Há comunicadores que impressionam pela inteligência. Outros pela eloquência. Outros ainda pela capacidade de simplificar assuntos complexos. Jesus tinha tudo isso, mas a razão pela qual continua a ser estudado, citado e escutado dois mil anos depois parece residir noutro aspecto mais profundo: Jesus não comunicava apenas ideias, comunicava sentido. E esta distinção é importante, como podemos ver a seguir
Uma ideia pode ser compreendida e esquecida. Um conceito pode ser aprendido e repetido. Já o sentido tem a capacidade de tocar a vida, reorganizar prioridades e transformar a forma como vemos o mundo. É precisamente por isso que a comunicação de Jesus continua surpreendentemente actual.
Os Evangelhos estão cheios de discursos, ensinamentos e exortações, mas raramente encontramos Jesus a falar de forma abstracta. Em vez de construir sistemas teóricos, conta histórias. Em vez de apresentar definições, mostra imagens. Em vez de recorrer a conceitos complexos, fala de sementes, pescadores, vinhas, figueiras, moedas perdidas, pastores e banquetes. Jesus parte quase sempre da vida concreta.
O biblista protestante e estudioso das parábolas, Joachim Jeremias, observa que Jesus retirava as suas imagens do quotidiano mais simples da Palestina do século I. O extraordinário não estava nos elementos utilizados, mas na forma como esses elementos eram capazes de abrir horizontes novos de compreensão. Uma semente lançada à terra tornava-se uma reflexão sobre o Reino de Deus. Um pai que espera o regresso do filho transformava-se numa revelação sobre a misericórdia divina. Uma mulher que procura uma moeda perdida tornava-se imagem da alegria de Deus diante de quem se reencontra. Jesus fazia o que grandes comunicadores continuam a procurar fazer hoje: ajudar as pessoas a descobrir significado dentro daquilo que julgam conhecer. Por isso, as parábolas continuam vivas. Não dependem de uma época específica, falam da experiência humana, falam do medo de perder, da alegria de encontrar, da dificuldade em perdoar, da inveja, da esperança, da fragilidade e da possibilidade de recomeçar.
O teólogo e escritor Henri Nouwen escreve que as grandes histórias espirituais são aquelas que nos permitem reconhecer a nossa própria história dentro delas. As parábolas de Jesus possuem precisamente essa capacidade. Não são apenas narrativas para serem compreendidas; são narrativas para serem habitadas. Quem nunca se sentiu como o filho pródigo que regressa depois de falhar? Quem nunca se identificou com o irmão mais velho que luta contra o ressentimento? Quem nunca precisou de um bom samaritano ou foi chamado a tornar-se um? As histórias de Jesus possuem uma estranha capacidade de atravessar séculos porque continuam a encontrar morada no coração humano.
Mas existe ainda outro aspecto fascinante: as parábolas raramente oferecem respostas fechadas. Na verdade, muitas vezes terminam de forma desconcertante já que o leitor ou ouvinte fica diante de uma pergunta implícita: O que teria acontecido a seguir? Como responderia eu naquela situação? O que esta história diz sobre mim?
Kenneth Bailey, profundo conhecedor da cultura do Médio Oriente e da tradição oral em que nasceram os Evangelhos, afirmava que as parábolas funcionam frequentemente como convites à participação. Não pretendem apenas informar; pretendem envolver. Quem escuta deixa de ser espectador e passa a fazer parte da narrativa.
Há aqui uma enorme lição comunicacional que parece desafiar a cultura actual marcada pela velocidade, em que a comunicação tornou-se imediata, fragmentada e frequentemente reactiva, e os conteúdos sucedem-se a um ritmo vertiginoso. Hoje, tudo parece concebido para captar atenção durante alguns segundos antes de desaparecer na corrente incessante de novas mensagens.
Neste contexto, as parábolas de Jesus surgem quase como um acto de resistência cultural: obrigam a parar, a imaginar, a pensar. Não oferecem consumo rápido e exigem envolvimento.
Walter Ong, um dos mais influentes estudiosos da oralidade, demonstrou como as culturas orais privilegiavam narrativas concretas, imagens memoráveis e histórias facilmente transmitidas de geração em geração. Jesus comunica precisamente nesse universo cultural. Contudo, a sua genialidade consiste em utilizar os mecanismos da tradição oral para provocar reflexão profunda e não apenas memorização. As suas histórias permanecem porque conseguem unir simplicidade e profundidade que é uma das grandes dificuldades da comunicação contemporânea que frequentemente confunde simplicidade com superficialidade. Jesus mostra exactamente o contrário. As suas palavras são acessíveis, mas nunca simplistas. Qualquer pessoa consegue compreender a história de um semeador ou de um pastor. No entanto, ninguém esgota facilmente o seu significado.
Joseph Ratzinger observa que as parábolas possuem uma dinâmica particular: revelam e escondem ao mesmo tempo. Oferecem luz suficiente para quem deseja compreender, mas exigem sempre uma disponibilidade interior para ir mais longe. Talvez seja essa a razão pela qual continuam a gerar novas interpretações ao longo dos séculos.
Há ainda uma dimensão particularmente relevante para a comunicação da Igreja hoje. Durante muito tempo, parte da linguagem religiosa tornou-se excessivamente conceptual, técnica ou distante da experiência concreta das pessoas. Em certos contextos, falou-se mais sobre Deus do que a partir da vida. Multiplicaram-se definições, categorias e explicações, mas nem sempre se conseguiu criar pontes entre a fé e a existência quotidiana. Jesus seguia o caminho inverso, porque partia da vida para chegar ao mistério e falava daquilo que as pessoas viam para as ajudar a descobrir aquilo que ainda não conseguiam ver. Os campos, as aves do céu, os pescadores, os trabalhadores da vinha, as refeições partilhadas, os dramas familiares e as pequenas alegrias do quotidiano transformavam-se em linguagem de revelação. Nada era demasiado pequeno para se tornar portador de significado. E aqui reside aqui uma das maiores lições comunicacionais dos Evangelhos. Comunicar não consiste apenas em transmitir conteúdos verdadeiros. Consiste em ajudar as pessoas a descobrir sentido. E o sentido raramente nasce da abstracção: nasce do encontro entre a verdade e a experiência humana.
Num mundo saturado de informação, mas frequentemente carente de significado, a comunicação de Jesus continua a recordar que as pessoas não vivem apenas de dados, opiniões ou argumentos. Vivem também de narrativas que lhes permitam compreender quem são, de onde vêm e para onde caminham.
Jesus compreendeu isso como poucos. Por isso, mais do que transmitir ideias, comunicava sentido.