MARIA DA ENCARNAÇÃO

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Todos a tratavam por São, o que sobremaneira a irritava, já que São era também a Conceição, a Assunção, a Apresentação e, quando calhava, até o nome da sua amiga brasileira – que se chamava Aparecida – era gozosamente transformado em Aparição.

O pior aconteceu quando, um dia, percebeu que as pessoas brincavam com o tratamento Dona São, em si mesmo respeitoso, mas jocosamente transformado “danação”.

Até que, num contexto de formação, especialmente centrada na Liturgia, percebeu como o seu nome pertencia à lista das designações com que a piedade popular designava a Mãe de Jesus.

A Senhora da Encarnação era aquela que Deus escolhera para Sua Mãe, nela divinizando o que de mais profundo se aninha no coração de qualquer mulher que sente orgulho em sê-lo: o sonho de ser virgem e mãe, que brota da generosidade com que Deus a criou, não para ser serva, mas companheira – e tantas vezes amparo – do homem, no longo e acidentado caminho da história.

«Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

São Bernardo, num texto tão belo como teologicamente profundo, imagina e explora a suspensão do Universo perante uma suposta hesitação de Maria, antes da sua resposta definitiva: pode não ter havido tal hesitação, mas o teólogo poeta que foi Bernardo de Claraval, não perde a oportunidade de frisar como Deus quis fazer depender do sim de uma mulher a redenção do Universo.

Nem podia ser de outro modo, já que a Encarnação, como alternativa à aniquilação do Universo, ferido pelo pecado, ou o desvio da vontade humana, voltada contra o Criador, tinha precisamente de assumir essa vontade… vontade da descendência da mulher, que, sem deixar de ser humana, era vontade daquele Deus que prometera esmagar a cabeça da serpente.

Claro. Estamos perante um dos aspectos mais sublimes da nossa fé.

Da nossa fé, digo, não das teorias de um qualquer teólogo, por muito santo que seja, ou qualquer sábio deste mundo, por muito profundas que sejam as suas especulações; a fé, que é um dom absolutamente gratuito de Deus, mas que Ele concede aos corações que de boa vontade se Lhe abrem.

“Se Lhe abrem”, porque, em qualquer dos casos, é sempre Ele que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro, com toda a Sua misericórdia, mas de qualquer maneira, abrindo espaço a que compreendamos que, diante d’Ele somos profundamente indigentes: quisemos o que não devíamos querer, ou seja apoderarmo-nos do que só podemos ter como dom.

É o que nos ensina o Espírito Santo naquele extenso e tão cheio de significado diálogo de Deus com o homem, a mulher e a serpente – no fundo com toda a Criação -, depois do relato da queda (Gen 3, 7-19).

Sem a pretensão de contradizer alguém e menos ainda ofender pessoas mais sábias e mais santas do que eu; pedindo desculpa de não valorizar suficientemente o trabalho pastoral e apostólico de tanta gente, que, ao serviço da evangelização, consome tempo e energias, permito-me expressar a minha dúvida sobre se temos ou não consciência deste percurso do homem, até ser atingido pelo dom da fé.

Corações que de boa vontade se abrem ao dom da fé serão, antes de mais nada, os que aprenderam a discernir os sinais; que apenderam ou se deixam ensinar a discerni-los, onde quer que surjam.

Ora, se o meu pensamento está correcto, de um modo geral, esses sinais temos de ser nós a erguê-los, com um respeito sagrado pela liberdade dos outros, cujo discernimento procuramos guiar, mas nunca condicionar; tendo sempre presente que tocar os corações não nos compete a nós, mas a Deus, com o Qual, como recomendam os autores espirituais, sempre falamos, antes de falarmos d’Ele aos homens.

Será que os discípulos do Senhor, hoje, sobretudo os que, além do sacerdócio baptismal, são chamados, pelo sacramento da Ordem, ou qualquer outra via legítima, ao ministério da evangelização, têm suficiente tempo e disponibilidade para este diálogo pessoal, íntimo com Deus?

Não vale a pena continuar a insistir que vivemos tempos difíceis: a excessiva repetição desta verdade, desintegrada de contextos que alertem para o único remédio que salva o mundo da fome de Deus, que tem de ser o próprio Deus; deus na Sua Palavra, lida com ajuda dos Padres, autenticamente interpretada pela Igreja; fora deste contexto, facilmente nos confundimos com os militantes de um partido político, com o qual, aliás, muita gente hoje identifica a Igreja. E a partir daqui a julgam, fechando os olhos a todo o tipo de sinais que podem aproximar os homens da fé que salva.

Querida São, perdoa que, no dia em que talvez devesse mostrar com mais clareza o meu reconhecimento pelo que, com as tuas companheiras de trabalho, tens feito por mim; mas hoje é também o dia de Nossa Senhora da Encarnação, a humilde Virgem de Nazaré, que Deus escolheu para Sua e nossa Mãe.

Não seria bom eu esquecer aquilo que nos torna todos irmãos: irmãos de Jesus, que nos ensinou a tratar Deus como Pai.

(Fátima, 26.03.26/27)

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