[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Ecos de do texto do evangelho de São João que lemos esta manhã: Jo, 5, 5-17.
Era um doente como tantos outros que, como ele esperavam, segundo a sua linguagem, que a água fosse agitada, para introduzir-se na piscina. Como tantos outros, com a diferença de que os outros tinham amigos que os levavam à piscina, no momento apropriado, enquanto ele estava ali, havia trinta e oito anos, abandonado aos seus limites, sem ter quem ao menos olhasse para ele, quanto mais não fosse, para que ele tivesse a quem falar da sua infelicidade.
O homem, prostrado numa enxerga, não tinha ninguém. Traduzidas para latim, as duas primeiras palavras do doente serviam, no meu tempo de estudante, para desabafarmos com certa elegância, quando nos faltava a ajuda de que precisávamos para alguma coisa: “hominem non habeo”, tinha também um emprego lúdico, que acabava por nos distrair da real situação e da amargura com que dela falava aquele homem.
“Queres ser curado?”
Pensando de modo superficial, talvez nos pareça uma pergunta sem sentido: de facto, qual seria o doente naquela situação que não quisesse ser curado?
Queres ser curado? Pergunta Jesus, não para se informar, mas para que o pobre paralítico, tanto tempo esquecido de toda a gente, encontre finalmente um espaço que o ajude a sentir-se pessoa: por isso, temos de supor que o tom da pergunta leva alguma novidade aos ouvidos do doente, habituados a perguntas, quando as tenha havido, sem conteúdo emotivo, daquelas perguntas apressadas, tanto que nem sequer esperam uma resposta.
“Senhor, não tenho ninguém que me introduza na piscina, quando a água é agitada.”
Sou tentado a pensar que esta resposta, chamando “senhor” a quem o interroga, está marcada por uma confiança que pode conter já uma aceitação humilde e quase ávida da oportunidade certamente encerrada no tom da pergunta.
E daqui parto para a convicção de que o Mestre, na mente do evangelista, mais do que mostrar o Seu poder divino, quer sobretudo dar aos discípulos uma lição prática sobre como a sua “justiça” tem de ultrapassar a dos escribas e fariseus: aqui, sendo amigo dos que não têm amigos. Aproximar-se, mergulhar nas dores e alegrias – sim, alegrias também -, sem esperar uma ocasião especial para isso.
De facto, Jesus “é também senhor do sábado” (Cfr Mt 12, 8); não para o abolir, mas para lhe dar sentido pleno, não consentindo que as práticas a ele, legitimamente ou não, associadas, impeçam o homem de ser verdadeiramente homem; sobretudo amigo dos que não têm amigos.
Por isso cura ao sábado, sem impor qualquer limitação ao paralítico, que recebe ordem de pegar na enxerga e retirar-se.
João narra o que aconteceu depois: os judeus escandalizam-se com duas coisas que não pertencem ao significado essencial do descanso sabático, mas que os zelantes da Lei achavam contrárias a ela: o transporte da enxerga pelo doente curado e a cura efectuada nesse dia. Diríamos, numa linguagem moralizante actual, dois pecados contra a Lei.
Há quem tire partido disto para interpretar no mesmo sentido moralizante as palavras de Jesus, quando torna a ver o paralítico curado:
“Mais tarde, Jesus encontrou-o no templo e disse-lhe: «Agora estás são. Não voltes a pecar, para que não te suceda coisa pior»”.
Afinal, que poderia acontecer ao paralítico pior do que ficar trinta e oito anos numa enxerga, à espera de que alguém lhe acudisse, libertando-o da doença e da solidão em que vivia? É evidente que Jesus não pode falar da doença como um castigo: para o paralítico, pior do que aquela paralisia e abandono, seria certamente a perda da amizade que encontrara ainda antes de ser curado.
Porque, se a minha leitura está correcta, o Evangelho, ainda que o possamos ler como um relato histórico – certamente o hagiógrafo não nos apresenta nem uma parábola nem uma alegoria – mesmo tratando-se de um facto real, a cura de um paralítico, procura lançar-nos mais uma vez no centro do mistério de Cristo, que é sempre, como Ele próprio se definiu, “o caminho, a verdade e a vida”.
Jesus é Deus percorrendo os caminhos dos homens; neste percurso encontra todas as misérias que marcam a nossa existência terrena: mantendo-nos no quadro joanino do Novo Testamento, temos de perceber muito bem o significado do mal-estar que brota da fome, da sede, da cegueira, da paralisia… da solidão.
Para esta e outras enfermidades, que tornam o homem infeliz, sempre Jesus se mostra, com gestos e palavras, a única medicina eficaz, o único que cura verdadeiramente.
Mas ele não é nenhum curandeiro: cura porque é o remédio, assim como ensina fazendo.
E ao discípulo verdadeiramente apaixonado, mais do que o espectáculo do milagre, interessa a caminhada do Mestre junto do paralítico: desde o espaço que desfaz a solidão até à recomendação final:
“Agora estás são. Não voltes a pecar, para que não te suceda coisa pior”.
(Fátima, 26.03.17)