COMO DEUS SE DEFINE

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Era um hebreu do Egipto, que ao contrário dos seus compatriotas – escravizados no cultivo dos campos e nas construções monumentais da cidade real – vivia no luxo da corte, onde fora acolhido e educado como neto do faraó.

Exilara-se, por temer as consequências da luta que iniciara contra os exploradores do seu povo, que, afinal, não estava assim tão esfomeado de libertação como ele julgava.

Chegou à terra de Madian, onde foi acolhido por Jethro, um rico proprietário da zona, que lhe deu em casamento uma das filhas – Sephora, da qual lhe nasceu um filho Gersam – e o encarregou do cuidado dos seus rebanhos.

Ora, aconteceu que enquanto gozava desta paz dourada, alcançada pela fuga dos perigos que corriam os seus compatriotas, no vale do mítico Nilo, foi precisamente então que Deus interveio para recordar-lhe a escravatura do povo de que fugira e que ele devia ir libertar, não já por iniciativa pessoal, própria, mas como mandatário de Deus.

Situado num plano ainda demasiado dependente do politeísmo local, quer saber o nome de quem o envia com um encargo tão difícil, já que, antes de conseguir a libertação por parte do faraó, teria de convencer os hebreus de que estava, de facto, revestido de uma missão divina, em relação a eles.

E que responde Deus?

Que é “AQUELE QUE É”:

Não vale a pena dares um nome à fonte, origem e fim de todo o ser, porque seria sempre uma designação limitada do ser infinito. “Eu sou aquele que sou! Dirás aos filhos de Israel: AQUELE QUE É (EU SOU) enviou-me a vós” (Ex 3, 14).

Da forma verbal aqui usada fizeram muitos povos um nome que os exegetas, na actualidade, com razão se recusam a traduzir.

Várias vezes nos evangelhos Jesus, como no texto de João que lemos na missa desta terça-feira, afirma a Sua identidade com Pai, repetindo a forma verbal do livro do Êxodo:

“Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que ‘Eu sou’ e que por Mim nada faço, mas falo como o Pai Me ensinou. Aquele que Me enviou está comigo: não Me deixou só, porque Eu faço sempre o que é do seu agrado” (Jo 8, 30).

O tetragrama sagrado YHWH, que os Setenta traduziram, para os judeus da diáspora, por “Senhor Deus” permite-nos ver como os discípulos reconheciam a divindade de Jesus, a quem chamavam, com frequência “SENHOR”.

Mas será que Deus se define unicamente com uma afirmação abstracta da Sua unicidade?

Talvez tenha mais importância do que habitualmente se frisa, relacionar três passos do Evangelho, aliás perfeitamente coerentes com outros contextos:

Temos, em primeiro lugar, São Marcos: “O centurião que estava diante, ao ver como expirava Jesus, disse: verdadeiramente este homem era Filho de Deus”.

Não sabemos exactamente o que quis dizer o funcionário real, usando uma expressão muito comum e com vários significados, entre os judeus. Mas não se pode negar a relação estreita deste passo de Marcos com João 3, 14-15; 8, 30).

Em ambos os passos do quarto evangelho se fala da morte de Jesus, com referências – uma directa (3, 15), outra indirecta (8, 30), à serpente erguida por Moisés, no deserto, para curar os hebreus vítimas da mordedura das serpentes venenosas (Números 21, 4-9).

Toda a tradição cristã, da Bíblia aos Padres, autores eclesiásticos e teólogos, sempre considerou este episódio do Antigo Testamento como um sinal profético da morte redentora de Cristo no Calvário, onde o pecado e a morte, simbolizados na serpente, que, afinal, tenta (Paraíso) e cura (Deserto), são definitivamente derrotados.

Pensando bem, torna-se claro que, como simbolicamente se desenha muitas vezes, desde a revelação da entrada do pecado no seio da Criação, o mal, que sempre tentará morder o calcanhar da descendência da mulher, terá a cabeça esmagada por ela.

Directamente, a “descendência da mulher” é Jesus Cristo, Deus feito homem, para salvar o homem da cilada em que caiu, deixando-se enganar pela serpente, o mal, que, como insinua a imagem do Génesis (3, 1), mesmo rastejando, se apresenta com mil disfarces, acabando por seduzir os incautos.

Pondo de lado as discussões possíveis a partir dos textos aqui citados – falo dos discursos dos místicos, exegetas e teólogos que se movem no quadro da fé ortodoxa, segundo o magistério da Igreja – pondo de lado essas discussões, importa frisar o que ainda há poucos dias a própria liturgia proclamava, pondo em realce a diferença de atitudes perante os respectivos adversários, do profeta Jeremias, que faz esta oração, quando repara no modo como o tratam:

“Senhor do Universo, que julgais com justiça e sondais os sentimentos e o coração, seja eu testemunha do castigo que haveis de aplicar-lhes, pois a Vós confio a minha causa”.

No evangelho desta terça-feira, ouvimos Jesus dizer que, uma vez elevado como a serpente de Moisés, saberão que ELE É.

Ele é Deus: por isso morre pedindo perdão para quem O mata de forma tão cruel e iníqua.

Reparemos que o texto não diz, sabereis quem eu sou, mas que EU SOU.

Eu sou, é a resposta dada a Moisés, quando ele reclama um nome que autentique a sua missão e o ajude a realizá-la.

Seja como for, este Deus inominável define-Se claramente no Calvário, onde O escutamos a pedir perdão para os que O perseguem, ao contrário do profeta, que deseja ver o castigo dos seus inimigos.

(Fátima, 26.03.24/25)

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