A arte de fazer perguntas

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Vivemos numa época fascinada pelas respostas. As redes sociais estão cheias de opiniões prontas, os debates transformam-se frequentemente em competições de certezas, os especialistas são convidados a explicar tudo, os comentadores pronunciam-se sobre tudo e os algoritmos tentam antecipar tudo. Nunca tivemos tantas respostas disponíveis. E, no entanto, é possível estejamos a perder uma competência fundamental: a capacidade de fazer boas perguntas.

Curiosamente, Jesus, que para os cristãos é a própria revelação de Deus, aparece nos Evangelhos a fazer perguntas com uma frequência surpreendente. “Que procurais?” (Jo 1, 38). “Quem dizem os homens que Eu sou?” (Mc 8, 27). “Porque tendes medo?” (Mt 8, 26). “Também vós quereis ir embora?” (Jo 6, 67). “Que queres que Eu te faça?” (Mc 10, 51). Ao percorrer os Evangelhos, torna-se evidente que Jesus não comunica apenas através de afirmações. Comunica também através de perguntas. E não se trata de um detalhe secundário, mas de uma das suas estratégias comunicacionais mais sofisticadas.

A pergunta possui uma característica única: não transmite simplesmente uma informação. Cria um espaço interior. Enquanto uma afirmação tende a encerrar um raciocínio, uma pergunta abre um caminho: convida à participação, obriga a pessoa a posicionar-se, desperta reflexão, provoca consciência. O filósofo judeu Martin Buber, cuja obra se centra profundamente na relação humana, defendia que o verdadeiro encontro acontece quando o outro deixa de ser objecto da nossa análise para se tornar interlocutor de um diálogo autêntico. Em muitos episódios dos Evangelhos, é precisamente isso que Jesus faz. Em vez de transformar as pessoas em destinatários passivos de uma mensagem, convida-as a entrar numa conversa que as envolve por inteiro.

As perguntas de Jesus continuam actuais. Elas não envelhecem porque não dependem apenas do contexto em que foram pronunciadas; continuam a interpelar quem as lê. “Porque tendes medo?” — a pergunta foi dirigida aos discípulos durante uma tempestade no lago, mas continua a ecoar em qualquer pessoa confrontada com a incerteza, a fragilidade ou a perda. “Também vós quereis ir embora?” — foi colocada num momento de crise, quando muitos discípulos abandonavam Jesus, mas permanece surpreendentemente actual em todas as situações em que somos chamados a decidir quem queremos ser e quais os valores que desejamos seguir. As perguntas de Jesus atravessam o tempo porque não procuram apenas respostas exteriores. Procuram revelar aquilo que habita o coração humano.

O teólogo Romano Guardini observava que Jesus nunca se limita a transmitir ensinamentos abstractos; a sua palavra dirige-se sempre à pessoa concreta. As perguntas fazem parte desta dinâmica e ajudam cada interlocutor a descobrir algo sobre si próprio. Há um episódio particularmente revelador: quando Bartimeu, o cego de Jericó, grita por ajuda à beira do caminho, Jesus aproxima-se e pergunta: “Que queres que Eu te faça?” (Mc 10, 51). À primeira vista, a pergunta parece desnecessária, pois o problema do homem é evidente — todos sabem que é cego. Mas Jesus pergunta na mesma. Porquê? Porque a verdadeira comunicação não consiste apenas em identificar necessidades. Consiste em reconhecer a dignidade do outro. Ao formular a pergunta, Jesus não trata Bartimeu como um problema a resolver, mas como uma pessoa capaz de falar por si própria. Henri Nouwen escreveu que escutar verdadeiramente significa criar espaço para que o outro possa tornar-se sujeito da sua própria história. A pergunta de Jesus realiza exactamente isso.

Num mundo dominado pela rapidez e pela eficiência, esta atitude continua profundamente desafiante. Quantas vezes presumimos saber aquilo que os outros pensam? Quantas vezes respondemos antes de compreender? Quantas vezes ouvimos apenas o suficiente para preparar a nossa própria resposta? A comunicação contemporânea sofre frequentemente de um excesso de afirmação e de uma escassez de escuta. Jesus segue um caminho diferente: pergunta antes de responder, escuta antes de ensinar, cria espaço antes de apresentar soluções.

Esta atitude aproxima-o, de certa forma, da tradição socrática. O filósofo Sócrates acreditava que as perguntas possuíam uma capacidade única de ajudar as pessoas a descobrir a verdade por si mesmas. Embora os contextos sejam diferentes, existe uma afinidade interessante entre ambos: nem Sócrates nem Jesus pretendem apenas transmitir conhecimento; procuram despertar a consciência. Mas Jesus vai ainda mais longe, pois as suas perguntas não actuam apenas ao nível intelectual. Tocam também a dimensão existencial.

“Quem dizeis que Eu sou?” A questão dirigida aos discípulos em Cesareia de Filipe não é um simples exercício teológico, mas uma pergunta sobre relação, identidade e compromisso. A resposta não se encontra apenas nos livros; encontra-se na vida. É esta a grande força comunicacional das perguntas de Jesus: elas impedem que a fé se transforme numa teoria distante e trazem-na para o território concreto da decisão pessoal.

Num tempo em que somos constantemente bombardeados por respostas rápidas, fórmulas simplificadas e opiniões instantâneas, a comunicação de Jesus recorda-nos uma verdade esquecida: as perguntas certas podem ser mais transformadoras do que muitas respostas. Porque uma resposta informa; uma pergunta pode mudar uma vida. Por isso os Evangelhos estejam repletos delas. Jesus sabia que existem verdades que não podem ser simplesmente entregues, mas precisam de ser descobertas. E a descoberta começa quase sempre com uma pergunta.

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