos acabar por perder as próprias pessoas.

Os Evangelhos revelam uma característica notável da comunicação de Jesus: antes de falar, Jesus parece olhar. Pode parecer uma observação simples, quase evidente, mas encerra uma profundidade extraordinária. Jesus não comunica de forma mecânica, nem repete o mesmo discurso perante todos os interlocutores. Também não aplica fórmulas universais de modo indiferenciado. Pelo contrário, adapta a sua linguagem, o seu tom e até o conteúdo da sua mensagem à pessoa concreta que encontra, como se cada encontro exigisse uma nova gramática e uma nova forma de presença.

Basta percorrer algumas páginas dos Evangelhos para reconhecer esta realidade. A conversa com Nicodemos acontece durante a noite e desenvolve-se em torno de questões teológicas profundas; o diálogo com a Samaritana nasce junto a um poço e percorre os caminhos da sede, da história pessoal e da procura de sentido; com Zaqueu, Jesus não começa por uma lição moral, mas por um convite para jantar; e, diante de Bartimeu, o cego de Jericó, inicia a relação com uma pergunta desarmante: «Que queres que Eu te faça?» (Mc 10, 51). Em cada situação, a linguagem é diferente, porque cada pessoa é abordada a partir da sua realidade concreta.

Jesus demonstra uma extraordinária capacidade de entrar no universo simbólico e existencial dos seus interlocutores. Ele não fala apenas às pessoas; fala a partir daquilo que elas vivem, daquilo que experimentam e daquilo que carregam dentro de si. Talvez seja precisamente esta capacidade que faz com que os encontros de Jesus permaneçam tão vivos e tão humanamente reconhecíveis, mesmo depois de dois mil anos.

Jesus nunca parece particularmente interessado em ganhar discussões; aquilo que verdadeiramente procura é alcançar pessoas. Esta diferença é decisiva. Grande parte da comunicação contemporânea procura produzir impacto, captar atenção ou vencer disputas narrativas. Jesus, pelo contrário, procura produzir encontro.

Na forma como nos relacionamos com os outros podemos tratá-los como objectos, reduzindo-os a funções, categorias ou utilidades, ou podemos encontrá-los como pessoas, estabelecendo um verdadeiro diálogo entre sujeitos. Ao ler os Evangelhos, torna-se difícil não reconhecer esta segunda atitude em Jesus. As pessoas nunca aparecem como simples destinatárias de uma mensagem ou como elementos de uma multidão indiferenciada. Cada uma possui uma história, uma dignidade própria e uma singularidade que merece atenção.

Talvez seja precisamente por isso que tantos episódios evangélicos começam com um olhar. Jesus vê Levi sentado na banca dos impostos; vê Zaqueu escondido numa árvore; vê a viúva que deposita duas pequenas moedas no tesouro do Templo; vê a mulher encurvada; vê o jovem rico; vê os discípulos cansados depois de uma noite inteira de pesca sem resultados. Nos Evangelhos, ver raramente significa apenas observar. Significa reconhecer.

Jesus possui uma capacidade singular de chegar ao núcleo mais profundo da pessoa humana. Não se detém apenas nas aparências nem se deixa limitar pelas categorias sociais, religiosas ou culturais da sua época. Vê para além delas. Num certo sentido, a comunicação de Jesus começa antes das palavras; começa na atenção, na capacidade de reparar verdadeiramente no outro.

Esta é uma das grandes lições para o nosso tempo. Vivemos rodeados de estímulos e recebemos mensagens constantemente. O volume de comunicação tornou-se tão elevado que, paradoxalmente, muitas vezes já não prestamos verdadeira atenção às pessoas. Escutamos apenas parcialmente, respondemos demasiado depressa e tiramos conclusões precipitadas, como se a velocidade tivesse passado a ser mais importante do que a compreensão.

Hoje corremos o risco de perdermos a capacidade de estabelecer relações significativas com o mundo e com os outros. Tudo se torna mais rápido, mais eficiente e mais imediato, mas nem sempre mais humano. Jesus segue uma lógica diferente. Interrompe o caminho para escutar, pára para conversar, demora-se nos encontros e cria espaço para que o outro exista plenamente diante dele.

Esta atitude torna-se particularmente evidente nos relatos de cura. Muitas vezes, o milagre não começa com um gesto extraordinário, mas com um acto de atenção. Jesus escuta, pergunta, dialoga e reconhece a pessoa antes de responder à sua necessidade. O sofrimento não apaga a identidade de quem sofre; pelo contrário, torna ainda mais urgente a necessidade de reconhecimento.

Uma das formas mais profundas de amor consiste em oferecer atenção indivisa. Num mundo marcado pela dispersão permanente, esta afirmação tornou-se ainda mais actual. Uma das maiores formas de respeito que podemos oferecer a alguém é fazê-lo sentir-se verdadeiramente visto. Jesus realizava isso de forma notável e, por essa razão, tantas pessoas se aproximavam dele: não apenas porque encontravam respostas, mas porque encontravam acolhimento.

Existe uma diferença fundamental entre comunicar para alguém e comunicar com alguém. A primeira atitude pode limitar-se à transmissão de informação; a segunda implica necessariamente relação. Jesus escolhe constantemente este segundo caminho. A sua comunicação não é apenas verbal, mas profundamente relacional. As palavras surgem sempre inseridas num contexto de proximidade, atenção e interesse genuíno pela pessoa concreta.

Esta perspectiva possui implicações profundas para a comunicação contemporânea, incluindo a comunicação da Igreja. Num mundo cada vez mais segmentado por algoritmos, perfis e estatísticas, permanece actual a necessidade de recuperar a dimensão pessoal do encontro. As pessoas continuam a desejar ser escutadas, continuam a desejar ser compreendidas e continuam a desejar ser reconhecidas.

Os encontros de Jesus continuam a exercer fascínio sobre tantas gerações, porque antes de ensinar, corrigir, desafiar ou inspirar, Jesus faz algo profundamente humano: olha para as pessoas. E, ao olhar verdadeiramente para elas, ajuda-as a descobrir que também elas são vistas por Deus.

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